Crianças terceirizadas – o que significa isso exatamente?

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Hoje, tem mais uma edição da coluna Psicologia Infantil, escrita pela psicóloga Raquel Suertegaray. Nessa sua oitava participação aqui no blog a Raquel irá abordar um assunto bastante polêmico e muito em pauta ultimamente: a terceirização infantil.

Entenda, através da visão da psicóloga, o verdadeiro significado e importância dessa expressão e as reais implicações desse comportamento dos pais.

 

Crianças terceirizadas – o que significa isso exatamente?

Por Raquel Suertegaray

Tenho acompanhado, há algum tempo, em diversos lugares, uma discussão sobre “as crianças terceirizadas”. Um tema delicado, que nem sempre me parece abordado com a profundidade que merece e que acaba, por vezes, sendo avaliado de forma parcial e criando estereótipos que dificultam ainda mais a árdua tarefa da maternidade.

É importante definir a que o termo CRIANÇAS TERCEIRIZADAS se refere. No meu entendimento, terceirizar um filho implica em transferir para outras pessoas a tarefa de cuidar, preocupar-se e responsabilizar-se por ele. Nestes casos, ocorre um afastamento profundo e os vínculos, quando se estabelecem, se estabelecem de forma falha.

Acho importante enfatizar que falar de crianças terceirizadas é muito diferente de falar de pais que optam por colocar um filho na escola ou deixá-lo algumas horas do dia com uma babá ou familiar. O termo me parece inadequado (para não dizer forte e agressivo) e incapaz de traduzir a forma como a grande parte das famílias de hoje em dia se organiza para manter sua vida profissional, ampliar suas possibilidades financeiras e também assumir a maternidade/paternidade.

Enquanto psicóloga especialista em infância e diretora de escola infantil, penso que algumas crianças são terceirizadas sim, porém, penso que o que define isto não é a presença ou a ausência da mãe ou do pai com ela o tempo todo.

Vejo mães que dedicam-se integralmente a seus filhos, largam seus empregos e passam a ser apenas mães. Porém, amparam os cuidados com seus filhos em manuais frios, que ensinam um passo a passo do que deve ser feito, controlam rotinas no relógio de forma rígida e não são capazes de entrar em contato com seus bebês. Aqui, embora disfarçada, podemos pensar em uma terceirização, pois no início a empatia é substituída por manuais e tão logo as crianças crescem um pouco, recursos como TV, DVDs “educativos”, tablets e smartphones passam a ser recursos triviais.

É claro que também observo, da mesma forma, pais que terceirizam os filhos através de escolas/creches ou em casa com babás, em nome de suas vidas profissionais ou de sua tranquilidade, o que também é muito preocupante.

Observa-se que em alguns casos há uma grande dificuldade por parte dos pais em assumir os filhos em sua completude, o que inclui noites mal dormidas, preparo de alimentos, tempo para brincar, conversar, suportar lágrimas e manhas sem sucumbir (necessariamente) à TV, a recursos virtuais a chupetas e assemelhados.

O que chamamos de “lado B” da maternidade, ou seja, os momentos difíceis, costumam denunciar estes casos. A terceirização não necessariamente é causada por desamor, na maior parte das vezes até não é o caso, mas sim por uma grande limitação em abrir mão do conforto da vida que se tinha antes dos filhos. Ou seja, busca-se o prazer de ter filhos, mas se isola o desprazer, como se os dois não fizessem parte do mesmo pacote, que é uma característica comum das relações na atualidade.

Um hábito que vejo se tornar mais comum na atualidade, especialmente entre mães de classes mais abastadas, é o de sair da maternidade com um aparato que envolve enfermeira e babás, cuidadoras que se revezam dia e noite. Como já repeti à exaustão, é complicado julgar, mas penso que vale refletir sobre isso. Nos primeiros meses de um bebê, é fundamental que a criança viva em um estado de extrema intimidade com a mãe e, para isto, por mais exaustivo que seja, é importante que a mãe abra um pouco mão de si mesma em prol de seu filho.E aí eu questiono: Será possível o estabelecimento deste quadro com a presença constante de um terceiro?

