Os piores segundos da minha vida – um relato sobre o acidente do Caê na piscina

No carnaval fomos para a praia. Casa de um amigo. Dias incríveis, maravilhosos, perfeitos. Entretanto, no penúltimo dia, tomei o maior susto da minha vida. Sem sombra de dúvidas.

Naquele dia, como fazíamos diariamente, voltamos da praia por volta de 13h e fomos para a piscina da casa. Normalmente, comíamos alguns petiscos por ali mesmo, antes de almoçar, só para saciar a fome. E as crianças nos acompanhavam. Mas, nesse dia, Caê não quis comer os petiscos e, como estava com fome, e chatinho querendo comer, eu resolvi sair da piscina e dar o almoço para ele antes.

Saímos, sequei o Caê, fomos até a mesa onde normalmente dávamos as refeições para as crianças e eu tirei a bóia de braço dele, para ele comer mais confortavelmente. Caê comeu 3 ou 4 colheradas e não quis mais. Aí, tive a (irresponsável) ideia de levar o Caê para perto da piscina, onde estava todo mundo, para ver se, por lá, ele se entretinha com o ambiente e as pessoas e resolvia comer.

Nessa hora, por um lapso da minha consciência, mas também por acreditar que eu estaria sentada do lado dele, vendo qualquer movimento dele, resolvi não colocar a boia de volta nele. Afinal, a gente não iria entrar na água, eu iria dar o almoço do Caê do lado de fora e, assim, não teria perigo.

Sentei na beira da piscina numa parte que ela é bem, mas bem rasa (coisa de 20cm). É uma parte grande, meio que um “espelho d`água”, para a gente deitar e tomar sol. Sentei ali, Caê do meu lado, e voltei a dar o almoço dele. Assim que eu coloquei uma colherada de comida na boca dele, Leo se aproximou e pediu também para comer. Acabei dando uma colherada para ele também e, na hora, ele se virou bruscamente e jogou água no prato. Eu, tirei os olhos do Caê nesses ínfimo instante, momento que dei a colherada de comida para o Leo e reclamei com ele por ter jogado água dentro do prato. Quando voltei meus olhos para o lado de novo, para dar a outra colherada para o Caê, cadê ele?

Na hora, já senti uma tensão no corpo. Olhei em volta, dentro da piscina, onde estava todo mundo (havia 9 adultos ali) e não o vi. Na hora, perguntei alto: “Pessoal, cadê o Caê?”. Todo mundo olhou em volta e se fez aquele silêncio. Em seguida, olhei direto para frente, bem no lugar onde acabava o tal “espelho d’àgua”que já era uma parte mais funda (em torno de 1,5m, a piscina não tinha mais do que isso de profundidade em toda sua extensão) e vi o bonezinho do Caê boiando.

Gente do céu! Jamais imaginei que tanta coisa poderia passar na cabeça de uma pessoa num intervalo de milésimo de segundo. Nessa hora, imediatamente gritei, desesperada, e um amigo que estava do lado do Caê (mas também não o viu cair na parte funda da piscina) simplesmente esticou o braço e o levantou. Meu marido chegou no mesmo instante (ele estava poucos metros mais longe) e tirou o Caê da água. No exato momento que ele saiu da água, sua cabeça pendia para trás e ele não chorou, não gritou.

Do momento que eu visualizei o boné do Caê na água, boiando até o momento que ele foi tirado da água e emitiu o seu primeiro grito de choro, não se passaram mais de três segundos. Seguramente não. Mas nesse breve instante uma história, horrível, dolorida, apavorante, desesperadora passou na minha cabeça.

Vi o boné do Caê e me perguntei: “Há quanto tempo ele está submerso? Quantos minutos se passaram? Como não vimos ele entrar na água e cair? O que eu fiz?”. O que me apavorava era que eu não sabia o que havia se passado. Eu não tinha a mínima idéia do tempo que havia se passado. Eu havia tomado um choque tão grande, que os poucos segundos da hora que tirei a colher da boca do Caê até a hora que eu vi seu boné boiando para mim não pareciam mais segundos. Na verdade, eu não sabia mais quanto tempo tinha se passado. Nesse momento, imaginei que tivesse passado algo como 2 ou 3 minutos (e não segundos) e que meu filho havia caído na água, ninguém tinha visto e ele tinha morrido afogado.

