Não julgue pelo que você vê

Vou contar para vocês uma história.

Anos atrás, costumava ir a restaurantes repletos de famílias e, ao ver sobre as mesas  DVDs players e, mais recentemente, iPads, ficava chocada. Para mim, aquilo era um absurdo, já que se tratava de um encontro familiar, um momento de integração, e lá estavam as “pobres” crianças largadas de lado, deixadas por pais aos cuidados da tecnologia. Isso, para mim, soava como algo até um tanto quanto cruel.

nem tudo e o que parece ser

Mas aí, o tempo passou. Eu casei, engravidei e tive um filho. E aprendi que a vida dos outros não é só aquilo que a gente vê da porta para fora, para o bem ou para o mal. E que assim como há famílias que escondem a sua face não tão bonita dentro de casa, há outras que acabam, pela força das circunstâncias, mostrando um lado não tão admirável quando estão em público, mas que não representa a realidade do dia a dia, como as coisas são para valer dentro daquela casa.

Hoje tenho plena consciência de como a minha visão sobre criação de filhos era rasa, como eu, tendo acesso a apenas um recorte da realidade (sim, eu estava ouvindo ou vendo só um pequeno detalhe da vida dessas pessoas), me achava no direito de, mentalmente, criticar ou julgar os pais que via nos restaurantes que frequentava.

Hoje, eu sei que as coisas não são sempre como a gente imagina, sonha, planeja e idealiza. Principalmente em se tratando de maternidade. E que aquilo que a gente mostra porta à fora, para todo mundo ver, não traduz exatamente o que acontece na maior parte do tempo em nossas vidas.

Hoje, ao ver uma mãe entregando um iPad a uma criança em um almoço de família ou, então, contando com a ajuda de uma babá para dar conta do recado, eu não penso mais em como ela está sendo insensível e egoísta, prezando pelo seu almoço e deixando seus filhos de lado. No lugar desse raciocínio raso, me vem em mente um outro pensamento: como será que foi a semana dessa mãe? Quantas horas será que ela se dedicou ao filho? Será que ela teve uma única noite bem dormida? Será que conseguiu comer uma única refeição quente? Será que não se desdobrou em dez para, todos os dias, ao chegar do trabalho, passar horas brincando com seus filhos quando sua vontade era se atirar numa cama e descansar? Quantas dessas crianças não ficaram doentes durante essa semana? Há quanto tempo ela não sai para almoçar fora ou encontrar a família?

Tanta coisa passa pela minha cabeça quando eu vejo pais e filhos em restaurantes. Pois eu sei que aquele momento pode estar sendo o momento do ano para essa mãe, pode estar sendo aquele almoço que ela sonha há meses, com uma comida quentinha, gostosa e que não foi preparada por ela. Pode estar sendo um dos raros momentos em que ela pode se arrumar, colocar uma roupa melhor, passar uma maquiagem e sair de casa se sentindo um pouco mais mulher e um pouco menos mãe, o que não há nada de errado.

Essa mãe, que a gente vê usando um iPad, pode não ter ajuda nenhuma durante a semana, se virar nos 30 para fazer tudo sozinha, preparar todas as refeições dos filhos, brincar por horas com eles, trabalhar infinitas horas em casa ou na rua e ainda ter tempo, ânimo e amor para se dedicar aos filhos. Pode tê-los levado todos os dias no parquinho, contando lindas histórias, nunca deixado o bumbum ficar assado, amamentado até muito mais tempo que o OMS preconiza, mas isso ninguém vê.

As pessoas – e eu entre elas até pouco tempo atrás – só enxergam o iPad em cima da mesa ou a babá sentada ao lado e aí, saem fazendo raciocínios e julgamentos que, muitas e muitas vezes, não são nada justos e não traduzem a realidade dos fatos.

Com a maternidade real aprendi que nem tudo é da forma que a gente idealiza, sonha, imagina e espera. Vamos ter muito, mas muito mais trabalho que a gente poderia supor no dia a dia e vamos abrir mão de uma parte enorme de nossas vidas. Assim, se um dia formos convidadas para um almoço bacana, com amigos ou famílias, vamos nos virar nos 30 para dar o almoço saudável dos nossos filhos antes de sair de casa, vamos deixar de lado preciosos minutos na companhia de pessoas queridas para correr pela área de lazer do restaurante, brincando e nos divertindo com os filhos, mas também vamos, sim, puxar das nossas bolsas um iPad, celular ou objeto afim, para termos, quem sabe, meia hora de descanso, boa conversa e um pouquinho da antiga vida de volta. E não há nada de errado com isso.

