UTI de esperanças

Por Cristiane Souza, mãe do Arthur, Anselmo e Leonardo.

Com 28 semanas de gestação nasceram os meus meninos. O nascimento aconteceu três dias após eu ter realizado tardiamente a ecografia morfológica. Foram 2 horas de exame. O esforço foi tão grande que, mesmo eu estando em excelentes condições de saúde, aconteceu uma rotura parcial da bolsa. Fiquei internada tentando segurar, mas a cerclagem (costura do colo do útero) se rompeu, e os meninos vieram ao mundo num emocionante parto natural trigemelar.

Arthur, Anselmo e Leonardo nasceram com apenas 28 semanas. Nasceram pesando aproximadamente 1 kg, cada um. É claro que eu queria que eles tivessem nascido com mais tempo gestacional e não tivessem precisado da internação na UTI (Unidade de Terapia Intensiva), mas o período de UTI neonatal trouxe-me valiosos aprendizados.

O principal deles, é que hospitais e UTIs não precisam ser locais de tristeza, muito pelo contrário, podem ser locais de esperança e alegrias diárias. Acostumada a registrar tudo, logo comprei um caderninho comum na papelaria e comecei a relatar numa espécie de diário resumido o progresso, os sustos, enfim, os relatos que recebíamos diariamente dos médicos e enfermeiras. Descobri, na prática, o quanto cada grama faz diferença, cada milímetro a mais de leite, a importância de equipamentos como o CPAP (Contiunous Positive Airway Pressure) que os auxiliava na respiração, as sondas e acessos, cada etapa.

Quando os meninos completaram 1 mês de vida e portanto, 1 mês de UTI, maquiei-me e levei um bolinho com vela e chapeuzinhos para todos os pais e enfermeiras da UTI e foi aí que percebi, pela primeira vez, que boa parte das pessoas não via a UTI como um período de esperanças, como um espaço de alegrias e conquistas. Todos celebraram conosco e praticamente toda a maternidade nos perguntava se havíamos recebido alta. Era como se não pudessem compreender tanta alegria em meio a um momento de internação. Tanta celebração em meio ao desgaste psicológico e ao esgotamento físico causado pelo plantão diário no hospital e as esgotas sofridas do cada vez mais pouco leite produzido, somado ao receio de “secar”.

Após o evento e com a cumplicidade aumentando entre nós, pais da UTI, uma mãe confessou a mim que um dia já a incomodara ver minha alegria ao chegar. Era como se eu não estivesse indo a uma UTI, onde os meus filhos sofriam e lutavam pela vida. Hoje nós somos bastante amigas e foi nesta primeira conversa que ela confirmou o porquê da minha postura ser outra. Era sim uma grande alegria o momento de ver os meus filhos, de poder transmitir a eles toda a minha confiança e esperança. De mostrar a eles que eu estava com eles e que a luta era nossa. Sou sincera quando digo que jamais me passou pela cabeça que algum deles poderia não resistir. Eu simplesmente ignorava tal possibilidade e cheguei a ficar surpresa quando ouvi por várias vezes me falarem “que bom que os três sobreviveram”. Era ali na experiência da UTI que a cada dia eu me transformava em mãe.

Quando escrevo que a UTI não precisa ser um local de tristeza, de modo algum quero diminuir o sofrimento de uma família que perdeu seu bebê na UTI, mas sim quero apresentar uma postura de gratidão aos profissionais da UTI que lutaram para que isso não viesse a acontecer.

Também a família que acreditou e torceu pela recuperação. A UTI é uma esperança de vida, mas não garantia de vida. Para algo nos acontecer ou acontecer a quem amamos, basta estarmos vivos. Hoje reflito bastante sobre a morte e a perda, após o falecimento do meu pai – a maior dor que senti na vida – e a conclusão a que cheguei é que para a família realmente não existe consolo e que procurar culpados ou se culpar não trará ninguém de volta. Aceitar a morte é uma libertação. É valorizar a vida.

Os meninos nasceram em 02 de agosto de 2008. Mas somente pude pegá-los no colo após 1 mês, antes, apenas colocava minhas mãos por aberturas na incubadora. Minha primeira tentativa de amamentação aconteceu apenas em 10 de setembro, 37 dias após o nascimento, e somente pude fazê-lo para dois deles.O Leonardo eu só pude tentar amamentar no dia 21 de setembro, 1 semana após o Anselmo já ter vindo para casa e 5 dias após o Arthur também ter recebido alta. Na primeira noite do Anselmo em casa o meu marido simplesmente não dormiu. Ficou de plantão ao lado do berço. Segundo ele, não tinha nenhum aparelhinho para avisar se o bebê passasse por alguma dificuldade respiratória. Era mesmo até estranho ter nosso bebê ali sem nenhum equipamento emitindo sons e mostrando batimentos cardíacos. No mesmo dia em que o Arthur e o Anselmo realizavam a primeira consulta ao pediatra, o Leonardo diagnosticava a terceira bactéria e retornava ao CPAP. Pequenos derrames. Transfusão. Mais do que nunca ele precisava da minha alegria e esperança. Um dos melhores dias da minha vida? 7 de outubro de 2008. Dia em que o Leonardo veio para casa, após 67 dias de internação.

