Inteligência emocional – porque cuidar dos sentimentos do seu filho pode mudar a vida dele

O texto de hoje, sobre inteligência emocional das crianças, foi escrito pela Elisama Santos, escritora, autora do livro “Tudo eu! Confissões de uma mãe sincera” e consultora em educação não violenta. Elisama é mãe do Miguel e da Helena e encontrou na maternidade o início de uma grande mudança em sua vida (como muitas de nós!).

Confira o que Elisama tem a dizer sobre esse tema tão interessante e ainda pouco tratado e explorado.

Inteligência emocional

Inteligência emocional – Photo Credit: Gwenaël Piaser Flickr via Compfight cc

Inteligência emocional das crianças– porque cuidar dos sentimentos do seu filho pode mudar a vida dele

Por Elisama Santos

Dia desses estava olhando para os meus filhos e pensando em como o mundo mudou desde a minha infância. Os dedinhos são ágeis para mexer no celular. Em poucos segundos ligam, através de uma vídeo chamada, para a tia que mora em outra cidade. Em minha época – sim, chegamos na idade de começar frases com essas palavras – isso seria impensável. O celular não existia, a minha casa era a única a ter um telefone fixo na rua inteira e eu me comunicava com as amigas através de papel de carta. Nessa época em que a informação era tão escassa, nossos pais acreditavam que nos encher de conhecimento nos faria bem sucedidos, inteligentes e capazes. O raciocínio lógico-matemático era o foco para o desenvolvimento da criança. Eles nem imaginavam que em um futuro próximo as informações seriam acessíveis facilmente em sites de pesquisa na internet. Aliás, eles nem imaginavam que um dia a internet existiria.

E o que a inteligência emocional tem a ver com essas mudanças?

Preciso, primeiro, falar um pouco do que é inteligência emocional. É a capacidade de reconhecer e lidar com os próprios sentimentos, e também com os do outro. Parece simples, mas não é. Não para nós, que não tivemos os nossos sentimentos nomeados e acolhidos na infância e temos um vocabulário muito maior para rotular o comportamento do outro que para falar o que sentimos. Bem, mal, feliz, triste. E acaba aí a nossa capacidade de descrever o nosso mundo interno.

Com as imensas mudanças na sociedade, a cada dia fica mais clara a necessidade de nos conhecermos para lidarmos bem com a enxurrada de informação que é derramada em nós diariamente. O seu filho precisa desenvolver habilidades muito maiores que a matemática e a gramática para ser alguém bem sucedido. Capacidades de relacionamento, empatia, automotivação, autodisciplina – não é a toa que carreiras como coaching estão tão em alta -, ferramentas que lhe serão úteis e transformadoras mas que não são ensinadas em casa, ou mencionadas na escola. Muito pelo contrário, os ambientes sociais e os adultos mais próximos cobram da criança atitudes que nem eles mesmos conseguem ter.

Qual a importância dos sentimentos?

Achamos natural explicar para a criança o que é uma cadeira, uma mesa, um sapato. Mas não pensamos em explicar o que é a tristeza, em como lidar com a própria raiva, em como agir diante de uma frustração. Um bebê que chora por fome ou sono tem um motivo para chorar, o que chora por medo, susto, tristeza, carência, este é manhoso. Sensações físicas importam, sentimentos não. Recebemos essa mensagem muito cedo e somos, em regra, completos analfabetos emocionais. A realidade é que a forma como nos sentimos rege todas as nossas interações sociais. A forma como você está se sentindo agora interfere diretamente em como receberá o que estou escrevendo. Ou seja, os sentimentos tem um papel essencial na nossa vida e não olhamos para eles. E se os argumentos de que a vida futura do seu filho pode mudar se ele souber regular as próprias emoções não lhe convencer a cuidar delas, vou falar algo que tem efeito imediato: uma criança que se sente bem, se comporta bem. Simples assim. Uma criança que tem seus sentimentos acolhidos se sente importante dentro da conjuntura familiar, colabora com mais facilidade, sem a necessidade de castigos físicos ou emocionais.

Acolher não é atender.

