A coqueluche está de volta | Macetes de Mãe

A coqueluche está de volta


7 de julho de 2016

Há alguns dias, uma leitora me sugeriu, via Snapchat (meu perfil lá é “macetesdemae”) eu escrever sobre coqueluche, já que essa é uma doença antiga que está voltando e atingindo várias regiões do país. Como não sou uma profissional da saúde e como não entendo do assunto, chamei o Dr. Flávio Melo,Médico Pediatra, que já contribuiu aqui com o blog antes, escrevendo escrevendo também sobre outra doença de antigamente que está dando o ar da graça novamente: a caxumba.

Mais uma vez, o Dr. Flávio escreveu um excelente texto: claro, conciso e extremamente informativo. Não deixem de ler.

coqueluche

Coqueluche não é aquela doença do tempo da sua avó. Você precisa agir AGORA!

Por Flávio Melo, médico pediatra e autor do blog Pediatra do Futuro

Uma das coisas mais difíceis na tarefa de ser médico, é a necessidade de atualização contínua e nos tempos de internet e smartphones, é quase minuto a minuto.

Pior que isso, é a sensação de enxergar doença toda hora nas pessoas, lembram daquele menino do filme que dizia: -eu vejo gente morta o tempo todo…? Pois é, a gente, por mais que não queira, vê, escuta e sente doença o tempo todo, mais do que gostaria, às vezes.

Um aperto de mão meio suado, uma pele um pouco pálida, uma postura um pouco mais curvada, um andar mais hesitante ou uma piscadela diferente nos olhos e pronto, já estamos vendo gente doente, mesmo que seja naquele aniversário animadíssimo.

Não é incomum que estejamos atendendo um paciente e uma tosse estranha nos chame atenção na sala de espera. Sim, a gente escuta esse tipo de tosse ATRAVÉS da porta!

Um dia, há uns 4 anos, estava eu atendendo e uma tosse DESSAS me atiçou os sentidos. E eu aperreado, querendo que essa paciente entrasse logo, por dois motivos:

1- eu sabia que ela estava literalmente DESPEJANDO bactérias (chamada Bordetella pertussis) nas outras pessoas e nas crianças na sala de espera;

2- eu sabia que ela iria complicar, mais hora, menos hora.

E ela entrou, e após examinar, quando disse a sua mãe que o diagnóstico provável daquele bebê de 2 meses, que ao tossir sufocava e emitia um ruído característico, chamado guincho, era coqueluche, ela arregalou os olhos.

E disse: – mas doutor, não é possível, isso é doença do tempo da minha avó!!!

E eu disse: – Não, isso É aquela doença do tempo da sua avó, que está voltando com toda a força.

Eu havia acabado de voltar de um congresso, onde um especialista da Costa Rica tinha nos alertado da explosão da coqueluche no seu país e sabíamos que aqui não seria diferente.

Quando encaminhei para o internamento no hospital referência em doenças infecciosas e onde ela poderia ficar isolada, fui chamado de doido por um “colega” que recebeu a bebê e a dispensou, dizendo que essa doença não existia mais, era doença do tempo da sua avó (?!?!?!?!).

Se não fosse um acesso de tosse na recepção do hospital, que levou a bebê quase a uma parada cardíaca e a pronta ação dos colegas da pediatria, a bebê talvez não estivesse mais por aqui.

Dia desses, a mãe me procurou no consultório e lembramos juntos o “sufoco” que passamos com a doença da menina.

-Meu bebê tem muito risco de pegar?

Bem, não é um risco ALTO, mas não é também desprezível. Estamos vivendo uma situação de aumento consistente dos casos em quase todos os estados do país e no inverno ainda mais. Não é uma situação epidêmica, mas temos que focar na prevenção da doença nos bebês menores de 6 meses, que são o grupo com maior risco de complicações, através da vacinação, que explicarei daqui a pouco, no final do texto.

-E como saber que a tosse pode ser coqueluche?

Em bebês, o quadro, que começa parecendo um resfriadinho por 7 a 14 dias, evolui para uma tosse ENORME, em acessos, que não param nem com reza brava e terminam com o menino com um ruído agudo de sufocação, chamado de guincho e muitas vezes com vômito e palidez.

Em crianças maiores e adultos, o quadro tem que ser pensado quando há uma tosse prolongada, que dure acima de 3 semanas (tem outros problemas que precisam ser vistos também nesses casos).

-E se meu bebê pegar?

Pois é, por mais que você tenha cuidados (vacina, etiqueta respiratória, boa alimentação), seu bebê pode terminar pegando.

