Há pais e pais

Ontem acordei cedo. Léo me tirou da cama 6h da manhã. Ele voltou a dormir em seguida, mas eu fiquei lá, rolando de um lado para o outro. Como estava sem fazer nada, resolvi dar uma passadinha rápida no Facebook. Assim que abri a página, fui surpreendida pela mensagem que uma amiga havia deixado para outra amiga, dando os pêsames pela tragédia que havia ocorrido com o sobrinho e afilhado dela (da amiga da minha amiga). Na hora, essa mensagem me chamou a atenção, pois vi que envolvia uma criança. Fui investigar o que havia ocorrido e descobri que se tratava do caso do menino Bernardo, morto, segundo as investigações levam a crer, pelo pai e pela madrasta no interior Rio Grande do Sul dias atrás.

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Bernardo. Image: site G1

Quanto mais eu lia sobre o assunto, mais horrorizada, chocada, indignada eu ficava. O menino tinha apenas 11 anos e era uma criança doce. Ele havia perdido a mãe há quatro anos (ela suicidou-se). No início desse ano ele procurou o poder judiciário, para buscar ajuda, acusando seu pai de abandono familiar, mas seu caso foi tratado com desdém. De lá para cá, só Deus sabe o que se passou. E hoje todos nós sabemos a tragédia que aconteceu.

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Roger. Imagem: site G1

Logo depois que li essa notícia horrenda, li outra que também me chamou bastante a atenção, mas pelo motivo contrário. O site do G1 noticiava que ontem, dia 16/04, dava alta de um hospital, também do Rio Grande do Sul, o menino Roger, de quase sete anos, e que, desde poucos meses de vida, mora com a mãe em alas pediátricas de hospitais de Porto Alegre. Roger é portador de síndrome de down e sofreu sérias complicações intestinais no seu primeiro ano de vida, o que levou à necessidade da retirada de parte do seu intestino. Como sem parte do intestino Roger não podia se alimentar, sua alimentação passou a ser exclusivamente via dieta parenteral (dieta pela veia), o que exigia que ele vivesse no hospital, sem nunca ter tido a chance de ir para casa depois da sua cirurgia.

E nesse tempo todo, sempre esteve ao seu lado sua mãe, a dona Eva, uma senhora simples, de 46 anos de idade, que manteve o sustento da família fazendo e vendendo peças de crochê para pessoas conhecidas.

Hoje, lendo essas duas notícias tão antagônicas e tão fortes em significado, não consigo parar de pensar na importância de ser pai e mãe. Não consigo parar de pensar como há pais e mães que agem de formas tão distintas, como há seres humanos capazes de tanto amor e tanto cuidado e outros capazes de cometer atrocidades tão absurdas.

Enquanto o médico bem instruído e bem formado assassinou seu próprio filho (como disse, tudo leva a crer que foi ele e a madrasta da criança, apesar disso ainda não estar confirmado), uma senhora simples fez milagres para sustentar a família sem sair do lado do seu filho que exigia cuidados especiais. E hoje, enquanto um está escondido pela própria justiça para não sofrer as consequências dos seus atos, a outra comemora o fato de poder celebrar o sétimo ano de vida do seu filho em casa, mesmo  sendo em um local muito simples, fruto de doações e da ajuda alheia.

Essas duas notícias me fizeram parar para pensar que, para sermos bons pais e mães precisamos, antes de tudo, sermos bons seres humanos. Algo óbvio, mas que às vezes nos esquecemos por completo. Se não tivermos um bom coração, uma mente sã e equilibrada, dificilmente alcançaremos todo o nosso potencial como pais. E cabe a nós buscarmos essas qualidades pessoais para darmos o que de melhor nossos filhos merecem, que é atenção, carinho, proteção e cuidado. Coisa que a dona Eva, apesar de todas as dificuldades, conseguiu oferecer com maestria.

Assim, termino esse post triste por tudo aquilo que não foi feito pelo menino Bernardo, mas tentando, de alguma forma, ajudar o menino Roger. E para isso, peço a ajuda de vocês também, principalmente de quem é de Porto Alegre.

