A chegada do irmão mais novo e ciúme do mais velho

O post de hoje, aqui na coluna Psicologia, foi escrito atendendo a um pedido especial: o meu! (risos!). Pedi que a Raquel, colunista do blog e minha amiga de longa data (mais de 30 anos), escrevesse sobre o ciúmes do filho mais velho com a chegada do mais novo. No seu ótimo e esclarecedor texto, ela dá dicas para lidar com essa delicada questão e explica, também, a importância desse sentimento para o desenvolvimento da criança. Amei o texto. Está um arraso, como sempre! Boa leitura!

Photo Credit: karolajnat via Compfight cc

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A chegada do irmão mais novo e ciúme do mais velho

Por Raquel Suertegaray

Olá mamães, hoje vou falar sobra a chegada de um irmãozinho e o ciúme do irmão mais velho. Embora pareça um tema interessante apenas para quem está vivendo este processo, ele é, na verdade, muito mais abrangente, pois fala de como podemos preparar nossos filhos, únicos ou não, para enfrentar na vida as situações de rivalidade e competição.

O ciúme, sentimento causado pelo receio de perder, para outro, o afeto da pessoa amada, é um sentimento genuíno, que nos acompanha ao longo da vida nas mais diversas situações e sempre provoca angustia, nos mais variados graus. Como pertence à família dos sentimentos é incontrolável, não passa pelo crivo da razão e depende de como fomos preparados para lidar com ele quando nos invade.

Escolhi este viés, pois considero a reflexão muito valiosa para todos que se aventuram na tarefa da maternidade e da paternidade. Penso que nós, pais, devemos preparar nossos filhos desde o início da vida para não acreditarem que o universo gira em torno deles. Atitudes simples, como a mãe dar-se o direito de atender suas necessidades básicas, como comer, ir ao banheiro e tomar banho, mesmo que isto custe algumas lágrimas ao filho, vão dando notícia de que no mundo vai além de seus desejos e que aquela pessoa que normalmente está pronta a atendê-lo também existe, tem necessidades e direitos é uma frustração capaz de ser administrada e necessária.

Reconhecer o outro não é algo que nascemos sabendo, mas que é fundamental para que possamos dividir sem que isto se transforme em um ataque à nossa auto-estima. Outra situação comum que vai dando à criança sinal de que ela nem sempre reinará sozinha é não permitir que ela sempre se coloque entre o pai e a mãe no sofá da sala ou na cama do casal. A experiência de ser excluída, mas continuar sendo amada, nos prepara para futuras exclusões e de certa forma a chegada de um irmão representa o mesmo.

Quando somos filhos únicos somos o brilho dos olhos dos nossos pais e a chegada de um irmão traz consigo uma cisão neste reinado. A raiz do ciúme que esta situação provoca está no temor de perder o amor e a atenção dos pais para este novo personagem que está chegando. Entendendo que o medo da perda do amor e da atenção provoca sentimentos ambivalentes nos permite agir de forma reduzir o sofrimento, reassegurando de forma mais intensa nossa capacidade de amar cada filho, com suas qualidades e defeitos, independentemente de quantas vezes nosso amor precise ser partilhado.

Em um momento que naturalmente os olhos se voltam para o bebe que chega, e isto é necessário, pois o bebe chega imaturo ao mundo e necessita de cuidados exaustivos nos primeiros meses, os pais devem reconhecer este fato e criarem um esquema que garanta doses extras de atenção para o filho mais velho.

Quando falo de criar um esquema e reconhecer que as coisas irão mudar, falo de não fazer de conta que tudo será como antes, pois não será. A criança precisa ser preparada para isto, pois quanto mais desconhecida a situação que temos que enfrentar, mais assustadora ela se torna.

Permitir que a criança saiba que a gravidez existe, que ganhará um maninho, que ele vai nascer pequeno, precisando de cuidados, como ele também precisou e recebeu é um bom começo. Mostrar fotos e contar para o mais velho como foi a sua chegada vai mostrarque o aparato criado para receber o maninho também foi armado para ele e pode fornecer um repertório de memórias que se tornaram acalentadoras nos momentos que os cuidados com o bebê lhe parecerem roubar o tempo dos pais.

