Perda auditiva em crianças (devido a otite média)

Quem me acompanha nas redes sociais sabe que, há alguns meses, passamos por uma fase na qual o Leo teve uma perda auditiva passageira, resultado de uma (ou de uma série de) otite(s) média(s) que ele havia tido meses antes.

Nós percebemos o problema porque o meu pequenos passou a escutar mal (perguntava a toda hora o que as pessoas perto dele falavam), falar mais alto e também ouvir a TV num volume mais elevado. Vendo isso e achando estranho (ele nunca foi assim) eu o levei a um especialista (otorrino) e esse, só de olhar o ouvido do Leo, viu que tinha algo errado e pediu exames extras (impedanciometria e audiometria).

Pois bem, resumindo a nossa história: o caso do Leo terminou bem (pelo menos por enquanto). Fizemos um tratamento e ele não precisou usar nenhum tipo de dreno para escoar o líquido que estava dentro do ouvido. Também voltou a ouvir bem e, agora, daqui a algumas semanas, vai refazer os exames só para termos certeza de que está tudo bem mesmo e que ele segue ouvindo bem (até porque, ele voltou a fazer natação, esporte que havia sido interrompido durante o tratamento, e é bom checar se essa volta à piscina não trouxe um prejuízo à audição novamente, já que pode levar líquido ao ouvido).

E como passamos por esse problema por aqui, imagino que outras famílias também possam estar passando pelo mesmo, então, decidi chamar uma especialista para abordar o assunto e esclarecer algumas dúvidas.

Dessa forma, quem conversa com vocês hoje é a Dra. Lígia Tedde, médica otorrinolaringologista e autora do Blog Inspire. Ela irá explicar em mais detalhes o problema da perda auditiva em crianças por conta de casos de otite média (a razão mais comum do problema). Confiram!

Photo Credit: Reuns Flickr via Compfight cc

Perda auditiva em crianças (devido a otite média)

Dra. Lígia Tedde, médica otorrinolaringologista e autora do Blog Inspire.

Existem diversas causas para perda auditiva em crianças, especialmente no período entre o nascimento e a idade pré-escolar. Elas podem ter origem genética, ser secundárias a infecções no período intra-útero, uso de antibióticos, necessidade de permanência prolongada em UTI com intubação, entre tantos outros fatores. Porém é inegável que uma das etiologias mais presentes no nosso meio é a perda auditiva por presença de líquido (chamado efusão) na orelha média.

A efusão na orelha média causa um tipo de perda auditiva chamada de CONDUTIVA. Isso porque, de uma forma geral, o que está comprometido não é o órgão da audição – a cóclea ou o nervo auditivo, mas sim a condução do som até essas estruturas. O som é transmitido pela nossa orelha externa (OE), passa pela orelha média (OM) – onde o som é transmitido e amplificado e, em seguida, para a orelha interna (onde fica o órgão da audição e parte do nervo auditivo). Quando há secreção na orelha média, parte importante dessa cadeia é interrompida e a amplificação do som prejudicada, com perda de até 25 decibéis!

De acordo com dados internacionais, até 90% das crianças em idade pré-escolar poderão apresentar otite média com efusão e, em idade escolar, 1 a cada 8 crianças. Crianças com fenda palatina ou Sindrome de Down, de qualquer idade, apresentam até 85% de prevalência!  A maior parte das crianças, principalmente as não sindrômicas, terão uma resolução espontânea do quadro, sem a necessidade de nenhum tipo de tratamento, mas em uma boa parcela ainda poderá perdurar por mais de um ano, ou mesmo ter otites de repetição.

E qual o impacto da efusão na orelha média, na prática? Déficit auditivo, tontura, queda do aproveitamento escolar, problemas comportamentais, desconforto e queda da qualidade de vida. Numa fase em que as conexões cerebrais se fazem intensa e rapidamente, o comprometimento auditivo pode atrasar o desenvolvimento de fala e linguagem, sendo motivo de real preocupação para pais e cuidadores.

Acompanhamento e intervenção oportuna são cruciais. Quando não houver melhora espontânea e em casos especiais, o tratamento cirúrgico deve ser cogitado. Ele pode envolver a colocação de tubos de ventilação na membrana timpânica até estabilização do quadro, retirada da adenóide, aspiração da secreção coletada na orelha média ou combinações entre os métodos, conforme a necessidade.

Estratégias para otimização da audição até que a condição se resolva:

-Falar próximo à cça, ser claro, de frente e com boa pronúncia,

-Reduzir o ruído de fundo,

-Melhorar o assento na sala de aula, se necessário.

Vale lembrar que cada caso é um caso, e cada paciente é único! Em caso de dúvidas, procure seu otorrino, pois somente ele poderá dar um diagnóstico exato do problema do seu filho (e poderá solicitar os exames indicados).

Dra. Lígia Tedde (CRM 156.212- SP), é médica otorrinolaringologista e autora do Blog Inspire – Otorrino e Qualidade de Vida (www.inspireotorrino.com.br).

Fontes:

1: Rosenfeld RM, Shin JJ, Schwartz SR, Coggins R, Gagnon L, Hackell JM, Hoelting D, Hunter LL, Kummer AW, Payne SC, Poe DS, Veling M, Vila PM, Walsh SA, Corrigan MD. Clinical Practice Guideline: Otitis Media with Effusion Executive Summary (Update). Otolaryngol Head Neck Surg. 2016 Feb;154(2):201-14. doi: 10.1177/0194599815624407. PubMed PMID: 26833645

2: KATHRYN M. HARMES, MD; R. ALEXANDER BLACKWOOD, MD, PhD; HEATHER L. BURROWS, MD, PhD; JAMES M. COOKE, MD; R. VAN HARRISON, PhD; and PETER P. PASSAMANI, MD. Otitis Media: Diagnosis and Treatment. American Family Physician. Volume 88, Number 7 .October 1, 2013

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