Quando o seu filho está longe de ser a criança que você idealizou

Vamos ser sinceras e fazer uma confissão aqui: a gente idealiza os nossos filhos. Antes deles nascerem, já temos uma imagem pré-concebida do filho perfeito. Só que, nem sempre, as coisas saem como a gente espera.

Uma coisa que eu percebo, e muito, por aí, é mãe idealizando filho bonzinho. Aquele bebê que dorme a noite inteira desde cedo, que não faz birra, que aprende as coisas rápido, que come tudo, que é obediente, independente e bem educado. E mais mil e uma coisas. Todas positivas, é claro. E por que pensamos assim? Porque assim dá menos trabalho! E somos comodistas por natureza. Nunca vi uma mãe dizer: “Nossa, sonho em ter um filho que não dorme, que dá trabalho para comer, que tem personalidade forte, é teimoso e birrento. Daqueles eu digo uma coisa, ele diz outra, questiona, faz diferente, me desafia.”. Não, minha gente, isso não acontece. A gente quer sempre o caminho mais fácil.

filho idealizado

Photo Credit: Lynda Giddens via Compfight cc

Só que em se tratando de filhos, o caminho mais fácil não existe. Pode até ser que seu filho durma bem e bata um pratinho cheio, mas, por outro lado, ele pode simplesmente ter uma personalidade do cão. Daquelas que te tiram do sério, que te fazem perguntar: “O que fiz para merecer isso?”.

Em se tratando do Leo, por exemplo, é claro que eu fiz planos para que ele dormisse a noite toda desde 3 meses de idade (ahahaha! que piada), mamasse no peito por muito tempo (não rolou), comesse bem (isso deu certo), fosse educado, tranquilo, obediente e independente (ó a lei do menor esforço aí). E ele é desses? Claaaaaro que não! Leo tem o que a gente costuma chamar de “personalidade forte”, ou seja, só faz o que realmente quer (e dá um trabalho convencê-lo de que ele quer aquilo), questiona, desafia, bate de frente mesmo.

Ou seja, lidar com ele não é das tarefas mais fáceis. Ou seja, em muitos aspectos, ele está longe, muito longe, de tudo aquilo que eu idealizei em um filho. Mas isso faz com que eu o ame menos? Ou faz com que eu o rejeite? Ou, ainda, faz com que eu queira mudá-lo ou moldá-lo ao que eu planejei que ele fosse? Não. Claro que não.

Com o passar do tempo, percebi que o Leo pode não ser aquele filho que eu imaginei, bonziiiiiinho e tranquilo, entretanto, por outro lado, tem inúmeras qualidades que nem passavam pela minha cabeça e que me tornam uma mãe extremamente orgulhosa dele.

Ou seja, com o tempo, passei a ver no meu filho muito mais qualidades que eu admiro do que defeitos que eu quero consertar (apesar de perceber que, como todo ser humano, é claro que ele tem defeitos).

Hoje, sigo achando que o Leo é teimoso, tem uma personalidade forte, é uma criança que questiona e desafia, mas deixei de encarar isso como problema e passei a ver essas coisas como virtudes da sua personalidade. Vendo dessa forma, percebi que eu e o pai dele teremos um bom trabalho pela frente (questionador do jeito que ele é, não vai aceitar qualquer coisa que a gente falar) entretanto, para ele, para o Leo, talvez as coisas sejam até mais fáceis, porque ele é uma criança que sabe o que quer, é decidido, não se intimida e luta pelo que acha ser o certo. Características que, muitas vezes, muitos pais lutam tanto para que seus filhos desenvolvam para que possam superar os desafios que o mundo um dia irá lhes apresentar.

Depois de muito, muito, muito analisar, pensar, questionar e filosofar sobre esse assunto – filho idealizado x filho real, tirei disso tudo alguns aprendizados:

Não adianta idealizar que dificilmente eles sairão do jeitinho que a gente sonhou. Eles tem personalidades próprias e únicas. E, muitas vezes, elas podem nos surpreender.

Podemos escolher ver os defeitos ou as virtudes. Inclusive, defeitos, dependendo de como forem vistos, podem ser virtudes maravilhosas (teimosia nem sempre é ruim, por exemplo).

Não cabe a nós querer moldarmos nossos filhos. Cabe a nós percebermos o que eles tem de melhor e ajudarmos a desenvolver essas características até elas atingirem todo seu potencial. E, é claro, corrigir aqueles pontos que sempre podem ser melhorados (acho melhor falar dessa forma do que simplesmente dizer “corrigir defeitos”. Parece coisa de máquina. Parece muito simplista para o que realmente é).

A partir do momento que passarmos a vermos uma característica não tão positiva de forma positiva (em vez de um filho medroso, você tem um filho prudente; em vez de um filho teimoso, você tem um filho decidido; em vez de um filho mexerico, você tem um filho curioso, e por aí vai) estaremos ajudando nossos filhos a desenvolverem a sua auto-confiança. Estaremos mostrando para eles que ele são especiais e que nós os amamos exatamente do jeito que são.

