Tudo bem, foi sem querer. Você não teve culpa.

Há pouco, eu e o Leo estávamos deitados no sofá. Ele vendo TV, com a cabeça no meu colo, e eu lendo. Então, ele fez um movimento mais brusco, bateu em uma xícara que estava próxima, ela voou no chão e quebrou. Ele, levantou rapidamente, com aquela cara de “o que houve?”, e foi ver o que havia acontecido. Quando ele encontrou a xícara quebrada, no chão, pegou ela nas mãos, reuniu alguns caquinhos que estavam próximos e tentou juntar os pedaços novamente.

Na hora, eu simplesmente disse para o meu pequeno:

“Está tudo bem, foi sem querer, você não teve culpa”.

xicara quebrada

A tal xícara que gerou o post de hoje. Eu tenho essa foto porque, na hora, pensei em postar no Instagram a história, então registrei o pequeno segurando ela nas mãos. Mas aí achei que valia um post aqui no blog. E aqui ele está.

E ele, que já estava com uma carinha bem triste, quase chorosa, de quem havia feito algo errado e se culpava por isso, correu para o sofá, deitou-se novamente no meu colo e continuamos curtindo o que estávamos fazendo.

E essa situação, me fez lembrar de uma que vivi com a minha mãe, há muitos anos, quando eu era uma adolescente. Minha mãe havia me dado um relógio que não era caríssimo, mas que, para ela, havia custado bastante. Esse relógio estava com um problema no fecho e eu já havia perdido-o dentro de casa. Uma certa noite, eu teimei em usá-lo para sair, mesmo a minha mãe dizendo que deveríamos consertá-lo antes, e acabei perdendo-o. No dia seguinte, quando minha mãe veio me acordar, eu contei que havia perdido o relógio. Claro que na hora ela ficou furiosa e disse: “eu tinha avisado! Falei que você não deveria sair com esse relógio, mas você teimou”. Ela deixou meu quarto brava, mesmo, e eu, fiquei ali, sentida, quase arrasada.

Pouco depois, ela voltou. Sentou-se junto a mim e delicadamente me pediu desculpas. Ela disse que sabia que eu estava triste pelo que havia acontecido e que não precisava que ela, ainda por cima, brigasse comigo. E ela comentou que sabia disso porque havia vivido exatamente a mesma coisa muitos anos antes, com a mãe dela. Ela também havia ganhado algo da minha avó que acabou, sem querer, perdendo, e minha avó ficou furiosa, brigou com ela, deixou-a de castigo e tudo mais. Só que a minha mãe dizia que tudo aquilo era desnecessário, que o maior castigo ela já estava sentido, que era a culpa e a dor de ter perdido algo que havia custado tanto para a minha avó e que era importante para ela.

Enfim, o que quero dizer com toda essa história? Que independente do valor, se é caro ou barato, se é valor sentimental ou financeiro, coisas são coisas. E que, pessoas e sentimentos, são e serão sempre muito mais valiosos que coisas. Foi isso que minha mãe me ensinou há muitos anos e eu nunca esqueci.

Assim, se seu filho chegou em casa com a roupa encardida, derrubou suco na toalha limpa, quebrou o brinquedo novo, perdeu o presente que você acabou de dar, não dê tanta importância a isso. Claro que não quero dizer que você não deve ensinar as crianças a darem valor ao que elas tem. Claro que não é isso. Só não precisa dar tanto valor assim. Uma xícara é só uma xícara e sobraram várias outras. Um relógio, cedo ou tarde, pode ser comprado novamente. Mas a dor de uma injustiça, o sentimento de culpa (mesmo por algo intencional) nem sempre é esquecido facilmente.

Eu acho sim que crianças devem dar valor ao que possuem. Saber que aquilo custou tempo e dinheiro dos seus pais. Que aquilo deve ser cuidado e zelado. Mas quando acontece uma acidente, quando algo se perde ou se quebra sem querer, não é a hora de se ensinar isso a uma criança. Não pelo menos com briga, grito e castigo.

