Como lidar com birras

birraHá algum tempo, algumas leitoras enviaram, através da fanpage do blog MdM, perguntas que gostariam de ver respondidas por mim, em função do conhecimento que tenho na área de psicologia infantil. Assim, a partir de agora, em algumas edições da coluna, vou responder  estas perguntas , sempre tendo em mente passar informações que sejam úteis para a leitora que me questionou, mas também para outras mães que estejam passando pela mesma fase ou desafio.

Hoje vou iniciar respondendo uma questão sobre a difícil fase das birras, que costuma acontecer por volta dos dois anos de idade (e que por isso é conhecida por terrible two) em função dessa ter sido uma dúvida bastante comum entre as leitoras que enviaram seus questionamentos.

Espero que esses esclarecimentos as ajudem e, caso restem ainda dúvidas quanto a esse assunto, peço que as deixem no espaço para comentários abaixo que responderei assim que possível.

Obrigada e até a próxima !

Raquel

Pergunta enviada: Como lidar com a teimosia, com as birras e a famosa fase do não, que costuma ficar pior quando a criança chega aos dois anos? Devemos impedir/controlar o excesso de raiva da criança ou deixar? E como fazer isso?

Os dois anos são conhecidos como um momento de teimosia das crianças, mas que, na verdade, refletem um momento onde diversas aquisições importantes se somam e a criança (e sua família) estão aprendendo a lidar com as mudanças.

As birras que surgem neste momento são normais e esperadas, fazem parte do desenvolvimento, pois refletem as mudanças de uma criança que até então era um bebê, totalmente dependente, e que agora adquire a possibilidade de se locomover, de verbalizar, que se interessa ainda mais por explorar o mundo que a rodeia, que já percebe ser capaz de controlar um pouco mais até mesmo seu corpo, mas que é ainda imatura.

Não podemos ignorar que as mudanças na criança despertam sentimentos na família e, muitas vezes, mais intensamente nas mães, que pelas contingências da maternidade são as pessoas que mais intensamente estão ligadas às crianças. Mesclados com o orgulho e a alegria de ver os filhos crescendo, podem surgir sentimentos de perda, causados pela maior independência das crianças, e também de irritação, pela crescente necessidade de supervisão e solicitações verbais. Essa nova demanda pode esgotar os pais e isto também está ligado ao desafio de atravessar esta fase.

Estes sentimentos hostis, que nem sempre são percebidos e admitidos pelos cuidadores, embora sejam genuínos e normais, podem contribuir para o incremento das birras, pois se convertem em mensagens que a criança não é capaz de decodificar, uma vez que situações semelhantes acabam provocando reações diferentes e deixando a criança sem parâmetros.

Nesta fase, embora as crianças tenham uma maior capacidade de verbalização, nem sempre são capazes de transpor para as palavras o que sentem e o que querem dizer. Essa limitação provoca angústia que, nas crianças, muitas vezes, se manifesta como choro, manha, brabeza – traduzindo em miúdos, BIRRA. Além dos avanços em termos de comunicação, a motricidade também avança a passos largos. Caminhar permite à criança “ganhar o mundo” e esta maior capacidade de explorar o ambiente e de realizar movimentos de afastamento e de reaproximação de seus cuidadores, ao mesmo tempo que trazem alegria, produzem muito medo e, mais uma vez, angústia, que vira choro, manha, brabeza – ou seja, BIRRA.

Compreender o efeito destas aquisições é um dos desafios deste trajeto rumo à autonomia, que alterna desejo de se independizar, com as regalias e o conforto de ser bebê. Esta é uma etapa que além de angústia, também provoca na criança muitas frustrações, pelo desejo de tentar fazer coisas e ainda não possuir repertório para tanto, e a frustração deixa qualquer um, seja criança ou adulto irritado, só que aqui a particularidade dos pequenos é que eles não sabem o que fazer com a frustração que sentem.

Portanto, a principal tarefa dos pais nesta fase é ajudar a criança a aprender a se controlar e se relacionar com suas vontades, possibilidades e com os sentimentos que isto provoca, tornando, desta forma, os filhos socialmente habilidosos. Para que isto aconteça, os pais devem estar atentos a si mesmos e oferecer interações sociais positivas, pois eles serão o maior modelo dos filhos.