É papel da família, no mínimo, gerenciar e acompanhar de perto a atuação dos cuidadores e é indispensável que os pais tenham contato diário com seus filhos e que participem de suas rotinas: sabendo o que e como comem, tendo contato pele com pele na hora do banho e de trocas, conversando, segurando suas mãos, os fazendo dormir e cuidando de suas doenças. Ok, você não poderá acompanhar todas estas etapas diariamente? Mas será que está participando da vida de seu filho de forma satisfatória?

Nestes e em muitos outros casos, aprendi a ter respeito, pois muitas vezes estas situações retratam pessoas que dentro de suas limitações fazem o melhor. Porém, este distanciamento tem seu preço.

Há situações em que apenas teremos crianças manhosas, com dificuldade de lidar com limites e frustrações, mas que por alguma razão não se transformarão em monstruosos adolescentes e adultos sem limites. Muitas pessoas são resilientes por natureza e lidam com a falta com o que o meio oferece.

No entanto, nunca sabemos as cicatrizes que terceirizar os filhos pode causar. Muitos casos de delinquência juvenil, quando observados de perto, mostram crianças que foram absolutamente solitárias, criadas sem vínculos satisfatórios e, por viverem sob um abandono dilacerante, não aprenderam a valorizar “o outro” e não pensam que as pessoas devam ser respeitadas.

Saliento, assim, que crianças efetivamente terceirizadas são aquelas que possuem vínculos enfraquecidos com seus pais e que são verdadeiramente entregues a babás, escolas ou familiares, e não crianças pelas quais seus pais se responsabilizam, se envolvem e criam vínculos fortes e sadios.

Estas, terceirizadas de verdade, possivelmente serão crianças com uma relação confusa com figuras de autoridade, pois, ao longo de suas vidas, exerceram sobre ela autoridade pessoas com quem ela não possuía vínculos afetivos suficientes, de forma que a introjeção desta figura não se dará de forma adequada e, com isto, a noção de limites também tenderá a ser falha.

Neste contexto, que é completado com níveis elevados de solidão e sentimento de menos valia, é provável que tenhamos aumento em patologias da família da depressão e do vazio, onde as pessoas não encontram satisfação em nada, passam a vida em busca de algo que nunca encontram e tendem, consequentemente, a um maior índice de uso de drogas e de transgressões.

Meu universo (clínica – escola – vida real – redes sociais) apresenta todo o tipo de pais, desde os que citei acima, que muito me preocupam muito, até aqueles que escolhem ter filhos e que, apesar de lançar mão de uma rede de suporte para dar conta desta responsabilidade e também de sua vida profissional, não os terceirizam.

Não concordo que crianças que precisam ir para a escola precocemente ou ficar com babás sejam necessariamente terceirizadas. Testemunho diariamente casos que passam muito longe disto. Testemunho pais que peregrinam pelas escolas para escolher a que mais se adequa a seu jeito de pensar, conversam com amigos, com profissionais para decidir qual será a melhor forma de seu filho ser atendido nas horas que estarão no trabalho, ou escolhem suas babas de forma criteriosa e atenta. Quando termina seu expediente correm para os filhos e no dia seguinte as crianças contam com uma rica convivência familiar para compartilhar com a babá ou com os colegas.

Na escola, vejo estes pais, sendo plenos em sua tarefa parental, escolhendo, considerando o que vai ser mais adequado para seus filhos e participando intensamente da vida da criança, iniciando com uma adaptação gradativa, onde a mãe tem a possibilidade de se vincular a equipe da escola e ensinar para esta as sutilezas dos cuidados de seus bebês. Na escolha da escola a família tem a possibilidade de escolher um local que respeite as individualidades da criança e ofereça afeto sem que este concorra com o afeto familiar, pois este é intransferível.

Resumindo, terceirizar os filhos não pode ser simplesmente atribuído a falta de tempo, amor ou conhecimento e sim à falta de vínculo. O vínculo que é estabelecido, quando forte, é inabalável e permitirá aos pais avaliar as necessidades de seus filhos e, sempre que necessário, fazer rearranjos na sua vida profissional, ou então, em outras situações, simplesmente “falhar”, sem que isso represente abandono, pois seus filhos poderão passar por isso sem que o episódio gere grandes traumas.

