Quando chega a hora de cortar o cordão umbilical

Esses dias saí para tomar um café com uma amiga. Fazia tempo que a gente não se via, tínhamos muitos assuntos para colocar em dia e ela estava passando por um momento complicado da vida e queria desabafar. Assim que começamos a conversar, ela me contou que o marido mudou de emprego e também assumiu outros compromissos pessoais e que então, agora, ele trabalha muito mais horas por dia, tem compromissos todas as noites e, quase todos os finais de semana também está com suas horas tomadas. Para completar, a sogra dessa minha amiga, que sempre a ajudava com a pequena quando era necessário, mudou para o interior e a mãe, que também quebra o galho quando precisa, mora do outro lado da cidade.

cortar o cordao umbilical

Photo Credit: donnierayjones via Compfight cc

Minha amiga estava nitidamente cansada, na verdade exausta, e me contou toda essa história com os olhos marejados, se segurando para não chorar. Percebi, que ela estava no seu limite, que estava estressada e, principalmente, com medo. Medo do que fazer, medo de não ter com quem contar caso acontecesse alguma coisa, algum imprevisto, e ela precisasse deixar a sua pequena aos cuidados de alguém.

Eu ouvi tudo com paciência e atenção e, ao final da conversa, eu dei o meu conselho. Disse: você precisa ter alguém a quem recorrer quando precisar. Você precisa ter alguém que a ajude com a Vitória no caso de uma eventualidade. Você precisa ter essa segurança, encontrar alguém que cuide da sua pequena quando surgir algum outro compromisso que você tenha que participar sem ela. Nessa hora, minha amiga me deu uma resposta que, de certa forma, me surpreendeu. Ela disse: “mas eu não confio em ninguém cuidando dela.”

Sim, eu me surpreendi com essa resposta, pois a Vitória já tem 4 anos, não é mais uma bebê recém nascida. Ela já frequenta a escola meio período, já tem certa independência, é uma menina bem resolvida, alegre e confiante. Mas para a minha amiga, conforme ela mesma me disse, ninguém cuida tão bem quanto ela e assim, então, ela não consegue relaxar e aceitar que outras pessoas também cuidem da sua filha, mesmo que por poucas horas (com excessão das avós e do pai).

Sim, eu concordo com ela, ninguém cuida tão bem de filho quanto mãe, mas quem disse que nossos filhos precisam ter esse cuidado extremo de mãe em todos os momentos de suas vidas? Quem disse que eles não sobreviverão se ficarem, por algumas horas, aos cuidados de outra pessoa?

Sim, nossos filhos sobrevivem se, de vez em quando, precisarmos deixá-los aos cuidados de alguém responsável e carinhoso para que a gente possa cumprir um compromisso profissional ou sair para cuidar um pouquinho de nós. Eles sobrevivem se não tiverem a nossa atenção 24h por dia, 7 dias por semana. Sobrevivem se a gente se ausentar por algumas horas e alguém que não cuida tão bem quanto nós, mas cuida sim muito bem também, ficar de olho neles até que a gente resolva o que tem que resolver fora de casa.

E acho que nessa história, a grande questão, era muito mais a “sobrevivência” da minha amiga do que da filha dela. É o quanto ela sofre por não estar no controle, dando conta de tudo, se responsabilizando pela filha 100% do tempo.

Mas chega uma hora que o cordão umbilical tem que ser cortado. Que temos que perceber, de verdade, que nossos filhos crescem e não precisam tanto assim da gente. E a gente também precisa confiar na independência deles e confiar que outras pessoas também podem cuidar deles com carinho, responsabilidade e atenção. Quando mostramos para nossos filhos que confiamos em deixá-los aos cuidados de outras pessoas, mostramos também que confiamos neles, e assim incentivamos a sua autonomia.

Tenho certeza que essa situação, de cortar o cordão umbilical que nos liga tão fortemente a nossos filhos, é mais fácil para algumas mães que para outras. Eu mesma, tive muita dificuldade em aceitar ajuda com o Leo, meu primeiro filho, do que com o Caê, meu segundo. Mas é importante trabalharmos isso, pois isso fará diferença na nossa vida e na dos nossos pequenos.

Mais cedo ou mais tarde, nossos filhos estarão enfrentando o mundo e não mais 100% embaixo de nossas asas. E nesse momento, não teremos mais condições de cuidarmos e protegê-los de tudo. Mais cedo ou mais tarde, eles andarão por suas próprias pernas, e se, nesse momento, nós seguirmos tão controladoras como costumávamos ser quando eles eram pequeninos, as coisas serão muito difíceis tanto para eles quanto para nós.

Enfim, o que quero dizer é: todos sobreviverão se você cortar um pouco o cordão umbilical, se você abrir um pouco mão da perfeição com que cria e cuida, se aceitar ajuda e deixar outras pessoas participem também. Nós, mães, somos as melhores, sem sombra de dúvidas, mas outras pessoas também podem fazer um ótimo trabalho.

Aceitar ajuda faz um bem danado, para nós e para eles.

 

3 comentários

  1. Isabela

    Realmente é muito difícil delegarmos os cuidados com nossos filhos a outra pessoa. Estou tentando trabalhar isso agora que minha filha de um ano e oito meses está na escolinha um período. Acho que é muito mais difícil para nós mães do que para eles.

  2. Cris

    Passei dois anos com a responsabilidade de cuidar do bebê, da casa e da minha tese de doutorado. Resultado óbvio: a tese ficou em último plano. Com o prazo se esgotando tomei coragem e iniciei o corte do cordão umbilical. Heitor fez dois anos e está meio período numa escola que me dá possibilidades de deixar o dia todo ou fazer um horário estendido às vezes. Meu marido diminuiu a carga de trabalho, participa mais e ainda assim contratamos ajuda com a casa e com o Heitor nos dias em que nós dois temos aula a noite. Voltei a dar aulas e me dedico a escrever a tese. Amei ficar com ele nesse período tão importante para o bebê e no momento estou feliz em voltar a ser produtiva. Lido com isso tentando simplesmente não pensar no assunto. E para a minha surpresa, passada a primeira semana de adaptação na escola, ele parece super feliz em estar lá. Adora a babá (aliás, come e dorme melhor com ela que com a gente). E por alguns meses pelo menos, é assim que vamos viver. Um dia quem sabe, levarei isso à terapia. Por ora, não dá tempo…

  3. Prita Rigueira

    Os filhos são nossos companheiros de estrada. É importante darmos autonomia para que eles se sintam seguros e caminhem sobre os próprios pés, não em nossos ombros.

    Parabéns pelo texto, grande abraço!

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