Liberamos as visitas no dia 22 de outubro. Neste dia eles completariam o tempo gestacional. Ufa! Vida normal? Que nada! O acompanhamento aos meus pequenos estava apenas no início. Licença maternidade de apenas 4 meses e eu me virando do jeito que podia, trabalhando home office parte do tempo e administrando a apertada agenda médica que tem a mãe de um prematuro. Sorte a minha eu poder trabalhar parte do tempo home office. A maioria das mães não encontra esta oportunidade. Mas vale muito a pena tanta dedicação. Sou testemunha de que é muito importante realizar de modo adequado todo o acompanhamento necessário. Os progressos são mais que gratificantes. Vivi o ano mais intenso e mágico da minha vida.

Agora estes meninos que foram responsáveis por uma verdadeira transformação na minha vida e especialmente no meu ser, já estão com 5 anos de idade. E todos os momentos datados que descrevi acima estão registrados naquele caderno; o mesmo caderno que registrou as 2 cirurgias pelas quais o Arthur passou, o episódio de afogamento após amamentação que quase tirou a vida do Leonardo aos 3 meses, as primeiras palavras, o início do engatinhar, do sentar, do andar de cada um, o acompanhamento de crescimento e peso.

Deste modo, das várias experiências que posso compartilhar com as mamães e papais que estão com bebês internados, acredito que estas duas são as principais. Fazer da UTI um momento apenas de passagem, de celebração à vida, e registrar tudo, com fotos, vídeos, anotações. Não são necessários cadernos sofisticados ou aplicativos elaborados para celulares e computadores; uma caderneta e uma caneta são suficientes. Uma ou duas linhas nos dias mais marcantes é o que basta para se ter registrada a história deste momento único, e que no futuro vocês dirão que passou muito rápido.

E aqui, um pouco da nossa história em imagens…

Painel 1 ano - parte UTI

Lembranças da UTI

 

11 meses

Meninos com 11 meses.

trio abraco 5 anos

Meninos com cinco anos.

com filhos 2013

Eu com toda a turminha.

16 comentários

  1. Clarissa

    Uma história de esperança.. Adorei!!

  2. Tânia Magalhães

    Maravilhosa história, de encher o coração! Parabéns Cristiane, pela força, fé, esperança, enfim, por ter sido esse ser iluminado no caminho dos seus filhotes. Sua postura foi essencial para a vitória dos pequenos, para a vitória da sua família. Que Deus continue os abençoando com muita saúde e paz!

    1. Obrigada, Tânia!
      E estendo os agradecimentos, OBRIGADA A TODAS que aqui deixaram comentários tão gentis.
      Certamente não sou a única que viveu uma história positiva de esperança, mas saber de histórias assim com certeza ajudará mais famílias a terem tal esperança.
      Grande abraço e obrigada pelo carinho.

      1. E quem puder contribuir assinando a favor da extensão da licença maternidade para mães de prematuros, deixo aqui o link:
        http://www.aleitamento.com/campanhas/lei-prematuro.asp
        Grande abraço e novamente obrigada!!!

  3. Iara

    Lindo, muito emocionante! Apesar dela relatar com tanta esperança e alegria, fico imaginando a dor e sofrimento de ver os filhos, tão pequenos, lutando pela vida, cheio de fios e agulhas…

  4. Nagela Carodoso

    Que historia linda, bebês lindos e mãe maravilhosa de compartilhar conosco este momento tão incrível! Chorei de emoção e felicidade pois o fim desta linda historia foi como gostariámos que fosse todas ” E eles foram felizes para sempre” FIM

  5. Cristina

    Que lindo, me emocionei! :)

  6. Isabele

    Amei! Lindo! x

  7. Kênya Figueiredo

    Emocionante demais! Parabéns pela coragem, mamãe! Essa força qu Deus nos dá quando nos tornamos mães é algo realmente maravilhoso e abençoado! Lindos seu filhos! :)

  8. Juliana

    Linda história, muito emocionante mesmo, a força que Deus dá a nós mamães é algo superior vai muito além do que imaginamos poder suportar!

  9. Márcia Mendes

    Ser Mãe!

  10. Talita

    Lindo demais! Emocionada…

  11. Beatriz

    Também tenho uma filha prematura extrema, nascida de 28 semanas com 825gr, a Maria Luísa.

    Tenho o mesmo sentimento que você, da alegria de entrar na uti e ver que seu filho está sendo bem cuidado, crescendo e se desenvolvendo a cada dia. O início é bastante assustador, mas hoje em dia quando falo para as pessoas que quando a Malu entrava em apnéia, eu mesma abria a encubadora e “ressuscitava” ela, as pessoas ficam chocadas, mas só quem passou por isso sabe como é. Para mim foram 85 dias de uti e também registrei tudo. Fiz um álbum com fotos, contando os detalhes, as etapas para a Malu ler quando crescer.

    Hoje ela tem 1 ano e meio e está ótima, o médico falou que não considera que ela tenha mais nenhum atraso em relação aos bebês de sua idade. Eu, felizmente tive 7 meses de licença e dediquei cada minuto à ela, se pudesse ficava mais, mas realmente tive que voltar.

    Parabéns para o seus guerreirinhos !
    Beijos
    Bia e mini Malu

  12. Nati

    Parabéns Cristiane, me emocionei com o seu relato. Acredito que seu otimismo pode servir de inspiração para muitas outras mamães que estejam passando ou que irão passar por isso.

  13. Diego

    Coisa mais linda!
    História tocante e comovente!
    Celebremos verdadeiramente a Vida!

  14. Karina

    Linda história, passei por uma situação parecida. Escrevi um livro que será publicado daqui uns meses, se chama Amigo de Deus. Quero ajudar país que estão com filhos na uti com poucas condições financeiras.
    Lindos seus filhos, parabéns! Beijos

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