A erotização da infância

Em mais um post da Coluna Psicologia, a psicóloga Raquel Suertegaray aborda um tema de extrema importância nos dias atuais: a erotização da infância. Raquel analisa a questão de uma forma clara e direta e nos faz pensar se situações que parecem tão inocentes são assim tão inofensivas mesmo. Vale a pena dedicar alguns minutos do seu dia. Boa leitura!

A erotização da infância

erotizacao da infancia (1)

Clique sobre a foto para ver a fonte – Creative commons.

Por Raquel Suertegaray

Olá mamães, desde que comecei a escrever para o Macetes estou sempre alerta para possíveis temáticas e um dos assuntos que vem sendo postergado, mas que penso ser muito importante de ser refletido, é a forma como lidamos com os estímulos vindos da mídia, em especial as músicas e o vestuário.

Um tema que me preocupa muito no convívio com crianças, em todos os âmbitos da minha vida, ou seja, desde a minha filha, as crianças de sua escola, os alunos da minha escola, as que vejo na rua, no shopping e até as que vejo apenas na telinha da TV, é a influência que algumas músicas e a estética que as acompanham exerce sobre as crianças. Vemos cada vez mais músicas se tornando hits de sucesso, executados à exaustão em todos os veículos de comunicação e festas, como funks, arrochas, axés e outros ritmos e será que isso é saudável para nossos filhos?

Não quero entrar no mérito da qualidade destes estilos musicais, pois penso que a cultura reflete questões sociais e merece, além de respeito, discussões muito mais profundas a que não nos propusemos neste espaço. Porém, penso que temos o dever, enquanto pais e mães, de refletir acerca das consequências que a exposição a esses ritmos e também às temáticas eróticas, sexistas e violentas que advém deles causará em nossas crianças.

Hoje, estamos permanentemente conectados às “telas”, seja no smartphone, na televisão, no computador ou no tablet, e através delas entramos em contato com uma infinidade de estímulos que, muitas vezes, pela forma maciça a que somos submetidos fazem com que a gente perca a referência da adequação ou inadequação dos mesmos para crianças.

Refletindo sobre o tema, penso que pode estar acontecendo o que em neurociências chamamos de habituação, ou seja, um fenômeno que faz com que nos acostumemos com um estímulo a ponto de deixarmos de prestar atenção nele (por exemplo, pessoas que moram perto de ruas movimentadas e com o tempo deixam de escutar os barulhos dos veículos ou o perfume que usamos, que nós deixamos de sentir, mas que os outros continuam elogiando).

Penso no fenômeno da habituação por acreditar que de tanto escutar, passamos a assimilar como algo comum e deixamos de nos apegar às mensagens e ficamos mais flexíveis. As músicas entram na nossa cabeça, grudam, e quando percebemos estamos cantando e nem percebemos que as crianças também estão e acabamos achando graça de vê-las rebolar e cantar ao seu som.

Ficamos cegos para o que vem embutido, para as mensagens que vão montando o repertório de crenças de nossos filhos e para a forma erotizada que nossas crianças passam a dançar. Esquecemos que elas irão crescer e que o que hoje, quando se tem 2 ou 3 anos é engraçadinho, mas que aos 7 ou 8 vai parecer vulgar. Crianças absorvem o mundo, seja através do que escutam ou veem, e tendem a reproduzir e  isso é esperado. Então, cabe aos pais e educadores a responsabilidade de selecionar e garantir o mínimo de respeito pela infância dos seus filhos.

Crianças não nascem com um repertório musical construído, pelo contrário, elas o constroem a partir do que o meio oferece. Então, desde muito cedo devemos ter critério, ir além do que nos é empurrado através dos meios de comunicação e da publicidade. OU seja, podemos, se assim desejarmos, apresentar a nossos filhos músicas de qualidade e ampliar seus repertórios, de forma que, à medida que crescerem, possam fazer suas escolhas – sempre supervisionados por nós.

Tenho uma filha com 11 anos e, de alguns anos para cá, passei a ser mais seletiva que costumava em relação a músicas, pois se pretendo ensinar a ela que considero aqueles conteúdos vulgares, que não me identifico com as mulheres cantadas naqueles refrões (afinal, exemplos valem mais que mil palavras, já diz o ditado) eu preciso mostrar isso através de atitudes.

Como resultado da minha pesquisa sobre o tema erotização da infância, reuni alguns recortes de letras de músicas – que volto a dizer, não trata-se de analise estética ou musical, apenas me refiro ao âmbito de ser próprio ou impróprio para crianças – e gostaria de compartilhá-los com vocês.

