A culpa é da mãe

A culpa é da mãe. A culpa é sempre da mãe. A mulher não engravida, a culpa é dela. Nem por um minuto as pessoas cogitam que o problema pode estar no pai, que ele pode ser estéril ou ter dificuldade para engravidar a sua parceira.

Ou então, a mulher tem uma gravidez não planejada (e de certa forma indesejada) a culpa é de quem mesmo? Claro, óbvio, com toda a certeza, da mãe. Que não soube se cuidar, que não soube dizer não, que quis dar o golpe ou foi uma irresponsável.

E depois que a criança nasce? Ah! Segue a mesma história. Depois que a criança nasce, se a mãe não consegue amamentar, tem baby blues, depressão pós-parto ou passa por tantas outras dificuldades que são tão comuns após a chegada e um bebê a culpa é dela. Ela que não se preparou suficientemente para amamentar seu filho, ela que não tem leite, ela que tem preguiça de amamentar, ela que não sabe lidar com as dificuldades da chegada de um recém nascido, ela que é descompensada e está deprimida quando deveria estar eufórica de felicidade.

culpa e da mae

Photo Credit: esintu via Compfight cc

Até na questão da maldita cólica a culpa é da mãe: “Ah, seu bebê tem cólica porque você é nervosa! Tente se acalmar que tudo vai se resolver”. Como se fosse simples assim. E se o bebê não dorme? A culpa é da mãe também. Foi ela que não soube “ensinar” a criança a dormir, ela que criou maus hábitos, ela que está fazendo errado.

Filho que faz birra? Ah! A culpa só pode ser da mãe. Ela não impôs limites, ela não sabe controlar, ela não sabe educar. Aquela cena típica: criança se jogando no chão do shopping (ou mercado, loja, parque, o que quer que seja), pais envergonhados tentando contornar a situação. Quem está de platéia e observa tudo pensa logo de cara no quê? Na mãe que não sabe controlar a cria. O pai, que até está ali do lado, dificilmente é culpado pelos atos do filho.

Filho passa 10 horas numa escolinha? Culpa da mãe. Que só pensa em trabalhar para sustentar seus luxos e deixa o pobre coitadinho lá largado por um dia inteiro. “Por que essa mãe não pensou duas vezes antes de ter filho?” é o que muita gente pensa.

Filho sofre um acidente. Uma daquelas coisas que ninguém sonha que possa acontecer, mas que, infelizmente, acontecem. Qual a primeira pergunta que vem na mente da geral? “Cadê a mãe dessa criança? Onde estava a mãe dessa criança quando isso aconteceu?”. Pelo pai ninguém pergunta.

Filho faz algo errado. Daquelas coisas feias mesmo, que nem por um decreto a gente quer que nossos filhos façam. Que só de pensar neles fazendo corre um arrepio na espinha. Culpa de quem? Da mãe, é claro.

Dificilmente vejo alguém colocando a responsabilidade sobre o pai, perguntando: “Cadê o pai dessa criança?”, culpabilizando qualquer outro ser humano que não seja a pobre coitada da mãe.

Quero dizer que a mãe não tem responsabilidade sobre seus filhos? Óbvio que não! A mãe tem tanta responsabilidade quanto tem o pai. Ou pelo menos deveria ter. O problema é que nem ninguém encara dessa forma. Deu errado? Culpa da mãe!

Cada vez mais tenho me incomodado com essa eterna culpabilização materna. E como se a gente tivesse que viver eternamente se defendendo, desviando dos olhares críticos, dando explicações para o mundo. “Olha, juro que eu ensino, explico, converso, dou limites. Juro que sou uma mãe presente, amorosa, dedicada. Simplesmente não sei por que o meu filho age assim. Me desculpe!”.

Pra começar, acho que podemos mudar a expressão que é empregada. Em vez de falar em culpa, por que não falar em responsabilidade? Quase tudo (e digo “quase” porque não gosto de generalizar) que diz respeito a filhos, crianças, é responsabilidade 50% do pai e 50% da mãe. Até a tão comentada e cobrada amamentação, se não tiver um bom apoio do pai não vai acontecer de uma forma bacana (e não sou eu que estou dizendo isso. Pesquisas comprovam que o envolvimento dos homens no aleitamento materno aumenta as chances de prolongar a amamentação).