Colunistas MdM Raquel - Psicologia

23 comentários

  1. Jaqueline Lima

    Amei o texto! Muito bem escrito e, principalmente, ponderado e respeitoso. Taxar toda e qualquer mãe que tem que trabalhar dizendo que “terceiriza os filhos” é muito leviano e até cruel!
    Obrigada por acalmar meu coração, já tão culpado, como toda mãe!

    Jaqueline Lima
    http://verdemamae.blogspot.com.br/

  2. Thais Senna Ramos

    Bom…
    Sou uma mãe que trabalho o dia todo. Só tenho folga fim de semana. Volto pra casa pro almoço.. (eu mesmo o faço), almoçamos juntos, levo o meu pequeno para a escola e volto a trabalhar. Saio do meu trabalho, pego o meu pequeno na escola e voltamos para casa .. Jantamos juntos e quando eu penso que eu posso descansar, brinco com meu filho mesmo eu estando mooorta de cansada.. Brinco com ele até debaixo do chuveiro. Quando eu ponho ele pra dormir, penso: agora eu vou descansar … Não.. tenho que arrumar a casa, arrumar o uniforme dele do outro dia, cuidar de mim e esperar o marido chegar.. Ufa..! Agora sim eu descanso.. Isso é 1:30 da manhã .. e no outro dia é acordar as 6:00 da manhã e começar tudo de novo. Acho que eu não posso arranjar desculpa só porque trabalho o dia todo e não posso brincar com ele porque estou cansada Não gosto da ideia de babá na minha casa Faço de tudo pra que os poucos momentos semanais que ficamos juntos possam ser inesquecíveis. Agradeço por isso todos os dias.Faço coisas para que ele se lembre o resto da vida e que ele pense que apesar de tudo eu o amo muito e faço tudo por ele.

    1. Luana

      Thais, vc descreveu toda a minha rotina!….Só que eu ainda tenho vantagem, pois só trabalho fora a tarde!….
      Mas, é assim mesmo, tiramos forças e mesmo cansadas vamos brincar, desenhar, contar histórias….É bom saber que não estou sozinha!Força pra nós!…

  3. Dunha

    E o pai?

  4. Jordana Guimarães

    Como êh bom ouvirmos pessoas que entendem deste assunto importantíssimo que êh a educação dos nossos filhos. O vinculo da minha filha na escolinha êh muito forte mas eu também me sinto muito ligada as professoras e a Raquel que dirige e orienta a Pirlimpimpim muito bem.
    Adoro chegar em casa e ver ela falando o nome dos amiguinhos e da profe. Adoro as festinhas.
    Acho que a maior contribuição ou ensinamento que podemos dar aos nossos filhos êh ensina-los a amar outras pessoas, assim serão adultos íntegros que respeitaram o próximo. Vejo que a minha filha ama a mim, ao papai, a vovó, aos coleguinhas da escola, as cuidadoras de casa e da escola. Nao tenho ciúmes, quero que a Mari ame e seja amada por todos.
    Raquel parabéns por este belo texto e pela grande mãe que tu êh!

    1. Raquel

      Obrigada Jordana, receber depoimentos como este nos mostram que o estamos no caminho certo na arte de cuidar e educar crianças, realizando um trabalho permeado pelo afeto e junto das famílias!!! Tocaste em um ponto muito importante, ensinar os filhos a amar – a nós e aos outros – pessoas que são capazes de amar e se vincular estarão muito mais preparadas para a vida e sempre terão a sua volta pessoas queridas para ampará-las nos momentos difíceis e para comemorar nos felizes!

  5. Kátia Vieira

    Olá,
    Amei o texto, também sou psicóloga e palestrante em cursos de gestantes. Dentro do curso abordo rapidamente a questão do nascimento dos bebês quando os pais já tem outros filhos e falo sobre as diversas idades e suas intercorrências, de modo que este assunto me interessa bastante. Gostaria de parabenizar a Raquel pelo seu texto claro, objetivo e principalmente sensato. É muito difícil vermos um texto tão bem escrito, esclarecedor, frente a um assunto tão delicado, sem se tornar agressivo para quem lê. Vou continuar acompanhando. Ao Macetes de Mãe parabéns pelo conteúdo, acompanho desde que surgiu e acho o trabalho excelente!