Fortalecer o ego do mais velho, lhe conferindo potência, capacidade de ajudar durante os preparativos também ampliam este repertório, pois mostra que seu valor virá de suas conquistas atuais, que o mano, por mais mimoso e novidade que seja ainda não é capaz de fazer. Com isso, a criança começa a aprender que cada pessoa tem suas características e seu valor e este aprendizado vai ajudar a enfrentar a chegada de um irmão, mas também vai ajudar na escola a lidar com a chegada de novos colegas, com a necessidade de dividir a atenção da professora, depois a dividir os amigos, e por aí afora…

Crianças pequenas tem o pensamento concreto, então não compreendem muito bem o que não podem ver, como um irmão na barriga da mãe. No entanto, sentem que aquela situação rouba coisas que até então era só suas. Aos poucos, a mae não consegue mais aconchega-lo no seu colo com tanto conforto, perde um pouco da capacidade de brincar e rolar com eles como antes. A vida sabiamente vai gradualmente mostrando que as coisas estão mudando.

Mudanças são ansiogenicas sempre para todos nós, pois trazem consigo o desconhecido. Portanto, abrir espaço para falar dos temores, seja lá como eles se manifestam, tratando-os como normais e permitidos facilitam as coisas e geram menos culpa.

Crianças conhecem o mundo através dos olhos dos pais, por isso, temos que lidar com estas mudanças como passíveis de serem administradas, tratando o sofrimento como parte do processo que todos estão vivendo e como algo que a criança poderá suportar é uma mensagem que fortalece. Se passamos a tratar o filho mais velho como coitadinho, pode transmitir a ideia de que as coisas serão mais difíceis e até mesmo impossíveis de serem metabolizadas.

É importante que os pais se organizem para atender as demandas do filho mais velho, pois elas irão surgir e são reais. Nos primeiros dias o pai ou os avós podem ampliar a atenção ao mais velho, pois a mãe, obrigatoriamente, terá que se voltar mais intensamente para o recém-nascido e poderá ter algumas limitações decorrentes do pós-parto. Para isso, durante a vida pregressa, a mãe deve permitir que o filho estabeleça vínculos fortes com estas pessoas, não monopolizando os cuidados.

Crianças que crescem excessivamente grudadas em suas mães tenderão a sofrer mais intensamente, pois não foram preparadas para dividi-la, nem tao pouco tiveram oportunidade de estabelecer vínculo com outras pessoas.

Ter um esquema bem montado e permitir que a criança saiba o que irá acontecer será reconfortante, pois prever o que acontecerá deixará a criança mais segura. Ela deve saber que vai ganhar um irmão, um companheiro para a vida toda e que isso é um grande presente, mas não devemos esquecer que este presente não nasce pronto. No inicio ele irá dormir, chorar, não lhe dará atenção e exigirá muitos cuidados e saber isso evita a frustração de expectativas irreais.

As manifestações de ciúme poderão vir de formas e níveis muito variados e precisam ser reconhecidas e atendidas, pois representam uma carência afetiva, que pode ser aplacada com doses de carinho e atenção extras. Um colinho, um abraço, um passeio bacana, uma história…

Aprender a dividir é uma lição riquíssima e nos prepara para a vida, então, as frustrações e as angustias deste momento tão especial fará parte da construção da personalidade e permitirá ao filho mais velho desenvolver recursos internos que tornarão sua vida mais fácil para sempre e de quebra lhe dará um companheiro para vida toda!

Abraços! Raquel

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Confira, nesse vídeo, meu relato-desabafo sobre como está sendo o ciúmes do Leo nesse finalzinho de gestação.

11 comentários

  1. Luana

    Amei o texto. Meu filho tem 2 anos e estou grávida do segundo, já estamos nos preparando pra essa nova fase, o texto nos ajudou muito.

    1. Raquel Suertegaray

      Obrigada!!!