Então, hoje, aqui, deixo o meu apelo: quando você se deparar com qualquer situação não tão legal envolvendo filhos, por favor, não culpe de cara a mãe por isso. Pense sempre em “responsabilidade” em vez de “culpa” e pense que uma criança não é gerada sozinha e não devia ser criada sozinha. Na sua educação, proteção, amparo, cuidado deveriam estar envolvidas duas pessoas – o pai e a mãe (ou qualquer outras pessoas que estejam presentes no caso de faltar a figura do “pai”).

Que esse texto meio desabafo sirva para refletirmos sobre o assunto, que muitas vezes nos passa despercebido de tanto que já estamos acostumadas com essa situação injusta. E que ele sirva também para tirarmos de sobre os nossos ombros o peso da culpa que nós mesmas nos impomos.

Não somos culpadas de nada. Somo co-responsáveis, e isso é bem diferente.

18 comentários

  1. Marilia

    Oi Shirley!!!
    Adoro seu blog, mas é a primeira vez que comento! Adorei este texto! E sinto o efeito disso no meu dia-a-dia com minha filha… “A mãe que não percebeu antes que a criança não estava boa (mãe de primeira viagem, bebê com menos de 2 meses, e como eu ia perceber?)… A mãe que deixa a filha dormir com ela na cama e agora com 2 anos não dorme sozinha por nada (mas quem tinha que levantar de madrugada pra olhar se ela estava coberta – e não até a cabeça -, levantar no frio para trocar e amamentar?)…” E por aí vai…
    Mas o cúmulo que ouvi, aconteceu com uma amiga… o marido levou as filhas no pediatra, no P.A., e a primeira pergunta foi: “Mas cadê a mãe dessas crianças?”. Oras, a mãe estava trabalhando, o pai estava em casa e levou as meninas… Qual o problema nisso? A mãe é menos mãe porque uma vez na vida não pode acompanhar as filhas no médico?
    É por isso que eu me sacrifico e sempre levo minha filha aos médicos quando precisa… porque estou tão cansada de ser julgada (e olha que minha filha só tem 2 anos), que espero não ser julgada pelos médicos também!!!

    **Só um desabafo…

    E obrigada por compartilhar suas experiências! Leio seu blog desde que descobri minhas gravidez, e adoro o que você posta!

    Beijos!!!

    1. Macetes de Mãe

      Olá, Marilia!
      Muito obrigada pelo carinho!
      Como mãe entendo muito bem seu desabafo. Estamos juntas 💗
      Continue acompanhando e comentando.
      Bjss

  2. Camila

    Nossa como me identifiquei, tenho gente perto de mim que tem esse pensamento mesmo sem falar nada, só com o olhar já percebo que está me crucificando e quando a criança faz algo dê certo aí solta fácil, “que linda, aprendeu com o papai ou puxou o papai”, quero morrer com isso

  3. Sthefaninie

    Simplesmente perfeito!!!!!

  4. Priscilla

    Amei seu texto! 💗

    1. Macetes de Mãe

      Obrigada, Priscilla!💗

  5. Tamy

    Oi Shirley! Eu acho engraçado que seu texto veio a calhar… eu estava comentando com dois colegas (homens) sobre a licença paternidade estendida que o Twitter teve a iniciativa de dar – 20 semanas! E comentei que achei super bacana, tal… quando um deles me responde “Nossa, que legal… mas se eu quiser passar para a mãe eu posso?” e eu com cara de ué: “mas… pq vc faria isso?” e ele “ah, pq é melhor o bb passar mais tempo com a mãe, né? Eu prefiro. E com 4 semanas o bb nem ta interagindo ainda… mas eu gostei da ideia, hein? Eu ia querer passar 4 meses em casa!!!” tipo… aprendizados com o comentário: a. o pai em questão não quer passar mais tempo com o bb pq a responsabilidade é da mãe b. ele só vai querer passar tempo com o bb qdo ele estiver interagindo c. ele não se vê responsável pela criação do bb d. ele acha que os 4 meses são pra ele, não pro bb, não pra família – é pra ele ficar vendo tv em casa!!!!!!!!!!!!!! Fiquei revoltada!!!