    1. Raquel

      Katia, fiquei orgulhosa em ler seu depoimento, reconhecimento por parte de colegas e que atuam junto a novas mamães é muito importante! Sucesso no seu trabalho, orientação pode fazer muita diferença em um momento tão delicado como a chegada de um filho!

  6. Julianna

    Ótimo texto! Fiquei sem trabalhar no primeiro ano de meu filho e senti na pele todas as dificuldades, como cuidar de um bebê em tempo integral, amamentando e fazendo sua própria comida, assim como, dando afeto, carinho e atenção. Não vou dizer que de vez em quando não me utilizei de alguns recursos, como por exemplo, colocar o DVD da Galinha Pintadinha enquanto eu fazia uma comida. Mas agora que estou voltando a trabalhar aos poucos, mesmo que fique menos tempo com ele, quando vejo que ele está com necessidade de uma atenção, largo telefone, computador, tv e dou colo ou brinco com ele. Ele está na creche em meio período por enquanto e estou achando super importante para seu desenvolvimento intelectual e social, e como meu apartamento é muito pequeno, lá tem um espaço aberto e adequado para ele brincar e gastar um pouco de energia sem ficar entediado o tempo todo. Ele ainda não dorme uma noite inteira, acho que por conta de que eu ainda o amamento, mas faz parte da maternidade não dormir direito, né? Não me sinto culpada em nenhum momento, porque amo estar com meu filho, sinto saudade dele e de seus beijos e abraços (apesar de às vezes ter vontade de fugir com meu marido para poder namorar um pouquinho… rss… ). O importante é criar com amor e afeto!

    1. Raquel

      Juliana
      É isso mesmo! Sempre podemos conciliar a maternidade com a vida profissional e social, ter filhos é trabalhoso, mas muito gostoso!!!
      Beijinho

  7. Mãe

    Ótimo texto. Minha vida mudou completamente dps q meu filho nasceu. Hj c 7 meses não consegui voltar a ter os cuidados comigo msm. Só tenho tempo p ele. Mas uso recursos como a chupeta sim. E tds os dias assistimos juntos um pouco de desenho: Peppa ou galinha pintadinha. Não vejo problema nisso. É algo mto grave? Me respondam por fv.

    Outra coisa:

    Sou advogada e trabalhava mto. Mas depois q ele nasceu diminui bastante o ritmo e há 2 meses fui nomeada num concurso e tomei posse. Agora trabalho meio período e o restante do dia é para ele.
    Acontece q tive q tomar posse em outra cidade e meu marido não pode me acompanhar. por isso temos duas casas.
    Mudei c minha mãe e meu bebe e meu marido ficou na nossa casa. 150km de distância.
    Fico 4 noites fora e 3 noites em casa (sexta a domingo).
    Tenho mto medo q isso prejudique meu filho. A pediatra disse q não. Mas gostaria da opinião de vcs.
    Estou fz este sacrifício pensando no
    Futuro dele tb. Mas não tem sido fácil.

    1. Raquel

      Olá, desculpe a demora em responder… fique tranquila, usar chupeta, assistir TV, DVD, trabalhar… nada disto é problema, o segredo está na dose e na forma como utilizamos estes recursos. Chupeta por exemplo, você pode observar se é usado para acalmar seu filho sempre? ou você tenta outros recursos, tenta ajudá-lo a expressar suas dificuldades de outras formas que não chorar, se acalmar respirando, ou pelo susto ter passado… TV, todos os momentos de vocês são na frente da TV ou apenas alguns? Sobre trabalhar, fiquei tranquila, não causa problemas nas crianças ter mães que trabalham, crianças a medida que crescem precisam aprender a dividir a mãe, seja lá com quem ou o que for!
      Sobre sua rotina, o mais importante é a forma como vocês estão lidando com ela. A presença do pai é importante, mas pode ser organizada desta forma, se vocês tiverem uma relação saudável, certamente dará certo e vocês irão ajustando a vida conforme as necessidades forem surgindo! Sempre poderão remodelar o que não funcionar, as crianças permitem que os pais errem e corrijam seus erros (quando eles acontecem e sempre acontecem, mesmo nas configurações mais tradicionais!).
      Pensar no futuro é também função dos pais e ser modelo de pais que lutam para crescer é um legado importante!!!