Pode-se explicar que aquilo era importante, era valioso, e que da próxima vez a gente espera que se tenha mais cuidado para não acontecer novamente. Mas é isso. Nada de punição.

Por isso, peço que vocês pensem duas vezes antes de brigarem com seus filhos por eles terem quebrado, perdido ou estragado algo. Bens materiais podem ser substituídos, mas a chance de ensinar o que realmente tem valor nessa vida não é sempre que a gente tem. E não podemos deixar passar.

Eu juntei os cacos da xícara e joguei no lixo. Não briguei com o Leo pelo que aconteceu. Assim como não briguei quando ele quebrou um outro objeto que tinha valor sentimental para mim, há algumas poucas semanas. Sei que meu pequeno não fez nenhuma dessas duas coisas por querer e vi isso no seu olhar de tristeza quando os cacos voaram pelo chão.

Em cada adversidade, perda ou desafio, por mais simples ou mais complexos que sejam, temos sempre a chance de ensinar para nossos filhos algo que realmente importa. Pensem nisso.

14 comentários

  1. Vanessa Sayao

    Uma vez li, um artigo sobre uma mãe que gritava por tudo com seus filhos. E que eles sempre derrubavam coisas sem querer, quebravam às vezes, e a atitude dela era sempre gritar com eles. Um belo dia, ela havia chegado exausta do trabalho e uma das crianças derrubou um saco de arroz todo no chão, e ela já preparada para aquele mega grito, quando olhou bem filho, ele estava com uma carinha de desespero pelo que havia feito e porque já sabia que a mãe brigaria com ele. A partir daquele momento ela caiu em si o mal que estava fazendo para seus filhos, mesmo que sem querer.
    Ela ensinou os filhos a partir dali que eles precisam consertar, limpar ou arrumar o que havia sido estragado/ derramado/ bagunçado.
    Eu confesso que também gritava com a Eduarda e depois disso que li mudei minha forma de lidar com essas reações.
    Muito bom seu texto, como sempre.

    Beijos Shi

  2. Camila

    Sempre leio os seus textos são muito bons e complexos, o meu pequeno tem 2 anos e meio e forma que conversar, tratar ensinar e etc tudo a ele é totalmente contrário ao que minha mãe fazia comigo… longe de mim falar mal da minha própria mãe, ela é uma pessoa maravilhosa que sempre trabalhou muito junto ao meu pai para criar eu e meu irmão, mias o fato é que tudo que eu fazia que ela achava errado era gritos, chineladas, castigos… foi educada assim, e aprendeu com a mãe dela, para mim esse exemplo foi ao contrário não quero gritar por tudo com meu filho, não bato nele, converso bastante com ele inclusive na hora de dormir, falo que o amo a todo momento e o incentivo a demostrar e falar seus sentimentos também. Há pessoas que usam do exemplo para fazer o mesmo e outras para fazer totalmente o contrário.

  3. Trícia

    Que texto lindo! E você tem razão no que escreveu. Confesso que eu sou esquentada com relação a quebrarem algo, mas tenho feito o exercício do “não vou surtar colorido, vou conversar primeiro” e teu post caiu como uma luva para isso.

    Obrigada pelo toque!

    Beijo grande…
    Trícia

  4. Naty

    nossa… como é q a gente faz pra tirar o peso da consciência depois de ler esse post?!
    sou muiito esquentada com essas coisas, ainda mais quando digo pra ele nao fazer e ele faz e quebra ou derruba ou estraga sabe?! fico nervosa, tenho medo dele ficar aqueles tipos q não prestam atenção nas coisas, q são estabanados sabe?! confesso q erro mas tenho tanto medo dele ser assim…
    pq meu pai me criou sempre d um forma bem rigida.. não podia quebrar, se derrubasse logo pegava e arrumava, eu não podia imaginar desapontar ele… e no fim isso foi bom pq vejo muitas pessoas q nao foram criadas assim serem tão descuidadas, tão desastradas sabe?!
    mas sim, eu reconheço que preciso ser mais calma.. e eu vou melhorar sim! ai meu Deus que dor no coração por ser assim! :(