  6. Excelente reflexão! Já vai para a minha listinha de melhores links da semana.
    Aqui em casa a gente brinca com isso. Quando percebemos que alguém está insinuando algo nesse sentido, meu marido solta: “Tem que cortar a unha desse menino!” e eu complemento: “Cadê a mãe dessa criança??” Às vezes a pessoa demora um pouco para entender a brincadeira, mas serve de deixa para esclarecer que a responsabilidade é de ambos os cuidadores” ;)

  7. Angela Smanioto

    Pior que isso… só dois disso … felizmente pelo menos aqui temos mamães que entendem de verdade tudinho sobre estas e outras situações

  8. Débora

    Nossa… Texto perfeito! Acho que todas nós passamos por isso. E nisso tudo, o que me deixa mais chateada, é que os piores comentários muitas vezes partem de outras mães. É algo que não consigo entender…
    Tenho um filho de dois anos e deixei de pedir ajuda ou conselho de parentes e amigas, exatamente por causa desses julgamentos.
    A rotina de uma mãe já é muito difícil e ainda ter que aguentar isso? Ah… Não dá!

  9. Paula

    Ontem meu filho não queria dormir com o pai…uma birra, um chorôrô em casa…culpa de quem ? minha, que sempre vou para cama com ele, que não ensinei que ele precisa dormir sozinho (meu gatinho tem 3 anos e meio), que não fiz isso ou aquilo outro…ora, ele quase não coloca o bebê para dormir, todas as noites tem aula de inglês, jiu jitsu, etc, etc…e de uma hora para outra quer que o menino vá para cama com ele, a culpa é minha ?

  10. Fátima

    Concordo que houve um tempo que foi assim. Porque as Mulhres, ao optarem pela maternidade, não estavam bem preparadas e os HOMENS, ao optarem pela paternidade, nem tinham consciência deste pap de pai. Mas, hoje, penso eu, muito se evolui e, tanto mães, como país, já se percebem em um novo contexto familiar e social. Mas, tem que haver uma combnação e planejamento, o de ambos queiram ter um filho, naquele momento e se preparem para…
    Sem culpas.

  11. Heloize

    Tenho dois filhos, um casal de 8 e 7 anos. Minha sogra mora comigo a quase 9 anos, por conta de problemas financeiros e por problemas familiares com o outro filho dela. Desde então, ela assumiu coisas em minha casa por sua livre e espontânea vontade, que na cabeça dela eu não faço por desleixo.Oq não é verdade, simplesmente deixei de fazer, pq oq fazia para ela nunca estava bom, então se vc faz melhorm faça vc. O tempo foi passando e ela foi cada vez mais tomando espaço em minha casa, com isso o laço entre ela e meus filhos é imenso. Eu não tenho ciúmes, mas me sinto frustrada. Fora as cobranças internas, cobranças do meu esposo por “abandonar” a casa e os filhos nas mãos dela. Enfim, eu tentei resolver um problema que não era meu, e hoje vivo uma situação que saiu de controle e está toda cagada e a CULPA É TODA MINHA!!!