Se praticarmos desde cedo esse exercício, de olhar para nossos filhos do jeitinho que eles são e vermos neles tudo de bom, de maravilhoso e de encantador que eles tem, com certeza, estaremos nos preparando para aceitar e respeitar o adulto que eles se tornarão (e teremos muito menos pais querendo decidir o que seus filhos farão da vida acreditando que sabem o que é melhor para eles).

Enfim, talvez eu tenha filosofado demais nesse post, mas gosto muito de refletir sobre esse assunto. Sobre a importância de nós mudarmos a nossa visão sobre nossos filhos, de forma criticarmos menos e incentivarmos mais.

Importante: É claro que a intenção desse post também não é vender a idéia de que nossos filhos são perfeitos e de que até os defeitos, vistos sob outro ponto de vista são virtudes. Não é isso. Até porque isso seria, na verdade, extremamente nocivo para eles, pois criaríamos filhos egocêntricos e narcisistas. A intenção é mostrar para nós, que muitas vezes temos a tendência de criticar e reclamar de como nossos filhos se comportam e agem, que se olharmos com outros olhos um defeito pode ser uma virtude. Mas….. sem esquecer que características de personalidade não desejáveis (ou defeitos, se você preferir), devem ser sim corrigidas, e cabe a nós, pais, fazermos isso, pois isso é educação.

Bom, espero que eu não tenha viajado demais e que tenha conseguido me fazer entender. :-) E da próxima vez que você for reclamar de algum “defeito” do seu filho, tente olhar com outros olhos e encontrar naquele comportamento uma virtude a ser incentivada. Quando incentivamos as coisas boas, minimizamos os efeitos das coisas ruins (crianças adooooram um incentivo. Lembrem-se disso!).

13 comentários

  1. Tamy

    Adorei seu post. Tb tenho uma filha que foge das definições desejadas “boazinha, quietinha, simpática”, mas eu mesma não posso cobrar isso dela, afinal eu tb não sou assim por natureza. O que eu aprendi foi que a famosa frase dos outros “nossa, ela é tão boazinha… que bom, né?” não pode ser levada a sério, pois me seguro pra responder “na verdade, não… e isso é ruim?”. Isso me incomodava muito no começo, principalmente por ela já entrar numa classificação que eu mesma tento não fazer. Poxa, ela está descobrindo quem ela é, assim como nós também estamos. Morro de medo de tachá-la de alguma coisa e ela se forçar (ou ainda, a evitar) ser aquilo por mim, influenciando na personalidade dela.
    Achei as suas dicas ótimas e temos mesmo que ver as qualidades ao invés dos defeitos. Tinha uma amiga que se orgulhava de ter um filho “muito bonzinho”, mas que no final, ficava angustiada, tentando fazer com que ele reagisse às provocações de amiguinhos para não ser “tonto” demais. =(
    Cabe a nós blindá-las dessas classifições e não colocar uma etiqueta na testa delas antes mesmo das pessoas a conhecerem. Isso vale pra vida, lógico, mas nós somos os maiores responsáveis pelos nossos filhos.

  2. Bárbara

    Simplesmente lindo! Passo pela mesma situação com meu filho, ele não é “bonzinho, comportadinho, fica sempre quietinho”… Ele é um de um espírito questionador, ativo, que sabe o que quer e não aceita tudo muito fácil, ele costuma liderar e interagir muito fácil e principalmente na escola acaba não sendo o aluno modelo (no que diz respeito ao comportamento “padrão”, meu filho não é padrão!). Seu post traz uma luz, pois muitas vezes pensamos estar sozinhas e desamparadas frente a diversas situações e encontrar pessoas que nos transmitem uma mensagem tão profunda e necessária como essa realmente faz muita diferença. Meus parabéns, pelo texto, e muito obrigada por compartilhar com nós outras mães, perfeito!

    1. Shirley Hilgert

      Bárbara, eu também não fui uma criança boazinha nem uma aluna comportada. No quesito notas, era ótima aluna, mas no comportamento, cruzes! Eu causava. Mas conforme fui crescendo, fui aprendendo a controlar o meu lado impulsivo (mais ou menos, kkk!) e focar aquela energia toda em coisas positivas. Vejo muito da minha personalidade no Leo e acho que por isso consigo entendê-lo em muitos aspectos. Bjs e aproveite tudo de bom que seu filho tem. :-)

      1. Barbara

        Sim Shirley, aproveitarei com toda certeza, e aos poucos estou aprendendo a lidar com essa personalidade forte e toda energia que o meu pequeno tem. O bom de tudo é que tenho crescido muito e aprendido bastante com ele, vivenciar isso e aprender a respeitar e sorver cada detalhe da personalidade dele tem feito de mim um ser humano melhor. Ele tem notas excelentes, uma aprendizagem muito desenvolvida já que pega tudo muito fácil, mas falou de comportamento ele é um espoletinha mesmo kkkkkkkk mas fico feliz que ele seja assim, eu era muito boba quando criança e vejo que muitas coisas que pra mim foram difíceis, ele vai tirar de letra(algumas já tira) e é ótimo poder acompanhar isso de perto… Enfim, tudo de bom pra vcs hoje sempre, e mais uma vez, lindo texto!