Em resumo. Não julgue tudo pelo que você vê. Ou, pelo menos, tente julgar menos.

 

21 comentários

  1. Juliana Ortiga

    Exatamente assim! Pensava igual a você antes de ser mãe, hoje qndo vejo certas cenas tenho vontade de ajudar!
    O olhar sobre o mundo muda, hoje faço coisas que antes jurava que jamais iria fazer com meu filho, por exemplo dar o ipad kkkkk
    E é pra ter aqueles preciosos minutos de paz e conversa adulta que tanto sinto falta! Beijos adoro seu Blog

  2. Sofia Maciel

    Exatamente!
    Que pena julgarmos tanto antes de vivenciarmos algo. Reaprendi com a maternidade que temos que pensar muuuito antes de julgar algo como certo ou errado. Só quem está vivenciando uma situação sabe a melhor solução para ela. Cada caso é um caso. E se há amor e responsabilidade, ponto final.

  3. Adarita Mendes

    É muito verdade, sou exatamente como vc. pensava coisas sem saber a real verdade por trás…
    E hoje sendo mãe, vejo o quão difícil é ter um tempo pra nós, o quanto isso faz falta, e mudei total a minha opinião das coisas que vejo por aí!
    Vc tirou as palavras da minha boca nesse post!!!
    Parabéns!

  4. Glauciele

    Sem dúvida,palavras verdadeiras,amo ser mãe,as vezes só um ipad ou um celular para nos salvar.

    Beijos amo esse blog

  5. Karine

    E quando se tem um marido viciado em tecnologia? Meu bebe de 1 ano e 1 mês tem um Ipad Mini. Usamos quando fazemos viagens mais longas e quando saímos para almoçar e jantar. Tem dias que não precisamos colocar vídeos, mas tem dias que nem Ipad, nem celular nem nada resolve…Quando meu bebê era mais novinho e começamos a sair me preocupava com o que as pessoas iam comentar…agora nem ligo…e olha que sou um poço de paciencia!

    1. Ludmila

      Ai Karine minha bebe de 1 ano e 1 mes tbm dou celular a ela faz tempo…ela nao tem um dela mas com certeza julga o meu como dela haushuahsuhauhsuah…eu sempre di e mostrei as coisas….nao adianta a geraçã odeles é ainda mais de tecnologia que nós imagina nem da pra compara……..e as vezes so assim pra ficarem na cadeirinha do carro..ou quando precisamos esperar algo nao é mesmo…….vida que segue nao é o tempo todo….

  6. Cissa Belli

    Eu coloco iPad, iPhone, lápis e papel, brinquedos até álcool gel pra minha filha ficar passando na mesa kkkkkkkkkkkk faço qualquer coisa pra conseguir ter um pouquinho de paz pra comer… E não to nem aí se tem alguém me olhando feio. Acho que não sou uma mãe má por isso! E quando vejo alguma mãe usando um recurso diferente, não julgo… Pelo contrário aproveito a ideia kkkkkkkkkkkkkkkkk

  7. Vanessa Sayao

    Antes julgada as crianças de chinelo em shoppings e restaurantes como mal vestidas, hoje minha filha pegou um apego pelo chinelo que não tira nem pra dormir. Quer ir de chinelo filha? Então vai, só pelo amor de Deus para de chorar por causa desse chinelo. Esse é meu lema.
    Telefones e tablets, esses nem temo mais, são todos dela.

  8. Fabiana

    Ai Shirley!!! Só você pra escrever exatamente o que a gente precisa ouvir e compartilhar na hora certa!! Mãe deveria vir com “o ser mais julgado da face da terra” como definição no dicionário!
    Amei seu texto!! Bjo

  9. carol

    Shirley!! Adoro os seus textos!!

    Minha bebê tem 1 ano e meio, mas uso destes recursos eventualmente, pois nesta fase ainda é mais atrativo para ela o mundo. Não julgo os pais que usam tecnologia em restaurantes, mas acho perigoso usar estes meios para tentar continuar a vida social de antes de ter filhos. Claro que isso é apenas uma parte dos pais, mas tem acontecido muito!
    Nossos filhos no processo de educação dão xiliques, pois se estressam. E acho que isso deve nos fazer pensar no tipo de programa que temos feito….