Uma música muito popular nos últimos tempos fala “Quando começo a dançar eu te enlouqueço, eu sei. Meu exército é pesado, a gente tem poder Ameaça coisas do tipo você”,  outro hit propõe: “Eu não tenho carro, não tenho teto. E se ficar comigo é porque gosta. Do meu ranranranranranranran lepo lepo. É tão gostoso quando eu ranranranranranranran o lepo lepo.” E os exemplos não param por aí, temos “Vodka ou água de coco. Pra mim tanto faz. Gosto quando fica louca e cada vez eu quero mais. Cada vez eu quero mais. Whisky ou água de coco. Pra mim tanto faz. Eu já tô cheio de tesão e cada vez eu quero mais. Cada vez eu quero mais”. E para concluir as ilustrações “Balança que é uma loucura, Morena vem do meu lado, ninguém vai fica parado quero ver mexer kuduro. Balança que é uma loucura. Morena vem do meu lado, ninguém vai fica parado. Oooooooooooh, oi oi oi, oh, oi oi oi.”

Os exemplos não param por aí e também não começaram a aparecer agora. Há muitos anos, com certeza, muita gente achava bonitinho ver uma menininha dançando as músicas do É o Tcham (mesmo que não gostasse da banda) e tantos outros hits populares. E estas e tantas outras são músicas que trazem para a vida da criança termos que não acrescentam nada de positivo e que acabam por compor seus vocabulários (para lá de paupérrimo, vamos ser sinceras).

E vale salientar que a preocupação não se restringe as músicas, mas a uma série de estímulos que as acompanham, como coreografias apelativas e roupas que transformam a mulher em objeto de admiração pela sensualidade. Este panorama a que as crianças vem sendo expostas, cada vez de forma mais massiva, pouco a pouco, rouba a inocência da infância e traz à baila um erotismo com o qual elas não podem lidar e as leva, com frequência, a níveis de excitação que não são saudáveis para a idade.

Esta erotização precoce tem causado efeitos tais quais uma antecipação da puberdade, que não é acompanhada pela maturação emocional para lidar com um corpo em transformação e com avalanche hormonal, ou mesmo uma antecipação da menarca e ou, pior ainda, uma gravidez precoce.

A erotização é considerada precoce quando acontece antes da fase em que a criança estaria preparada para compreender corretamente um determinado estímulo e confrontar a criança com estímulos que vão além de sua capacidade de compreender pode trazer consequências negativas para a criança como as citadas acima.

A globalização da informação e das expressões culturais nos expõe e expõe nossos filhos ao que concordamos e ao que não concordamos, por isso, precisamos estar atentos para encontrar formas de lidar com isto. Costumo alertar os pais que pode ser engraçadinho ver o filho(a) de um ano e pouco de idade rebolando com o hit musical do momento e justificar dizendo que ele(a) ainda não compreende a mensagem que está implícita. O alerta vem no sentido de considerar que a criança vai crescer e está aprendendo a falar, que em breve estará cantarolando estas músicas, pois o aprendizado está diretamente ligado ao afeto, e uma plateia que aplaude e sorri traz ao bebê a certeza que de aquele comportamento é desejado e ela investirá energia naquilo. O que nem sempre é desejado ou positivo.

Por isso, faço aqui, mais que um alerta, um pedido: selecionem o que vocês costumam ouvir em suas casas, carros, festas, etc… Pois os estímulos a que a criança é exposta traz consequências no curto e no longo prazo e nem todas elas são positivos.

Colunistas MdM Raquel - Psicologia

13 comentários

  1. Josiane Nascimento Bontorin

    Muito bom abordar este tema! Não tenho filhos ainda, mas me preocupo muito com o que as crianças a minha volta estão ouvindo ou vendo. Alguns momentos achei que só eu me importava com isso, porque infelizmente há uma desleixo muito grande de muitos pais em relação ao que a criança está absorvendo, acho extremamente preocupante o que foi citado como “habituação”.

    1. Tati Lambert

      Você não é a única “não-mãe” que se preocupa com isso. E o pior de tudo é ser criticada por tentar demonstrar os efeitos a longo prazo… e ouvir coisas do tipo “mas na escola vai ouvir”, “não tem como proibir”, “isso é besteira, nem entende o que diz a letra”.

