Conflitos entre adultos e crianças: sobre as polêmicas que viralizaram na internet na última semana

No texto de hoje, a psicóloga e especialista em psicanálise de crianças, Elisa Motta Iungano, fala sobre a polêmica envolvendo conflitos entre adultos e crianças e cujas histórias viralizaram na internet na última semana. Elisa levanta algumas questões sobre esse tipo de situação, tão comum nos dias atuais, e nos faz pensar a respeito. Vale a pena ler. E não esqueça de deixar a sua opinião no final.

conflitos entre adultos e crianças

Photo Credit: Phil Dragash Flickr via Compfight cc

Conflitos entre adultos e crianças: sobre as polêmicas que viralizaram na internet na última semana

Por Elisa Motta Iungano

Na última semana alguns fatos chamaram a atenção da comunidade materna na internet. Foram relatos de cenas que se passaram entre crianças que foram impedidas por um adulto de fazer algo que queriam. Em outro, brincar com um objeto de coleção de uma pessoa a quem estava visitando. Nas duas situações, as mães das crianças manifestaram sua revolta pela atitude do outro adulto, entendida como pouco compreensiva. Consigo ver aqui alguns pontos sobre os quais vale a pena pensar, para entendermos a situação:

Vejo crescer, ultimamente, uma onda de intolerância de muitos adultos com as crianças. Essa intolerância muitas vezes é expressa com irritação ou impaciência com os pequenos, com sua natureza infantil, que é espontânea, alegre, curiosa, inquieta. Em muitas ocasiões chegamos a ver adultos discriminando a entrada e permanência de crianças em ambientes públicos ou privados. É comum vermos adultos falando, em tom pretensamente bem humorado, que não são obrigados a aceitar aquilo que não saiu deles – no caso, as crianças. Em alguns diálogos e discussões na internet percebemos que não se trata somente de uma implicância, mas, de fato, de sentimentos de ódio e pavor em relação às crianças. É importante observar que as crianças não são somente filhos de outras pessoas, não são seus produtos ou objetos. São pessoas, cidadãs como os demais seres humanos de todas as idades, merecedoras do mesmo nível de respeito e consideração.

Os adultos presentes nas situações relatadas, bem como tantos outros que comentaram os fatos depois, condenaram a atitude das mães, considerando-as muito permissivas, incapazes de dar ou sustentar aos filhos os limites necessários. Posicionaram-se junto aos filhos, defendendo seus desejos, em vez de ajuda-los a encarar o limite e a frustração que sentiram. Como mães, muitas vezes enfrentamos situações semelhantes, em que sentimos o coração apertar por uma decepção sofrida pelos filhos. Em alguns casos, é razoável apoiar a criança e até mesmo enfrentar o limite imposto, ensinando-a a buscar o que deseja. Em outros, precisamos perceber que aquele é um desejo que encontra um limite claro, colocado pelo mundo, e que não poderá ser realizado no momento. As crianças, sobretudo as pequenas, se percebem como o centro do mundo e às vezes pode ser muito difícil entenderem por que suas vontades não podem ser satisfeitas.  Nestes casos, é importante explicar para a criança os motivos pelos quais ele não vai poder ter o que quer, ajuda-lo a entender como funcionam as relações e propor alguma outra atividade possível e que possa satisfazê-la.

Por fim, chamou muito a atenção como os adultos, nas situações descritas, tiveram dificuldade de encarar o conflito com maturidade. As crianças estavam sendo apenas crianças, enquanto os adultos não foram capazes de conduzir a situação com respeito e empatia. Com isso, as crianças perderam a chance de aprender sobre formas mais positivas de resolver os conflitos através do diálogo.

Ao perceber que nós, adultos, lidamos bem com as pequenas e grandes impossibilidades da vida, a criança percebe que dará conta de enfrentar os obstáculos que aparecerem. E, da mesma forma, quando são tratados com respeito, seja pela família ou por desconhecidos, aprendem a respeitar, a sentir que tanto elas como os demais são merecedores de consideração.

Leia também o texto sobre limites que Elisa escreveu para o Macetes de Mãe.

Elisa Motta Iungano é psicóloga formada pela PUC-SP, especialista em psicanálise de crianças, com experiência no atendimento a famílias, sobretudo mães e bebês.  Atuou em instituições e hoje atende em consultório particular, além de cuidar dos filhos, duas crianças que a cada dia vem ensinando muito e transformando sua visão de mundo e de infância. É de sua autoria o site www.entrelaces.com.br e a fanpage de mesmo nome.

Curta e compartilhe esse post nas redes sociais:
Pinterest

Deixe seu comentário