Entender que o seu filho é um ser humano, que sente, que tem vontades, que tudo bem querer algo, afinal criança tem querer sim, não quer dizer que deve atender todos os seus pedidos. A maior necessidade da criança é ser orientada e cuidada. São recém-chegados nesse mundo e, obviamente, não tem ainda a experiência de vida e maturidade necessárias para determinar o que é melhor para si. São filhotes e precisam de cuidadores que lhe ensinem as regras da vida em sociedade. Educar de maneira não violenta não é evitar o não, e sim apresentar os limites das relações e da vida, mas acolher a frustração que vem diante do que não se pode fazer/ter. É ter autoridade amorosa, não autoritarismo.

Como desenvolver a inteligência emocional na criança?

São muitas as formas de desenvolver na criança a inteligência emocional, mas, sem dúvidas, o passo mais importante é parar de reprimir e negar o que ela sente. Aprender a ter empatia, a ouvir para só depois falar. Substituir o “Nem doeu” por “nossa, essa queda doeu e te assustou, né?”. O “Não precisa chorar!”, por “Você deve estar muito triste porque não vamos ao parque, eu também ficaria. Vamos pensar juntos uma forma de você se sentir melhor?” . Aprendemos que ou somos pais ou somos amigos das crianças. Infelizmente, somos uma sociedade cheia de dualidades e de “ou” “ou”. No entanto, a vida fica mais fácil e leve, e o educar mais mágico se nos libertamos destas amarras e nos permitirmos mais “e” “e”. A amizade entre pais e filhos é possível e altamente valorosa. A relação alicerçada em igualdade e respeito é mais firme que a baseada em autoritarismo e submissão. Não existem apenas a permissividade e a violência, podemos educar seres emocionalmente inteligentes, responsáveis e autodisciplinados quando entendemos que crianças são seres humanos como nós, igualmente dignos de respeito, atenção e escuta.

>>>> Leia também: Fases do desenvolvimento do bebê – por que conhecê-las ajuda a entender melhor a criança.

Se você gostou do que leu e quer saber mais, pode me encontrar em minhas redes sociais: Facebook.com/elisamasantosc, youtube.com/elisamasantosc, IG: @elisamasantos, ou participar de um dos meus workshops e palestras pelo País, o próximo será no Rio de Janeiro, dia 08/07, inscrições aqui.

Por uma vida mais conectada e mais leve.

Um abraço apertado,

Elisama Santos.

Elisama é escritora, autora de Tudo eu! Confissões de uma mãe sincera e {Re}Olhar – acolhendo quem somos e os filhos que temos e consultora em educação não violenta. Mãe de Miguel e Helena, encontrou na maternidade o começo de uma grande mudança na vida. Dedica-se a estudar – e compartilhar – a comunicação não violenta e o autoconhecimento, certa de que mudará o mundo. Seus vídeos, livros, textos, workshops e palestras tem ajudado milhares de pessoas a transformarem as suas relações consigo mesmas e com os filhos.

3 comentários

  1. Julia

    Gostei muito das suas colocações! As crianças são humanos em formação, cabe a nós termos paciência e explicar os sentimentos ruins, não só viver essa falsa felicidade das redes sociais. A gente quer que eles sejam felizes, mas como a tristeza, decepção, arrependimento e frustração também se apresentarão a eles, vamos ajudá-los a lidar!
    Obrigada pelo texto!

  2. Carolina Kasting

    Amei o texto! Como é importante pararmos de negar os sentimentos e mostrar aos nossos filhos que todos somos feitos disso. Obrigada pelo texto!

  3. Alessandra Cayley

    Obrigada Elisama por este texto tão elucidativo e direto no ponto, de forma suava e fácil de se entender. Concordo plenamente com sua visão e tento educar minha filhinha Alicia desta forma. É difícil, porque estamos tão acostumados com o jeitão tradicional e cercados por pessoas que ainda pensam desta forma, mas vale muito a pena: a Alicia não sabe o que é castigo, porque nunca precisou. É esperta, tem opinião própria e é feliz, se sente amada e respeitada e, quando não se sente assim, tem liberdade para nos chamar a atenção, também, claro. Obrigada, Shirley, por nos trazer convidadas como a Elisama. Um abração e parabéns às duas pelo excelente trabalho.

Deixe seu comentário