  8. Tatiana Cali

    Fã incondicional !!!
    Bjs

    1. Raquel

      Obrigada!!!! Bjs

  9. Ana

    Texto muito bom. Só senti falta de se incluir a figura do pai: penso que tudo o que foi dito se refere às figuras parentais, e não somente à “super mãe”, não é?

  10. Viviane Krumholz Camassola

    Que bom deixar o nosso filho na escola de uma pessoa com esses valores… nossa escolha não foi por acaso. Bjs, Vivi

  11. Gabriela Carvalho

    Amei o texto e amei mais ainda o conforto que ele me trouxe! A busca pela escola perfeita foi incansável, as 3 semana de adaptação (Mãe e Filha) não valeram de nada quando a porta da escola se fechou dizendo – Tchau Mamãe! .. Chorei rios, muitos rios. O meu sentimento de culpa é enorme meninas, mas todos os meus segundos de folga são dela (Manuela, minha filha, 1 ano e 7 meses), brincadeiras, banhos em dupla, dormi de conchinha, beijos .. nossa muitos beijos e hoje sei que mesmo estando na escola de 6:00 ás 17:30 ela é SIM uma criança amada, completa, e feliz muito feliz, ela sabe que a Mamãe e Papai vão voltar e dar todo e melhor amor do mundo! Obrigada por esse texto belo que renovou minhas energias!