    2. Elyana

      Barbara, adorei seu comentário, meu filho tbm não é dos mais comportados na escola, e isso foi alvo de reclamações Pq ele tumultuava a sala, fiquei muito chateada, mas com esses texto e vendo os comentários vi que a sociedade quer crianças robotizadas, que fiquem quietinhas, comanda tudo sem derramar, que não suba, não pule, não questione! Temos mesmo que olhar nossos filhos com outros olhos vendo coisas positivas ao invés de só criticar, senão serão adultos sem confiança em si mesmos! Shirley obrigada pelo texto riquíssimo de informações que realmente passamos no dia a dia e às vezes achamos que só acontece conosco!

      1. Barbara

        Elyana, já passei por diversas reclamações na escola, bilhetes da professora e pensava estar “sozinha”, enfim… Já chorei, mas já sorri muito, principalmente quando passei a enxergar as qualidades do Ádrian, embora eu continue o aconselhando sobre como ele consegue se comportar melhor, afirmando pra ele que eu acredito na capacidade dele (reforço positivo) afinal, em sociedade temos regras a seguir, mas tudo se tornou menos pesado, menos exaustivo quando passei a ver meu filho como a pessoa maravilhosa que ele é, afinal, ele é mesmo! Olha, não estamos sós, somos muitas, diversas mães caminhando nessa estrada do educar e prover, estamos todas praticamente no mesmo barco e vamos que vamos remando sempre em frente! Grande abraço!

  3. Karen

    Olá Shirley, exatamente isso! Minha filha tem só 2 anos, e tem uma personalidade muito forte, já escolhe suas roupas e sabe muito bem o que quer, claro que dentro de um limite, eu até deixo. Cheguei a uma conclusão que, no futuro, isso vai ser bom para ela, vai saber externar melhor a opinião dela e não vai engolir muitos sapos. Ao contrário do meu enteado, que é um amor, super bonzinho, mas muitas vezes deixa os desejos dele de lado, só para agradar os outros. Ele é o ideal de criança, mas o futuro dele me preocupa mais!

  4. Cíntia Martins

    Amei esse post! Me identifiquei muito.
    Meu filho não faz muito a linha bonzinho. Mesmo! Gabriel não é um docinho. Ele tem temperamento forte, tem opinião, questiona, quer saber a razão das coisas e me dá um trabalhão com seus questionamentos… Ele tem 4 anos. Um dia chegamos a conclusão de q isso não era de todo ruim, mas q ele não seria um menino facilmente influenciado pelas pessoas… Então, ainda q tenhamos bastante trabalho na educação dele, temos aprendido q essa personalidade dele tem sim um lado bem positivo…
    Por outro lado, assim como vc, nos surpreendemos com características que nunca havíamos idealizado, e q o tornam essa criança tão única e especial q ele é!!
    Obrigada por essa postagem. As vezes me sinto sozinha, especialmente diante de críticas, e daqueles q pensam que qdo ele resiste a alguma coisa é pq nós falhamos na educação, ou pq somos “moles demais”, etc… Aliás, sempre tem alguém com uma receita de bolo q, se a gente seguisse, com certeza daria certo… Oh céus…
    Um Bj.

    1. Macetes de Mãe

      Olá, Cíntia!
      Que bom que gostou :)
      Não está sozinha, estamos juntas!
      Bjss

  5. Patricia

    Shyrlei você não imagina como me fez bem ler esse post. Tenho uma filha com 2 anos e meio e estou vivendo bem isso. Mas eu também sempre fui muito decidida e dona de mim e isso idade adulta foi muito bom.
    Eu agradeço por escrever tão bem e ser tão sensível… Me ajudou muito ler isso. Agora vouma começar a ver as coisas e situações com minha filha de forma diferente, assim como você fez com o Leo. .. creiolanda também que será um eterno exercício de paciência. ..graças à Deus….
    Um bj carinhoso.

  6. Mariane

    Adorei! Tu és ótima!!! Obrigada!

  7. Catarina Rocha

    Como lidar com um bebê de 15 meses violento?
    Se Henrique for contrariado me dá uma bofetada. Se estiver no chão morde minhas pernas.
    Esses episódios são geralmente se ele estiver com fome ou sono, não sei mais o que fazer para melhorar esse mau humor.

  8. Fernanda de padua

    Adorei o texto. Mais eu, ao contrario de vocês, me sinto muito incomodada com toda essa ¨espontaneidade¨ da minha filha de apenas 4 anos e 5 meses. Realmente gostaria que ela fosse de outro jeito. Ainda não consigo enxergar esse defeitos como virtudes e sofro muito, muito mesmo com essa diferença. Me sinto uma péssima mãe por isso. Não sei onde estou errando..

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