Sabe aquela história que a gente, ouve, lê, escuta e arrebenta os nossos corações. Que a gente diz: “Nossa, não consigo nem me colocar no lugar dessa mãe. Não consigo nem imaginar! Dor igual a essa não deve haver.”. Pois bem, nessa hora eu pensei: “Essa história que a gente acha que só acontece com os outros, aconteceu comigo. Eu perdi meu filho.”.

Mas aí, como eu disse, meu marido tirou o Caê da água, com sua cabecinha pendendo para trás. A cena mais horrível que eu já vi na vida. E logo depois ele deu um grande grito e começou a chorar desesperadamente.

LEIA TAMBÉM: Cuidados para evitar afogamento.

Quando ele começou a chorar, eu, que estava de pé para ir ao encontro dele, voltei pro chão. Perdi as forças nas minhas pernas, sentei na borda piscina, baixei a cabeça, cobri os olhos e chorei. Eu sequer consegui levantar para ir até eles. Claro que isso também não durou muito, foi algo de 5 ou 10 segundos, mas para mim parecia outra eternidade.

Assim que consegui me levantar de novo fui até o Otávio e o Caê. Caê chorava muito, mas isso me tranquilizou. Ele não havia perdido os sentidos, não estava vomitando água. Ele estava vivo!!!

Aguardamos ele se acalmar e o levamos até o posto médico do condomínio. Eu ainda me recuperando do choque. Chegando lá, ele foi examinado e o médico nos tranquilizou dizendo que não havia acontecido nada sério. Que ele não tinha engolido e nem aspirado água e que devia ter ficado na água por pouquíssimos segundos (os tais 2, 3 ou 4 que agora, passado o susto, eu me recordo melhor e que devem realmente ter acontecido).

O médico pediu para observarmos as reações deles nas próximas 24h, mas nos liberou sem nenhuma orientação importante.

Meu filho havia nascido de novo. Para mim sim!

Depois, mais tarde, conversando com o Otávio e com as demais pessoas que estavam em volta tentamos reconstituir a cena. Otávio me disse que, na hora que tirou o Caê da água ele estava realmente com a cabecinha pendendo para trás, mas isso porque ele estava com o rosto para fora da água, tentando pegar ar e não afundar. Meu pequeno teve sorte. Ele subiu ao cair na água e conseguiu se manter em cima, sem afundar, e pegar ar. Meu pequeno teve sorte porque a gente estava junto. Mas meu pequeno sofreu um acidente que podia ter sido muito sério, podia ter sido fatal, e todo mundo estava em volta e ninguém viu o exato momento que aconteceu.

LEIA TAMBÉM: Modelos de bóias para bebês e crianças.

Ou seja, sabe aquelas frases que a gente está cansada de escutar? “É um segundo e as coisas acontecem”, “Criança cega a gente”. Pois bem, elas são verdade. Eu sei porque eu senti isso na pele da pior forma possível.

Todos os dias eu agradeço por ter o meu filho comigo. Vivo. Bem. Mas todos os dias eu também lembro da minha parcela de culpa nesse acidente e me culpo. Eu fui com ele para a beira da piscina e eu não coloquei as bóias de volta. Eu acreditei que, por estar ao lado, eu estaria de olho e nada iria acontecer. Mas é num piscar de olhos, num virar de cabeça, numa atenção que a gente dá para o filho mais velho, para uma outra pessoa que está por perto, que a gente pode sofrer a maior perda de nossas vidas.

Por isso, me senti na obrigação de fazer esse post, como forma de alerta para todo mundo que tem crianças.

O que eu quero dizer é: Não menospreze os perigos. Esteja sempre alerta. Não confie que você está por perto, ou outro adulto está e que, por isso, nada irá acontecer. Basta um segundo, basta um olhar para o lado, basta um descuido para uma tragédia acontecer.