  5. Carla Marques

    Concordo plenamente com este texto.
    Acho sobretudo muito importante não nos guiarmos pelo valor monetário da uma coisa para reagir quando os nossos filhos a partem.
    Depois também é preciso perceber porque é que aconteceu: se foi distração, mau comportamento, um simples acidente… De qualquer forma gritar e castigar nunca é uma boa solução.
    Dependendo do motivo e da situação comprar um brinquedo novo pode não ser a melhor solução também. A minha filha ainda é pequenina mas acho que quando acontecer ela partir alguma coisa, não vou brigar com ela mas se vir que foi de propósito ou que foi depois de a ter avisado para não fazer alguma coisa, o que vou fazer é demonstrar-lhe que existem consequências. Nomeadamente não substituir o brinquedo (se for um brinquedo) ou mostrar que fico triste se for outro objeto.

  6. Marcela Magalhaes

    Obrigada por esse texto!! Sou super apegada com as minhas coisas e sei que isso é ruim, tento melhorar. Como estou grávida, não quero surtar com esses episódios com a minha baby, seu post fala diretamente pra mim pra agirmos com sensatez e carinho. Coisas são apenas coisas, as pessoas são infinitamente mais importantes. Beijos!!

  7. perfeito texto… revivi mtas historias da minha infancia, e sem duvidas é assim como vc disse q trato meus filhos tbm! p.s: tm perdi um relogio q estava com fecho ruim e minha mãe não queria q eu saisse com ele hahahah
    boa semana
    bjos

  8. Alice

    ME emocionei com esse texto. Minha mãe é um amor de pessoa e nunca brigou comigo por ter quebrado alguma coisa. Mas minha avó era bem diferente. Lembro que tinha 6 anos e só estava eu e ela em casa. O telefone tocou, fui atender e quando passe para ela (era aqueles telefones antigos, meio pesados) deixei cair no pé dela. Ela se virou para mim com tanta raiva, me acusou de ter feito de propósito, de não saber fazer nada direito. Corri para meu quarto e fiquei quietinha esperando minha mãe chegar. Senti muito, mas muito medo naquele dia, achei que ela ia me bater. Confesso que nunca mais a olhei da mesma forma. Isso me mudou e a mágoa permanece até hoje.

  9. Aline

    Sofri mto com isso na infância. Ao quebrar copos ou pratos, sempre levava broncas enormes. Sentimento mto ruim… certamente nao farei com minha filha!!

  10. Glaucia

    Nossa o difícil é manter essa serenidade da hora né ! Lembro da mh mãe arrumando a mesa do café depois de um dia de faxina na casa, e eu sempre derrubando o chocolate quente na toalha limpinha. Nem preciso dizer o que acontecia né!? Levava uns tapas e com 7/8 anos tinha q lavar a toalha da mesa. Hj percebo q foi bom aquela atitude. Pois sou mt grata. E agora que sou mãe nunca me vi com toda essa serenidade. Mais se eu agradeço, espero q eles entendam a me agradeça tb.

  11. Mariane

    Muito vo seu post. Sofri muito na infância infância isso…meus pais saíam aos berros… com meu filho eu sou mais calma, primeiro analiso a situação para deois tomar alguma atitude.

  12. Monique

    Esse texto é maravilhoso! Tento sempre pensar dessa forma. Coisas são coisas… pessoas importam.

  13. GILCA FREIRE

    Bom dia!
    Excelente esse texto, “macetes de mãe”. Eu também grito às vezes com a minha filha Lorena, e lendo esse texto e outras respostas de mães…vejo que o quão insignificante são todas essas coisas materiais, e que os sentimento, a vida, são bens muito mais preciosos e importantes, muito obrigada!

  14. Rita

    Minha filha tinha três anos ,quando quebrou um vaso de um jogo,que eu adorava.Minha reação na hora foi gritar ,ficar bravissima, além de super triste,e é claro ela se assustou,me olhou com tanto medo,parecia abandonada.nunca esqueço da carinha dela.E prometi que jamais faria isso de novo.Quando ela quebra alguma coisa, o que é raro, eu respiro fundo, e conto até trinta…kkk mas não grito mais de jeito nenhum.

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