Nesse caso, se ele apresentar os sintomas que já te ensinei, o melhor é levá-lo à um pronto atendimento para uma avaliação com o pediatra. E lá, procure ter cuidado de não deixá-lo em contato próximo com outros bebês.

Dependendo da confirmação do diagnóstico clínico, após exames e coleta da secreção do nariz, o pediatra verificará o estado de hidratação e de desconforto respiratório do bebê. Se ele estiver desidratado, com muita dificuldade para respirar ou saturação de oxigênio menor que 92, com acessos de tosse intensos e for menor que 2 meses de idade, SEMPRE será preciso internar.

No internamento, com isolamento respiratório, será ministrado oxigênio, colocará soro para hidratar e os antibióticos poderão ser feitos na veia. Alguns casos mais graves serão melhor acompanhados na UTI e o uso de corticóides e broncodilatadores serão avaliados nessa situação.

Os bebês maiores e com estado clínico melhor serão tratados em casa, com hidratação oral extra, remédios para febre, antibóticos para evitar transmissão da bactéria e a depender da situação o uso de corticóides, broncodilatadores e sedativos da tosse (USO RARO e COM MUITO CUIDADO!).

DICA MINHA: se o bebê está com coqueluche e tem muitos acessos ao nebulizar, pode ser que o estresse da nebulização esteja desencadeando os acessos e aí seria interessante conversar com o pediatra para ver outra alternativa. E outra dica, não nebulize com o soro FRIO, somente isso pode causar muitos acessos, pelo efeito irritante nas vias aéreas. Sempre tire a quantidade a ser usada da geladeira e deixe ficar na temperatura ambiente.

Após 5 dias do uso do antibiótico, o bebê poderá receber visitas, até lá, evitar o contato íntimo, principalmente com outros bebês.

O que é bem chato da coqueluche é que mesmo após o uso de todos os medicamentos, a tosse e os acessos podem demorar semanas para irem embora e em alguns casos meses.

A danada da tosse com acesso pode inclusive voltar alguns meses depois que ele já melhorou, em um resfriado que o bebê pegar.

Aí não será uma nova colqueluche e sim a chamada tosse pós-infecciosa, que é um tormento para os pediatras e pneumopediatras, muitas vezes tendo que usar aqueles sprays que usamos no bebê chiador e na asma.

No fim das contas, é bem melhor prevenir com a vacinação, não acham?

O problema é que, nesses tempos de mitologia irresponsável sobre possíveis danos que as vacinas podem causar, exatamente um desses movimentos anti-vacinação, na California, entre 2012 e 2014, contribuiu para a explosão de casos e morte de diversos bebês por Coqueluche.

O que ocorre é que a doença é 25 vezes mais incidente entre bebês não vacinados, e com a constatação de que a imunidade causada pela vacina não é definitiva, e que adolescentes e adultos jovens eram transmissores da bactéria para os pequeninos, formou-se o cenário ideal para uma epidemia e o grande aumento de casos. Há vários outros motivos, mas como o post não é palestra médica, fiquem com o básico.

Aqui não deve ser diferente, apenas não temos dados confiáveis, para variar.

Então, como proteger seu bebê?

– Gestantes devem tomar a vacina Tdap entre 27 a 36 semanas, idealmente, ou imediatamente após o parto, independentemente de ter recebido qualquer dose de reforço para o tétano e a difteria, em qualquer tempo.

– Familiares, cuidadores, avós, o quaisquer pessoa que tenha contato frequente com o bebê, devem também tomar esse reforço antes do bebê nascer.

– Adolescentes devem fazer o reforço com pelo menos 1 dose de Tdap, a cada 10 anos posteriormente.

E lembre-se, não ache que seu médico está maluco, quando ele lhe falar dessa doença, isso é um sinal importante que ele está ligado no que está acontecendo.

Quem quiser saber um pouco mais:

  • http://www.cdc.gov/pertussis/pregnant/
  • http://familia.sbim.org.br/doencas/86-coqueluche-pertussis

Flávio Melo – Médico Pediatra / CRM 5239-PB RQE 3065

Quem sou eu?

Sou médico pediatra há 11 anos, formado em Medicina pela Universidade Federal da Paraíba e Pediatria no Instituto de Medicina Integral Fernando Figueira (IMIP/Recife-PE). Enxergo que o futuro da prevenção na criança, passa por uma atuação nos hábitos familiares e estilo de vida, desde antes do casal engravidar.

Mantenho um blog chamado Pediatra do Futuro e uma fanpage no Facebook. Não deixem de visitar.