Você deve estar se perguntando agora, “o que são interações sociais positivas?”. Eu respondo: são todas as ações que promovem boas relações, como comunicar-se com clareza, evitando mensagens implícitas, ser afetivo no contato com os filhos, mas também nas relações do casal e com os avós e por fim, um detalhe que faz toda a diferença, sendo consistentes, seguindo uma mesma linha de ação, explicando as proibições (de forma simples e direta, com poucas palavras) e o mais importante, sendo persistente.

Os pais devem estabelecer limites de forma natural, discernindo com clareza o comportamento aceito, do que não é aceito. Devem mostrar sinais de desaprovação com clareza conjugando a expressão facial, com o tom de voz e a mensagem.

Uma estratégia que ao encontro do que temos de mais moderno em termos de educação hoje é valorizar os comportamentos que são bem vindos de forma mais intensa (reforço positivo) e chamar menos atenção na hora de desaprovar algo (ou seja, destacar o bom, mas não fazer uma tempestade num copo d`água quando tivermos que chamar atenção para algo ruim). O chamado reforço positivo é efetivo, mas exige um trabalho interno intenso, pois exige uma postura que não estamos acostumados a ter, de ignorar o que não é bom (normalmente destacamos o que não é bom). Quem não conta repetidamente as peripécias dos pequenos? Eles percebem e pensam que agradam.

A fase da birra é normal, mas nesta faixa etária, porém, também já é possível observar situações que fogem do esperado e que podem necessitar de intervenção. Quando a frequência for muito alta, com diversas crises no mesmo dia ou crises que persistam por meses, o ideal que você converse com seu pediatra.

Problemas de comportamento estão direta e/ou indiretamente relacionados ao repertório comportamental dos pais. As famílias de crianças com problemas de comportamento são caracterizadas por maior desorganização, por possuírem mais problemas emocionais ou de comunicação e por apresentam comportamentos e modelos “indesejáveis” para o desenvolvimento social e cognitivo das crianças.

Mesmo que no segundo ano a criança adquira maior autonomia física, psicologicamente ainda precisa de muito apoio.

Sentir-se impotente frente à birra é normal, pois trata-se de um comportamento que exigirá um manejo contínuo e consistente para apresentar resultados e, mesmo assim, com o tempo voltará a acontecer. Estes avanços e retrocessos fazem os pais se perguntarem se estão sendo bons pais. Casais unidos tendem a atravessar com menos ansiedade este momento.

Para ajudar seu filho, é necessário estar internamente disponível para lidar com a vicissitudes do desenvolvimento e, com isto, ajudar a criança a integrar os sentimentos antagônicos dentro de si e incentivar sua independização, sem deixar de oferecer um porto seguro onde encontrem apoio quando precisarem.

Confira também:

FOTO COLUNARaquel Suertegaray é psicóloga e mãe da Karol, de 10 anos, uma menina inteligente, esperta e linda que foi adotada aos seis anos de idade. Ela é formada pela PUC-RS e é especialista em Infância e Adolescência e em Avaliação Psicológica pelo Instituto Contemporâneo de Psicanálise e Transdisciplinaridade de Porto Alegre. Já trabalhou como psicóloga de abrigos infanto-juvenis e atualmente atua em consultório particular e como psicóloga escolar. Sob sua responsabilidade também está a Escola Pirlimpimpim de Educação Infantil, da qual é dona e diretora há dois anos.

16 comentários

  1. DANIELA HAMACEK

    BOA NOITE. ENGRAÇADO, PORQUE MEU FILHO TEM 10 MESES E JÁ ACHO QUE ELE FAZ BIRRA, QUANDO QUER DESCER DO COLO OU QUANDO ESTÁ COM OUTRA PESSOA E QUER VIR PARA MEU COLO. MUITO CHATO E CONSTRANGEDOR AS VEZES.

    1. Raquel SUERTEGARAY

      E eles fazem mesmo, desde muito cedo!!! Por isto é tão difícil a tarefa de educar! Encontrar os limites e parâmetros adequados é uma arte!!!

  2. Priscila Nisidozi

    Ola Raquel! Obrigada pelo post! Muito util e caiu como uma Luca nests momento, pois tenho uma pergunta referente ao assunto.. E possivel um bebe com menos de 1 ano fazer birra? Falo isso porque tenho uma filha de 10 meses que por incrivel que pareca ja faz birra, aprendeu agora a ficar gritando quando e contrariada e comeca a dar show, se jogar as vezes. Acredito que seja um comportamento normal para esta fase, ate porque nao sei se um pouco e enjoo e mal estar por causa dos dentes que estao nascendo, mas a verdade e q tem horas q nao sei como devo lidar sem parecer uma mae dura demais lembrando q ela ainda e um bebe e o tratamento e diferente nesta fase, pois sei q muitas coisas is bebes nao tem nocao / entendimento. Poderia me esclarecer isso, por favor?
    Agradeco a atencao! Obrigada!