Em se tratando de crianças, devemos estar sempre alertas. Em se tratando de piscina, mar, lago ou qualquer outro lugar que tenha água, a atenção deve ser redobrada e temos que lançar mão de todos os artifícios possíveis para garantirmos a segurança das nossas crianças.

E assim, se você é uma daquelas mães vistas como loucas, neuróticas, desesperadas, que só pensam em desgraça e não relaxam, não curtem, aproveite e mostre ou conte essa história para quem te enxerga dessa forma.

Eu também era (e ainda sou) essa mãe louca, neurótica, desesperada e até alarmista, mas foi num segundo que eu relaxei que eu podia ter perdido o meu filho. E aí, eu não posso nem imaginar o que teria sido de mim e da minha família.

Confira também o relato do acidente que tivemos com o Leo (ele USANDO BOIA. Ou seja, não dá para relaxar nunca!).

Foto que eu postei à noite, no dia do acidente. Me sentindo agradecida por estar com meu filho e ele estar bem.

 

 

 

20 comentários

  1. Mônica

    Passei por uma experiência bem parecida, onde segundos foram transformados em horas. Depois desse episódio coloquei meu filho na natação e felizmente, hoje, ele é um peixinho. Mas foram os piores segundos da minha vida!

  2. Mari

    Nossa ainda bem que não passou de um susto.. Poderia ter sido trágico.. Graças a Deus não passou de uma experiência ruim… É um minuto de bobeira.. Até menos para que algo pior aconteça.. Tb faço parte do grupo de mães neuróticas mas ser assim mesmo.. Afinal tofo cuidado é pouco.. Bjs

  3. Izis

    Nossa Shirley, chorei copiosamente com seu relato,e pensar que pode acontecer com qualquer um de nós. Graças a Deus foi um susto e uma alerta!!

  4. Tathiana

    Shirley, chorei e senti sua dor… que tristeza, que desespero…. eu sou a louca da boia, até pq meu filho é arrojado, e se joga mesmo…. eles fazem as coisas num piscar de olhos… que alegria que tudo ficou bem. Um beijo grande :)

  5. Patty

    Me deu um calafrio de me imaginar nesta situação…e como mãe neurotica ..tb sei como se sente!

  6. Jaqueline Nunes

    Eu passei um susto assim tb…
    Não desejo a ninguém…
    Graças a Deus minha princesinha nasceu de novo e esse ano completa 15 anos!
    Renata Vitória um verdadeiro milagre!!!

  7. Rose

    Nossa que desespero! Graças a Deus deu td certo. Bjos

  8. Quézia

    Nossa! Que sufoco, meu Deus! Não consigo nem imaginar o que você passou. Mas fiquei feliz e aliviada com o desfecho da história. :)
    Muito obrigada por compartilhar com a gente. Imagino que não tenha sido fácil relembrar e escrever tudo o que você viveu, mas com certeza vai fazer com que as neuróticas (como eu, rsrs) fiquem mais ligadas ainda. ;)

  9. Patrícia

    Que horror! Que angustia. Já perdi um filho (não afogado) e sei o quanto dói. Senti daqui seu desespero. Graças a Deus nada mais sério aconteceu. Deus proteja sua família, Shirley!

    1. Sonia

      Obrigada por dividir com a gente este acontecimento. Que nos possamos ser estas mas neuróticas, alarmistas e etc pra garantir a vida dos nossos filhos. E isto mesmo, basta um segundo pra uma tragédia acontecer. O meu marido e muito relax e eu sou a louca do pedaço. Ele confia muito nos skills do meu filho. O meu filho esta aprendendo a nadar e o meu marido assume que ele se defendera bem caso caia e va pro fundo da piscina. Ele e um louco pra correr o risco, eu não.

  10. Kariny

    Passei pela mesma situação a 1 ano atrás. É desesperador, não gosto de lembrar desse fato. E realmente achamos que nunca vai acontecer com a gente. Hoje agradeço pela vida dele. Pra mim ele tem duas datas para comemorar a vida, aniversário.

  11. Cassiana

    Coloque-o na natação urgente. Só assim terá sossego. Se ele soubesse nadar sairia dessa sem susto.