  10. paula

    Super concordo com vc. Hoje, após ser mãe, além de aprender a não julgar, tbém aprendi que nossos filhos já nascem com uma personalidade pré determinada e que muitas vezes nos surpreende.

  11. Joana

    Eu uso para viagens longas, idas a restaurantes e em jantares de grupo em casa.
    Inicialmente tinha um peso de consciência terrível, mas depois de correr os restaurantes de ponta a ponta, não conseguir comer e só apanhar palavras soltas das conversa, comecei a usar o telemóvel como auxiliar. Dá-me 10 minutos conversa :-)

  12. Thaíse Christoni

    Hoje, publiquei um texto que tem tudo a ver com isso. Ele não é meu, apenas fiz a tradução. Como ser uma boa mãe —> http://bit.ly/17F7107

  13. Juliana

    Shirley, não costumo comentar por aqui, mas hoje senti essa necessidade.
    O contrário também existe viu? Aqui em casa optamos por não deixar o Leonardo usar tablets nem televisão. Por enquanto funciona, ele tem 1 ano e meio, mas não sei como será daqui uns bons anos, então nunca fui daquelas que mete o dedo na cara do outro. RESPEITO é bom, certo?

    De qualquer maneira o que percebo é que também a muitas criticas com mães que optam por deixar um pouco a tecnologia de lado. Já ouvi criticas grosseiras, acredite, até da minha mãe. Mas sigo firme e forte com minhas convicções.

    Quanto ao restaurante, há outras maneiras de entreter criança. Levar um bloco de papel e giz de cera por exemplo ou ter algum brinquedo “diferente” dos usuais costuma funcionar para acalmar o Leonardo.

    Abraços.

  14. Ivana Prudente

    Bravo!

  15. Naiara Martins

    Oi… Ainda não sou mãe e li seu post sobre o parto da Sandy e esse aqui que estou comentando. E resolvi escrever pois foi um tapa com luva na minha cara. Realmente não devemos mesmo nunca jamais julgar ninguém. Pois nada sai como o imaginado e planejado. Muito Obrigada!!! E já virei sua leitora. Bjuss

    1. Macetes de Mãe

      Olá Naiara!
      Que bacana saber disso, fico muito feliz!
      Bjss

  16. Luna

    Olá!

    Como eu ainda não tenho filhos, estamos no planejamento para daqui uns 3 anos ainda kkkk. Eu não posso opinar muito, mas acredito que cada caso é um caso. Para mim penso que quando for uma ocasião como encontrar amigos, para colocar o papo em dia e coisas do tipo, vamos recorrer a vovó (ela nem sonha com isso,kkk), para que a criança não acabe ficando num ambiente que não a deixa entediada, apesar de que não somos muito de sair. Mas, quanto a esse assunto de crianças com celulares ou tablets, tenho visto muito em situações do dia a dia, mães que pegam seus filhos na escola e os levam para almoçar no shopping, por exemplo, e logo já entregam um aparelho para a criança e almoçam enquanto ela está ali entretida, depois vão embora sem dar uma palavra com a criança, como você disse no texto, não sei da vida dessa mãe com seu filho, mas aparenta uma relação um tanto quanto impessoal, e vejo muito isso acontecer não com as crianças pequenas que ainda não entendem bem a situação e as vezes precisam de métodos para ficarem entretidas, mas com crianças grandinhas por volta dos 6, 7 anos. Não sei mesmo, vou esperar pra quando a situação for comigo pra poder dizer qualquer coisa além disso….

  17. Flávia

    Ai como eu me vejo em seus posts… hahahhahahaha

  18. ARIANE

    Oi, excelente post!!

  19. Thata

    As pessoas gostam mesmo de jugar, não é? Eu nem ligo pro julgamento dos outros, faço o que acho ser melhor para o meu filho e para mim. Enquanto esperamos a comida o meu filho assiste sim vídeios no tablet no restaurante. Eu nunca me importei muito com o que os outros fazem com seus filhos, a naão ser que seja algo absurdo, tipo uma criança que chora ou apanha o dia inteiro. Mas enfim, eu procuro não julgar e tento me colocar na pele da outra pessoa. É claro que nem sempre fui assim, mas quando viramos mães isso mexe com a gente né? :)

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