Para montar a casa nova da família de Roger alguns médicos do hospital onde ele esteve internado lançaram uma campanha nas redes sociais, buscando doação de todo tipo de utensílios domésticos e também de materiais de limpeza. Todas as doações podem ser feitas diretamente no Hospital da PUCRS (Av. Ipiranga, 6690), no Serviço de Pediatria, localizado no 5º andar do prédio. Para objetos de maior volume como móveis e eletrodomésticos, os interessados podem entrar em contato para combinar uma data para entrega. Informações podem ser obtidas no telefone (51) 3320-3000, ramal 2270.

Agradeço a todas que puderem colaborar o Roger. E agradeço a todas que puderem orar pelo Bernardo.

18 comentários

  1. Fernanda

    Ás vezes me pego pensando que a humanidade está perdida. Cada vez mais casos de “pais” matando seus filhos. Teve o caso do Joaquim, daquele que pulou do prédio com o filho… Como você disse no texto, a função dos pais é amar e proteger seus pequenos, esses lixos que estão aparecendo por aí, não podem de jeito nenhum receberem esses títulos tão grandiosos, PAIS e MÃES. Triste…

  2. Sergio

    Me emocionei Shirley. Também estou muito triste com esse triste fim do lindo gauchinho .Como pai ,realmente não consigo entender como alguém é capaz de algo assim.

  3. Cris

    “para sermos bons pais e mães precisamos, antes de tudo, sermos bons seres humanos. Algo óbvio, mas que às vezes nos esquecemos por completo. Se não tivermos um bom coração, uma mente sã e equilibrada, dificilmente alcançaremos todo o nosso potencial como pais”…perfeita sua colocação!!!! Que tristeza sinto por esse menino, como li em alguns comentários é de se perder a fé na humanidade, mas em histórias como a do pequeno Roger e da mamãe Eva é que recuperamos essa fé!!! Que Deus abençoe essa mãe e que Ele toque no coração do pai do Bernardo pra que ele sinta o remorso e dor pelo oque ele cometeu até o último dia de sua vida!

  4. Ana Cláudia

    Ontem vi uma reportagem que vão investigar o suposto suicídio da mãe do Bernardo…Tudo isso que estamos vendo é claro e fato que falta JESUS CRISTO nas famílias.
    salmos 127.1″Se o Senhor não edificar o lar em vão trabalha os que edifica”.

  5. Lena

    Infelizmente, todos os dias acordamos com histórias cada vez mais horríveis. Vivemos numa sociedade doente… O ser humano tem o seu lado negro, todos nós temos. Alguns acabam expondo esse lado tão a flor da pele que chegam nesse ponto de assassinar filhos, pais, parentes… E aí me pergunto: qual a razão!? Por que essa lado negro vence o lado bom de cada um?! E ai volto ao que comentei: estamos numa sociedade doente. Doente de corpo e alma. Somos contaminados por esse estilo de vida massacrante, pelo poder do dinheiro, e vejamos, infelizmente, ele representa um poder tamanho que muitos ficam alienados, matando diretamente ou indiretamente outras pessoas. Desculpem o desabafo… mas eu só vejo pessoas querendo ‘TER’ e não “SER”. E é uma pena, pois muitos pais passarem essa mentalidade aos filhos, que o bom é ter o melhor celular, o melhor brinquedo, o melhor não sei o que e se exibir aos outros. O que se espera de uma criança criada assim? Que ela cresça sem amor, que as referências sejam sempre a conquistar coisas materiais a qualquer custo! E o mundo? E as outras pessoas?! Para isso existe o FODA-SE! Com o perdão da palavra, mas é isso que todo mundo diz a toda hora. Fácil ligar esse botão e ser egoísta! É nisso que a sociedade se tornou. Dane-se o próximo! Dane-se se o que eu faço prejudica alguém, se eu estou bem, se eu me dei bem, então o outro que se f. Essa história de pensar só em si é que está acabando com o mínimo de compaixão pelo próximo. Reveja seus atos no dia a dia, o seu comportamento. Seja mais justo, mais correto, mais amável e pense no próximo! E vamos copiar exemplos como a mãe do Roger! Símbolo de verdadeiro amor e dedicação.