  12. Alessandra

    Passei o mesmo q vc com minha filha, sim, são segundos q vc acha q são muitos minutos e q vc se culpa por anos…

  13. Sah

    Shi, ja perdi meu filho no mercado em dia de Natal. A sensação de piscar e eles não estarem mais, nos tira o chão. Sai corendo feito louca entre os corredores, gritando o nome dele e desmoronei qd narraram p busca-lo no atendimento ao cliente.
    Nunca suei tao frio!
    E qt a ser mae neurótica, mt melhor do q n estar nem aí… aqui sou sindica do condominio e ja aconteceu de um morador qquer tirar criança de 3 anos da piscina grande enqt os pais bebiam e churrascavam. Nem viram e qd foram avisados, acharam a coisa mais normal do mundo. Continuemos neuróticas! Bjss

  14. Débora Humenn

    Shirley me desesperei só de ler, eu desde que me tornei mãe sou assim, louca, neurótica, desesperada, as pessoas falam, mas não me importo, sei que enquanto for assim, as chances de um acidente fatal acontecer são mínimas. Graças a Deus que tudo acabou bem, e Caêzinho não sofreu nenhum dano ou trauma. Bjs

  15. Nossa, Shy! Posts assim são super úteis. Lembro bem que foi por causa do post do acidente do Leo na piscina que eu comprei o colete salva-vidas para o filho. Ah! E recomendo:
    http://somelhora.com.br/2016/02/02/coletes-de-piscina/

  16. Elieth Campos

    Chorei e passei esse momento com você.
    É uma pena que estejamos passando por essa fase a nossa sociedade que você tenha que se explicar tanto por um acidente. E eu sei que mesmo com suas explicações, terão outras mães aqui te condenando. E eu choro de novo ao pensar nisso.
    Que bom que vocês estão bem, obrigada pela coragem de compartilhar esse momento conosco para deixar esse alerta. Beijos

  17. Anna Gabriela

    Aconteceu o mesmo comigona vira do ano Novo
    Fomos para casa do namorado da minha irmã, tinha muita gente na casa, sendo que na cozinha tinha uma porta que dava pra área da piscina. Eu vi o Pedro Henrique saindo pela porta e fui logo atrás, ele foi olhar os fogos e não viu que tinha terminado a área da varanda e caiu na piscina. Logo em seguida eu puxei ele . O maior susto da minha vida, as coisas acontecem em fração de segundos .

  18. Natasha

    Que susto hein! Senti como se fosse comigo a cada palavra que vc descrevia no post..
    Comigo aconteceu parecido, eu estava no cinema com meu filho de 2 anos e 10 meses, uma amiga e seu filho e meu irmão. Quando acabou o filme lembro de pegar no braço dele, puxar ele pro meu lado e dizer q era pra esperar todo mundo sair… logo depois eu me abaixei pra pegar algo embaixo da poltrona, isso foi no máximo 2 segundos que larguei o braço dele, quando virei não o vi! Olhei ao redor, nas escadas da sala, nas fileiras, e nada! Um monte de gente saindo pela porta e eu já saí correndo imaginando que alguém tinha levado ele! Com o coração quase saindo pela boca saí correndo, olhei no corredor que dá acesso às salas e nada. Saí até a parte onde fica alguém recolhendo os ingressos, desesperada, e adivinhe! Ele já estava perto dos guichês que compramos os ingressos, na entrada do cinema! Minhas pernas amoleceram, o coração acelerado, os olhos cheios de lágrimas. Me senti péssima. Claro que alertei ele que ele não podia sair correndo de perto de mim, que alguém podia ter levado ele e nunca mais ele veria a mamãe e o papai, mas depois já no carro chorei muito imaginando que o pior poderia ter acontecido. Não consigo imaginar a dor de ter um filho desaparecido. Que Deus continue protegendo nossas crianças!

  19. Liza

    Nossa que susto! Graças a Deus deu tudo certo. Só de imaginar a situação e a tua aflição já me da um nervoso. Obrigada por compartilhar, Shi. Fica um super alerta para tuas leitoras.

Deixe seu comentário