  3. Tatiana Cali

    Sempre muito bons seus ensinamentos. Minha filha faz birra desde os 7 meses. Fiquei com ela em casa, sem trabalhar fora até os 14 meses. Já estava enlouquecendo porque o nível da birra me tirava do eixo. Não podia ser contrariada que o show começava. Conforme foi crescendo tudo só foi piorando. Passei a não ir mais a locais públicos com vergonha, ou optava por ir durante a semana para evitar o famoso mico. No shopping ela rolava o chão do corredor aos berros. Tentei acolher e ela percebeu meu contrangimento o que só fez agravar a manha. Larguei de mão… Haviam olhares de reprovação e de “força”… Então ela parou e levantou e eu conversei e a acolhi. Num outro dia o segurança do shopping veio pra prerrogativa e nos ficou observando… Tive vontade de morrer pois ele devia estar pensando que nos a maltratávamos… Um verdadeiro filme de terror. Desta vez a peguei no colo e mesmo aos berros fui embora.
    Sempre fui bastante firme e rigorosa com a educação dos meus filhos. Nunca passei por isso comeu filho mais velho (aliás, aconteceu uma única vez!) e agora com ela…
    Ela está com dois anos e meio e como eh difícil esta fase. As birras começam a melhorar… Agora, normalmente acontecem quando está muito cansada, com sono. Enfim! To torcendo para que finde de vez!
    Obrigada Raquel! Obrigada Shi!

    1. Tatiana Cali

      Desculpe os erros acima… Estou digitando pelo celular e só depois que publicou que percebi…rs
      Como não da pra editar… ;-))

  4. Michela Pascoal

    Olá, meu bebê tem 1 ano e 3 meses e tem o hábito de dar tapas na gente, não brigamos na frente dele, o ambiente é tranquilo em casa, e ele não vê crianças brincando de lutar, eu brigo, seguro as mãos dele, falo que não pode, ele chora muito e depois bate de novo, não sei qual seria a maneira correta de tirar esta mania feia dele, para que ele entenda a mensagem com 1 aninho.

  5. Criança Feliz

    Ótimo post Raquel!
    Realmente é muito difícil lidar com as pirraças dos pequenos!
    Poucos pais hoje em dia conseguem lidar com a falta de limites das crianças!
    http://www.cdinfantil.com.br/blog/4-dicas-para-repreender-uma-crianca-sem-ser-muito-rigido
    O grande desafio hoje é saber repreender com amor, né?
    Abs!
    Bruna

  6. Sara

    OI Raquel, muito bom seu post.
    Eu tenho um menino lindo de 4 anos, mas a birra dele é demais.
    É uma criança bem ativa, porém quando pede algo, tem que ser feito na hora, se não já abre o bocão, e não aceita o NÂO como resposta, é só ouvir o não que já abre o berreiro.
    Converso muito com ele, mas tem horas que não aguento, quando já vi, gritei com ele, detesto fazer isso, mas é complicado.
    Mas não sou de afrouxar na hora da birra, mas tem aqueles dias que não estamos legais, ai eu vou e faço o que ele quer.
    Será que estou tão errada assim?rsrs
    Obrigada!

  7. Poliana

    Bom dia….tenho uma filhinha de 4 anos e acho q não estou sabendo lidar com o emocional dela…. Eu não sei se é o gênio dela…. Mas me deixa de cabelo em pé…tento lidar da melhor firma possível mas tem hora q sento e choro me sentindo uma zero a esquerda sabe… Um fracasso de mãe… Me dedico tanto, mas ela briga comigo, me responde mal, manda eu deixar ela quieta, faz ameaças do tipo seveu brigar ou bater nela q ela vai ligar para o pai dela….sabe ta sendo mto difícil e sofro mto com isso, porque eu me dedico a ela desde q nasceu 24 hrs por dia… Help please