  6. Alessandra Dias

    Como vc mesma já disse, passamos a sentir as dores do mundo com mais intensidade depois da maternidade… Quando isso acontece com uma criança, doi muito em nós..
    Agora estão verificando a possibilidade da mãe não ter se suicidado e sim ter sido morta pelo próprio e sua dignissíma atual esposa ( q tb é mãe! Isso me assusta!!) , e todos os fatos levam a crer que tudo foi feito por ganância, amor ao dinheiro… que coisa terrível!!!
    Tenho uma enteada de 10 anos e trato como se fosse minha filha quando ela está comigo, ela confia em mim, nunca teve um arranhão do meu lado e já convivemos há quase 8 anos, sempre cuidei como filha, dando amor, conversando, é claro sabendo os meus limites, pq ela tem uma mãe e essa é a que deve ter o papel de mãe! Eu digo que “pego ” ela emprestada de 15 em 15 dias..

  7. vivicr

    Eu acho q o q falta na maior dos casos é base familiar, as pessoas casam sem comprometimento, se estiver ruim separa, mas no meio do caminho tem filhos e qdo isso acontece quem se prejudica é a criança, como vemos no caso do Joaquim, Nardoni, dos irmãos esquartejado em Ribeirão Pires, geralmente alguém q não tem comprometimento, nem amor pela criança, tb conhecido como madrasta e padastro, são a peça chave para o desencadear da tragedia. Fica uma geração de filhos jogados, tendo em vista q os pais pensam em seus interesses em se recosntituir familia e amigos e esquecem de quem colocaram no mundo. Mas de outro lado existem pais e mães guerreiras q lutam pelos seus filhos, que lutam para ter e depois tb, qtos não nascem com algo, mas eu acho q esse nascer com algo faz vc amar ainda mais seu filho, vc não sabe até qdo ele estará com vc. Eu tenho um filho cardiopata congentio já operado, “curado”, mas vivo com o medo de perde-lo constantemente, essa semana msm um amiguinho tb cardiopata aparentemente saudáve, do nada faleceu nos braços da mãe em casa, é dificil, tudo bem q tb vem da indole da pessoa eu NUNCA abandonaria meu filho, por homem ou trabalho algum. Desculpe o texto longo, mas queira postar algo sobre isso, e seu texto veio a calhar…

  8. Damares

    Eu fico indignada e revoltada quando vejo notícias desse gênero,a que ponto as pessoas estão chegando de matar seus próprios filhos,crianças tão inocentes e indefesas,meu esposo fica horrorizado com essas coisas,meu filho é minha vida,não me imagino viver sem ele sequer um minuto,ser MÃE e PAI é algo tão divino e maravilhoso,o que se passa na mente de uma pessoa que faz isso,essas coisas não merecem ser chamado de “pais”….é tanta atrocidade..

  9. Patricia

    Semana muito triste com essas notícias. Aqui na minha cidade um menino de 15 anos morreu eletrocutado num poste de metal numa praça pública onde jogava futebol com os amigos.
    Nossas crianças correm perigo o tempo todo. Coração de mae sofre, com os nossos e em solidariedade com os demais filhos. Patricia – rio das ostras/RJ

  10. Pequenos em Foco

    A falta de amor, carinho e cuidado tem efeito devastador na vida de uma criança, e quando chega a esse extremo, nos deixa mesmo muito chocados. É triste e quase inacreditável pensar que alguém pode ser capaz de fazer algo assim com o próprio filho. Lendo seu texto senti inicialmente uma mistura de angústia, raiva e tristeza, mas logo adiante fui tomada por um enorme sentimento de carinho e admiração pela história do Roger. Que todas as crianças tenham pais como a Dona Eva. Elas merecem todo amor do mundo! Texto incrível! Parabéns =). Bjos

  11. Francieli Andrade

    Gosto muito do Blog e dos teus textos.
    O que você escreveu hoje me emocionou muito. Acompanhei nos noticiários sobre o caso de crueldade com o Bernardo e também o caso de amor com o Roger.
    Ainda não dá pra acreditar que um Pai possa fazer ou ser conivente com uma maldade dessas para com o próprio filho.
    Dói no coração de pensar no sofrimento desse menino.
    Que Deus o receba com todo amor que lhe é infinito.
    E só temos que pedir a Deus que proteja nossos filhos e que ninguém no mundo faça mal algum a eles.