  12. angela

    E quando e a avo, que cuida…

  13. Ana

    Sou mãe de um baby lindo de 7 meses, meu Miguelzinho, e sempre tive esse ideal da “super mãe” e “super mulher”, que deveria aguentar tudo firmemente, sem reclamar, caso contrário, estaria dando um atestado de incompetência… Hoje, depois do Miguel, revi meus conceitos e faria algumas coisas diferentes, caso viesse a ter outros filhos. Uma delas seria, justamente, ter desde o início uma ajudante. Não digo somente babá e sim ajudante. Ora para me ajudar com a casa e ora com meu filho. Sempre vi com bom humor o relato das mamães, dizendo que não tinham tempo para tomar banho, escovar os dentes etc. Achava que fosse exagero ou maneira de dizer, até que o Miguel chegou e me mostrou que não há nada de exagerado nesses “avisos”. Meu filho teve muitas cólicas, gases e para completar, também teve esofagite, a qual doía ainda mais do que as outras duas. Então, chorava bastante. Na madrugada, sem exageros, acordava de meia em meia hora. Definitivamente, era bem extenuante. Estou contando tudo isso para dizer que acho um absurdo essa ideia de que se a mulher tem ajuda, passa a ser menos mãe. Meu marido é um paizão, mas trabalha muito, fica 12 horas fora, então, quase não conseguia me ajudar. Em minha família, uns não podiam e outros não queriam mesmo ajudar. Logo, me vi sozinha com um bebezinho indefeso e cheio de dores. Acho que em cidades interioranas, talvez seja um pouco diferente, mas aqui em São Paulo, noto muito isso: mães solitárias. Além do mais, a mulher também tem que aguentar firme e forte as dores do pós-parto. No meu caso, optei pelo parto normal, no entanto, tiveram algumas intercorrências e foi preciso fazer epísio e usar o fórceps… Ficou um hematoma gigantesco, sei lá eu o porquê, e eu só conseguia sentar com aqueles apoios para hemorroida (ainda assim doía). A cicatriz da episio também doía. Tive duas mastites e muitas fissuras, mas persisti na amamentação e, hoje, dou graças a Deus por isso. É uma dádiva! Enfim, o que quero dizer é que se fala muito do bebê e pouco da mulher. Além dessas dores todas, existem os hormônios que mexem, e muito, com o nosso emocional. Por tudo isso, acho que deveria, como já foi um dia, ser uma prática comum a mulher sair da maternidade contando com a ajuda de uma “babá”(ajudante geral) que lhe auxilie no que for necessário, caso contrário, poderá ficar muito sobrecarregada, a não ser que conte com a ajuda de familiares ou amigos. Eu não entendo: por que raios não podemos ter tempo para fazer xixi, tomar banho ou escovar os dentes? Por que após horas de trabalho de parto ou cesárea, sentindo dores, com pontos etc, achamos que também não merecemos um pouco de cuidado? Por que achamos isso normal? Não é normal. Isso não mensura o tanto que você ama o seu filho e sim o tanto que você não se ama! E aqui está falando uma mãe que direto escuta: “ah, você tem que desapegar um pouco do Miguel”. Não estou dizendo que devemos delegar a maternidade e sim que podemos sim exercê-la com menos sofrimento e mais prazer. Sim. A palavra correta para o que sentimos, muitas vezes, é essa: sofrimento. Ou pelas suas dores, ou pelas dores do seu filho ou por outros motivos, e o fato de não termos um tempo para pormos a cabeça no lugar, leva muitas, a entrarem até em depressão. Pelo que observo, mães que deixam de viver por causa dos filhos, além de serem frustradas, mais para frente, cobrarão isso deles. Serão aquelas mães super ciumentas e possessivas. Enfim, quando o Miguel fez 6 meses, consegui a ajuda de uma pessoa mega especial e posso dizer que, apesar de agora ficar 5h longe dele, sinto que estamos mais próximos do que nunca. Meu marido e eu ficamos felizes por termos uma pessoa com quem contar, sabe? Se quisermos almoçar juntos, por exemplo, e manter o romantismo, podemos. Acho isso essencial. Quando volto, meu filho fica super feliz e vivemos intensamente cada instante juntos. Aqui deixo um texto que acho bastante interessante, para refletirmos… https://www.facebook.com/orenascimentodoparto/photos/a.216510765141023.47583.216239221834844/576482532477176/?type=1&theater

    1. Jamyla

      Ana, me vi no seu relato, pois Bernardo teve refluxo, chorava muito e tbm passei por uma episiotomia. .. Não foi fácil aqui tbm. Era só eu e o marido, família toda de fora. Fiquei exausta, quase louca.
      Concordo em quase tudo no texto, que é excelente por sinal, exceto na parte que ela se questiona se uma pessoa em casa nesse primeiro momento não atrapalharia o vínculo… Se fosse hoje, com certeza teria alguém pra me ajudar e acredito que me ajudaria ainda mais nesse vínculo, pois eu estaria menos sobrecarregada e mais em paz.

  14. Cinara

    Ótimo texto. Na escola onde atuo acreditamos que mais importante que a quantidade de tempo que nós pais estamos com o filho é a qualidade deste momento.

  15. Conceição

    Gostei do artigo “Crianças terceirizadas”… Quero continuar recebendo artigos sobre assuntos referentes a crianças garantia de seus direitos incondicional…

  16. Renata

    O texto deixa bem claro: não é porque os pais contam com ajudantes, ou porque o filho frequenta uma creche que se trata de uma criança terceirizada. O termo se refera aquelas crianças que perderam ou nuca tiveram um vinculo afetivo consolidado com os pais. São aqueles pais que quando se deparam con um final de semana sem a babá ou outros ajusantes, ficam desesperados porque não tem a mínima idéia de como cuidar da criança. Não sabem o que ela gosta ou não de comer, do que ela gosta de brincar, ou porque ela está agitada. Contar com a ajuda de outras pessoas para auxiliar nos cuidados não é o mesmo que delegar a criação do filho a terceiros. A mãe zelosa que se dedica inteiramente ais filhos, muitas vezes se sente exaurida diante da sobrecarrga de trabalho que uma criança exige. Por isso uma ajuda pode sim ,ser muito útil e bem vinda e não causará mal algum!

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