  12. Elayne

    Li, reli, e resolvi colocar o que penso.
    Fui mãe aos 17 anos, quando digo que foi escolha minha e do pai as pessoas se assustam, normalmente isso acontece por acidente, no meu caso não foi.
    Óbvio que um relacionamento de dois adolescentes não ia muito longe. E quando percebi que estávamos nos machucando, me separei, escolhi isso e nesse momento trouxe para mim a responsabilidade de ser mãe 1000% do meu tempo. A separação trouxe conflitos e não foi fácil lidar com isso e com os olhares “juízes” e pior ainda, os comentários de que o melhor para minha filha, seria ficar com o pai (que tinha uma condição mais favorável e uma família nada estável, exatamente como a minha, ou seja a única diferença seria uma casa e um salário melhor), mas feito uma leoa, defendi minha fria. Trabalhei feito condenada, voltei a estudar, conheci outra pessoa que foi fundamental para o meu crescimento e no auxílio com minha filha, foi a figura masculina na vida dela, mas toda a parte da educação, não tive coragem pra dividir, eu era o pulso forte, a mãe que brincava de casinha e carregava no colo, nas reuniões, médicos, festinhas. Sempre fui eu, e me acostumei com isso.
    Se fiz errado??
    Não sei.
    Mas uma coisa eu nunca deixei que me afetasse, os julgamentos alheios, não mesmo!
    Se tivesse levado em conta isso, teria deixado minha filha com o pai e os avós.
    Mas uma coisa que está no texto e que sempre digo para minha filha (hoje com 22 anos), é que; ela é a responsável pelo corpo dela, portanto se não tiver 100% de certeza que quer ser mãe, cabe a ela evitar, porque uma vez mãe, nossa vida se transforma e vem as cobranças dos outros e as nossas próprias, vem medo de errar, responsabilidade sem fim. E se não der certo o casamento a grande chance é que ela seja a responsável pela criança na maior parte do tempo (o que na minha opinião não é ruim, em um certo tempo da vida dela, ficava lá no pai e na minha casa 50% em cada casa, foi péssimo pra educação dela, duas criações diferentes).
    Com o segundo marido tive um filho (11anos) por diversos motivos tamb não deu certo (um deles é porque eu esperava dele algo que ele não poderia ser, o pai dos sonhos, o pai presente, que divide a criação, ele era apenas o provedor e mais nada), então resolvi separar, e novamente tomei as rédeas da situação, com relação a educar deixo claro minha posição, eu educo!
    E assim viu levando, tenho filhos saudáveis e felizes, com pais felizes e bem resolvidos, cada um respeitando o espaço é a personalidade do outro.
    Minha filha sempre me dá a tranquilidade de ter feito o certo, tornou-se uma pessoa amável, responsável, empática, madura pra idade que tem.
    Então acho que não existe a receita de como acertar, o fato é que nós mães estamos o tempo todo querebdo acertar, nem sempre é possível claro, mas não podemos baixar a cabeça para tentar seguir receita de bolo, o que dá certo pra uma talvez não dê pra outra.
    Não sinto culpa por nada, e vendo os resultados que obtive, faria tudo outra vez.

  13. Ludi

    Descrição quase completa do que penso. Lembrei-me de como os co-responsáveis (no meu caso avós) tb fazem parte de tudo isso e, ainda, esquecem a própria responsabilidade e culpam as mães… Obrigada querida mãe q desabafou poeticamente acerca deste tema!

  14. Patrícia

    E quanto tempo em terapia investimos para nos livrar ou aprender a lidar com essa “culpa” que não é só nossa?!
    E vamos construindo uma nova percepção de que nem sempre também tem a ver com os pais . As crianças agem segundo suas vontades e personalidades e fases de seu crescimento. Quantas vezes nos últimos tempos me peguei me culpando e me desculpando na escola do meu filho por coisas inadequadas que ele escolheu fazer . Experiências que ele se propôs. Ensinamos a assumir as consequências, mas eu sofri como se eu não tivesse ensinado.
    E isso tem a ver com a culpa da mãe que vive em nosso inconsciente coletivo.
    Ótimo texto !
    Amo seu blog!

  15. Cássia Ceole

    Meu marido passa bem mais tempo com o nosso bebê (Miguel, 1 ano e 4 meses) que eu. Infelizmente dependo de ônibus, trabalho em outra cidade, e é o pai quem leva ao médico, à escola, etc. Sempre ouve esses comentários: “cadê a mãe? Ele fica bem sem a mãe?” E aí ele responde: “claro! Eu sou o pai! Porque ele não ficaria bem estando comigo?” Meu marido já teve essa ideia, de que seria efetivamente pai, qdo brincasse de super herói com a criança. Isso é absolutamente normal! Já percebi que cabe a nós, mulheres e mães, abrirmos a visão deles, educarmos o filho e o marido sobre a responsabilidade deles. Pq as vezes nem é por maldade que eles deixam tudo para a mãe. É pq a maioria dos homens (e tbm das mulheres) cresceu aprendendo que a mulher tem que dar conta de tudo e se acomodaram.

  16. Carla

    Concordo plenamente, minha mãe usa 99,9% dessas frases, se o Davi cai, a culpa é minha porque não estava de olho, ficou doente , a culpa é minha porque deixei ele brincar na chuva/comer aquele salgadinho a mais ou seja la o que for, estou igual ao chaves ” é tudo eu “.
    Sou mãe, concurseira, dona de casa, esposa, e ainda trabalho fora, ou seja, quase os 12 trabalhos de Hercules, e ainda tem que ser tudo culpa minha ¬¬.

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