      Muito além de presentear com equipamentos ultratecnológicos, brinquedos caríssimos, os pais deveriam presentear seus filhos com “a presença”, de corpo e alma, em momentos que propiciem o estreitamento dos laços afetivos.

      Quantas oportunidades de ensinamento são desperdiçadas…

      1. Raquel Suertegaray

        Pois é Tati, é uma grande preocupação mesmo e apesar de ser uma verdade que irão ter contato na escola e em outros ambientes, devem saber que existe diferença entre o mundo dos adultos e o das crianças e que algumas músicas e programas não são para crianças. Escolas regulares é de fato difícil controlar, mas as infantis costumam filtrar estes estímulos, pelo menos deveriam…

  2. Georgia

    Tá certíssima, não costumo ouvir música brasileira, não gosto desses hits populares, mas mesmo assim estou atenta a isso.E particularmente nunca achei bonito criança ficar fazendo dança com músicas desse tipo, sempre soou vulgar.E além disso, privar, educar a criança dessas letras é bom para não expor a criança no meio adulto. Me chamem do que quiser, sou dessas, que chamam de ‘quadrada’.

  3. Roberta

    Eu e meu marido nos preocupamos com isso. Infelizmente, tem gente que acha que é um esforço inútil da nossa parte, e que nós temos que nos render a isso. Eu acho errado e total absurdo o tema de uma festa de criança ser essa Anitta – independentemente da qualidade musical, é um horror as crianças absorver as danças e decorar as letras dela. Por nós, minha filha não vai queimar etapas, e vou brigar com todo mundo que contestar isso.

  4. Simone

    Excelente texto! De fato educar nossos filhos em um ambiente onde há tanta informação, com acesso tão fácil e, ao mesmo tempo, tão pouco filtro e um desafio! Parabéns mais uma vez ao Macetes de Mãe e seus colaboradores por nos dar informação de qualidade para nos apoiar na educação dos pequenos! Bjs pra vocês

  5. Cristiane Gai

    Achei perfeita a forma como abordaste a questão Raquel! Sou psicóloga especializanda em infância e adolescência e tenho um filho de 5 anos que por mais que seja menino, muitas vezes chega cantarolando da escola e questionando falas desses hits…Acredito que quando expomos nossos filhos a essa erotização precoce, não só por músicas, mas através também da televisão, filmes, novelas, forma de vestir, estamos criando um conflito que eles terão que resolver em um momento que não tem capacidade para fazê-lo. Parabéns pela iniciativa de escrever sobre!

    1. Raquel Suertegaray

      Obrigada Cristiane, a erotização precoce independe do sexo da criança, permitir que os estímulos sejam compatíveis com a maturidade da criança é função dos pais!

  6. Drica

    Maes e Pais dedicados,
    nao acreditem nas opinioes das pessoas que dizem que mais cedo ou mais tarde as criancas vao ouvir ou vao enfrentar. Assim sendo, que seja mais tarde. As criancas que tiveram acesso a boa música e que souberam encarar a mídia com senso crítico, ja Antes da adolescencia conseguem discernir o belo do vulgar. Minha propria experiencia, desde a mais tenra idade Vale a Pena o esforco dos Pais e depois de um tempinho as coisas fluem naturalmente.

    1. Raquel Suertegaray

      Com toda a certeza Drica, crianças são como uma esponja, absorvem tudo do meio e facilmente compreendem o que lhes garante sorrisos e/ou atenção, o que faz as pessoas prestarem a atenção neles e repetem. Então, se valorizarmos quando cantarem uma musica bacana ou se aplaudirmos quando rebolarem a coreografia do sucesso do momento estaremos passando uma mensagem do que esperamos que eles valorizem… Já diz o ditado ” A beleza está nos olhos de quem vê!”

  7. Raquel Suertegaray

    Obrigada a todas as mamães leitoras, fico muito contente em saber que tantas de nós estão preocupados com o conteúdo que chega até nossos pequenos! Beijo carinhoso

  8. Tatiana Cali

    Pois é… E quem muito estimula cedo, mais tarde se arrepende!
    Perfeito seu texto!
    Beijinhos,
    Tati

  9. Mayse

    Texto perfeito. Tenho uma filha de 4 anos e um filho de 8 meses, me preocupo muito com o que ela ouve e ve. Temos muito cuidado pra que ela não seja exposta a sexualidade. Selecionamos a programacao de TV, pois além do erotismo excessivo, tem também aqueles programas sensacionalistas que mostram muita violência.

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