  12. suelaine

    Parte disso se dá pela insistência q o judiciário brasileiro tem de sempre priorizar os laços de sangue. O menino pediu p nao ficar mais com o pai , mas com base nesse pensamento limitado, respaldado pleo ECA, deu-se uma chance a ele. Só porque havia laços de sangue. Uma criança chegar ao ponto de ir ao poder judiciário pedir asilo não é brincadeira. E eles negarem é reflexo de um pensamento retrógrado. Sangue por si só não faz ninguém pai nem mãe. Mas o amor sim.

  13. Viviane Ferreira

    Eu sempre leio seu blog, e hoje abri a página com receio, sou professora e mãe de um pequeno de 1 ano e 10 meses e notícias que envolvem crianças, principalmente em casos brutais como o do Bernardo, me deixam abalada. Não sei o que anda ocorrendo com as famílias, a falta de valores e de respeito.
    Os pais na grande maioria largam os filhos, sem nem se preocuparem com seu bem estar, não dão atenção, carinho, uma conversa… Vejo todos os dias crianças que fogem de surras violentas e de pais que deveriam cuidar delas e não o fazem.
    É preciso ter uma mente sã e equilibrada para se ter filhos e dedicar-se a eles, protegê-los dessas atrocidades do mundo, pois parece que tudo está de cabeça para baixo.
    Não que eu fuja da realidade, mas tento ao máximo não ver essas notícias, pois a cada uma que surge eu questiono onde fica o papel dos pais, não de todos, mas desses pais que matam e agridem seus filhos. Em que mundo estamos? Não que eu seja neurótica, mas tem coisas que não fazem o menor sentido. Por outro lado, Eva mostra que o mundo não está tão perdido assim, uma mãe que está ao lado do filho, incondicionalmente cuidando dia após dia durante 7 anos. Que exemplo de amor.

  14. luciana

    Bernardo tentou ajuda dos homens e ninguém o ajudou…. Amava o pai que o ignorava….. Bernardo foi tão especial que DEUS o tirou do sofrimento daqui e o levou pra juntinho da mamãe dele…. Pode crer que agora ele tá no melhor lugar do mundo!

    1. Roberta

      Concordo com você. Impressionante a negligência que ele sofreu! Agora ele realmente está no melhor lugar possível.

  15. Mari

    Dando pêsames à tia pela perda do sobrinho e afilhado? Lí certo? … Não devemos julgar, mas jamais deixaria os meus sobrinhos sofrendo, brigaria pela guarda se fosse preciso. Todos que sabiam do menino Bernardo foram omissos.

  16. Tatiana Cali

    Em uma das minhas mensagens da Semana santa no facebook eu falei exatamente sobre isso … Incrível como parece estar cada vez mais comum estar tragédias envolvendo crianças e causadas principalmente por familiares ou pessoas bem próximas… Que tipo de pessoas são estas ?!!!
    A nós, nos cabe orar para que o menino Bernardo possa estar em paz com Deus e quem sabe ao lado de sua mãe… Só muita oração…

  17. Criança Feliz

    Sem dúvidas a família é a “base” da sociedade.
    Enquanto existirem pais como o de Bernardo, o mundo estará totalmente perdido.
    Nossas crianças merecem cuidado, amor e educação!
    Muito triste ao ler notícias trágicas envolvendo crianças! Causa uma revolta muito grande!!
    Ainda bem que ainda temos algumas “Donas Evas” por ai, para dar o exemplo de amor!
    Abs,
    Bruna

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