  2. eveline

    Muito boas as dicas!! Gostaria de saber como aplicá_las quando a diferença de idade é muito pequena, como 1 ano, 1 ano e meio. Nessa idade eles conseguem ter noção de que vão ganhar um irmãozinho?

  3. Marcela

    Amei o texto, tenho um filho de dois anos e cinco meses e to grávida de seis meses…. mas meu filho não da muita bola, ele não expressa nenhuma reação e nenhum sentimento, quando falamos com ele sobre isso ele meio que foge do assunto, mostra outra coisa, finge que não ouve. Desde quando contamos, parece que ele não entende muito bem, fica um pouco perdido, queria saber se é normal.

    1. Macetes de Mãe

      Que bom que gostou, Marcela!
      Acredito que é normal, e as crianças reagem de forma diferente. Logo ficará tudo bem :)
      Bjs

    2. Raquel Suertegaray

      Cada criança tem seu jeito e nestas horas a forma que ela vai lidar, vai seguir a linha de como ela já é, alguns traços podem se incrementar… observe, ele pode estar administrando bem, sem querer falar a respeito!

  4. Karina

    Tenho um filho com 2 anos e 2 meses e uma bebê de 5 meses… O q fazer qdo ele age de forma agressiva? Tenta bater nela todos os dias, não posso deixar um perto do outro… Tento fazer isso p ele se acostumar mas ele tenta bater… Converso todos os dias com ele, explico q é a irmazinha, q tem q ter carinho, ajudar a cuidar… Mas ainda não teve muita melhora…

  5. Taciana

    Bacana demais tanto o texto quanto o vídeo!! O assunto chamou muito a minha atenção, pois eu já tenho uma segunda filha e de umas duas semanas pra cá a coisa tem mudado bastante!! Quando a Duda chegou a Ana tinha apenas 1 ano e 5 meses…e acreditem a reação dela foi totalmente diferente do que eu imaginava. Todos sempre me perguntavam sobre ciume e minha resposta sempre foi: “muito menos do que eu esperava!”. Mas agora…ah agora rsrs!! A Duda está com 7 meses e a Ana acabou de completar 2 anos. A Duda que até alguns meses era só um bebê que mamava e dormia, passou a ser um bebê que chama a atenção ou seja, ela já senta, rola, está começando a engatinhar, sorri com muitaaaaa facilidade, emite sons e aí pronto, conheci o tal CIÚME! Mas enfim, eu tento envolvê-la ao máximo em tudo, tento não perder a paciência (o que as vezes é bem difícil), mas acho que tudo é um aprendizado, diário e contínuo. Com certeza toda a mãe de segundo filho já, desde a gestação, sabe o quanto eles são diferentes…depois que nasce então! Nossa é incrível, são diferentes em tudo aparência, temperamento, adaptação, alimentação, desenvolvimento, atitudes e reações, mas posso garantir que é magico, lindo, perfeito. Trabalhoso e cansativo sim, mas extremamente gratificante ver o sorriso de uma pra outra, a alegria quando estão juntas e a pureza nas palavras da Ana quando a Duda chora e ela chega bem pertinho, sem ninguém ter ensinado e diz: Calma Duda Ana tá ati!!! Isso é pra mim a certeza de que minhas filhas nunca estarão sozinhas, terão sempre uma a outra e serão eternas companheiras!! Amor imenso que não se divide, mas sim se multiplica. Beijos e que Deus abençoe todas nós, MÃES!

    1. Macetes de Mãe

      Que bacana seu depoimento, Taciana!
      Obrigada por compartilhar conosco :)
      Bjss

    2. Raquel Suertegaray

      Querida!!!!!!!!!!!!

  6. Glaciela

    Tenho um filho de quatro anos, Felipe. Quando fiquei grávida ele ficou muito contente… Mas o ciúme é inevitável, ainda mais que vieram duas meninas, Isadora e Sofia, hoje elas estão com 10 meses… E ainda me pego contornando a situação,ainda mais agora que o Felipe está na escola ficou bem difícil… Duas meninas pequenas e um estudante… Uffa!!! Mas é uma alegria tão inexplicável que vale cada segundinho de aflição.

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