    1. Shirley Hilgert

      Poliana, sei que isso é difícil mesmo. Leo também está passando por uma fase terrível e algumas coisas que percebi na hora de crise dele são:
      Quando ele consegue me tirar do sério, fico irritada e ele percebe, ele fica mais descontrolado ainda.
      Assim, nessa hora, o ideal é manter o sangue frio, se controlar, e mostrar pulso, falando firme, levando a criança embora de um lugar se o ataque for em público, essas coisas… mas evitando gritar (sei que é difícil. ah se sei!) e jamais, jamais, jamais batendo. Isso não ajuda em nada, só atrapalha.
      Outra dica é tentar identificar o que está causando tanto stress na criança: uma briga, uma separação, um mudança. Aqui em casa é a chegada do irmão. Além dos terrible two.
      Por fim, se nada adiantar, a dica é procurar a ajuda de uma psicóloga. Conversar informalmente com uma psicóloga conhecida e aí, se for necessário, talvez marcar alguma consulta. Bjs e boa sorte!

  8. Joelma

    Minha filhs rem 1 ano e 5 meses e entrou na fase da birra, mas tb está se batendo c as mãos na cabeça , que faço ?

  9. Luci

    Minha neta de 1 ano e 9 meses quando é contrariada fica nervosa grita e dá muitos tapas no rosto da mãe ou das avós, estamos corrigindo com carinho explicando e conversando muito ,mas está dificil esta fase, parece que cada dia piora. Qual melhor atitude? Será que é só uma fase? Eu nunca passei por isso e não sei como orientar minha filha que está preocupada.

  10. Juliana

    Nossa, meu filho aos 11 meses já faz birra, se joga pra trás.. mas agora está ficando agressivo (na maioria das vezes só comigo e com a minha mãe). Me bate no rosto e me morde. Não sei o que fazer.
    Achei que essas coisas aconteciam quando a criança era criada com violência ou num ambiente violento e puft, quebrei a cara! *rs
    Eu tenho tentado ensinar a ele fazer carinho quando me bate, quando ele insite em bater eu brigo com ele, coloco ele no chão e me afasto para ele entender que aquilo é feio… mas não sei se estou no caminho certo.
    Se com 11 meses está assim, meu terible two, vai ser realmente terrible!

  11. Raquel Elias

    Muito bom material, de todos que li o melhor.
    Minha filha está com 1 ano e 10 meses e está muito complicado para mim entender e lidar com isso.
    Ela entra nos gritos e choros instantaneamente no ato ao ouvir o não. Não dá tempo nem de eu piscar para poder tentar explicar o porque ou tentar mudar o foco, tenho cedido, mas por estar muito confusa. Em algumas situações consegui me afastar e deixa-la um pouco sozinha, as vezes funciona, mas ela so se acalma depois de muito berrar, chega ate a ficar sem voz….

  12. Juliana

    Shirley,
    Meu filho está com 1 ano e quase 3 meses e está com terríveis crises de birra. Quando contrariado ele grita (até aí, normal) e não satisfeito, bate com as coisas na cabeça ou com a cabeça nas coisas., principalmente se ele não estiver chorando de verdade… aí depois disso, desata a chorar.
    Bate com a cabeça na cadeirinha do carro, no chão, nos móveis, nas paredes.. Ou bate com a mão na cabeça ou com o que estiver a mão (mamadeira, controle remoto, brinquedos…). Brigo com ele, me afasto, mas as vezes acho que ele vai acabar se machucando se deixado sozinho.
    Fico realmente triste e tento não me descontrolar para não piorar a situação, mas confesso que é dificil, E se o terrible two pode ir mais ou menos até os três, como já li por aí, estou perdida, pois meu pequeno começou bem antes dos dois anos. Alguma dica para lhe dar com isso?

    Obrigada e Beijos,
    Juliana

  13. Cleane

    Nossa tenho uma filha de 1ano e 8meses, ela faz muita birra e muito levada. Ela apronta todas. Pega em tudo q não pode, sobe em cima da mesa, pula o raque para o sofá, e ainda faz cara de levada, pode char a atenção muitas vezes mas mesmo assim fica aprontando ainda faz cara de levada, resumindo elacesta terrível. Tenho um filho de oito um anjo de menino, no dia q tenho estudar com ele para ajuda- lo ela não deixa faz birra fica pegando o material do irmão e um pesadelo. Amo muito meus filhos, mas ela está conseguindo me deixar doida, já não sei q eu faço pq no meu primeiro filho ele sempre foi obediente. Será q vc poderia me ajudar com algum conselho? Muito obrigada.

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