A culpa é da mãe

A culpa é da mãe


5 de julho de 2016

A culpa é da mãe. A culpa é sempre da mãe. A mulher não engravida, a culpa é dela. Nem por um minuto as pessoas cogitam que o problema pode estar no pai, que ele pode ser estéril ou ter dificuldade para engravidar a sua parceira.

Ou então, a mulher tem uma gravidez não planejada (e de certa forma indesejada) a culpa é de quem mesmo? Claro, óbvio, com toda a certeza, da mãe. Que não soube se cuidar, que não soube dizer não, que quis dar o golpe ou foi uma irresponsável.

E depois que a criança nasce? Ah! Segue a mesma história. Depois que a criança nasce, se a mãe não consegue amamentar, tem baby blues, depressão pós-parto ou passa por tantas outras dificuldades que são tão comuns após a chegada e um bebê a culpa é dela. Ela que não se preparou suficientemente para amamentar seu filho, ela que não tem leite, ela que tem preguiça de amamentar, ela que não sabe lidar com as dificuldades da chegada de um recém nascido, ela que é descompensada e está deprimida quando deveria estar eufórica de felicidade.

culpa e da mae
Photo Credit: esintu via Compfight cc

Até na questão da maldita cólica a culpa é da mãe: “Ah, seu bebê tem cólica porque você é nervosa! Tente se acalmar que tudo vai se resolver”. Como se fosse simples assim. E se o bebê não dorme? A culpa é da mãe também. Foi ela que não soube “ensinar” a criança a dormir, ela que criou maus hábitos, ela que está fazendo errado.

Filho que faz birra? Ah! A culpa só pode ser da mãe. Ela não impôs limites, ela não sabe controlar, ela não sabe educar. Aquela cena típica: criança se jogando no chão do shopping (ou mercado, loja, parque, o que quer que seja), pais envergonhados tentando contornar a situação. Quem está de platéia e observa tudo pensa logo de cara no quê? Na mãe que não sabe controlar a cria. O pai, que até está ali do lado, dificilmente é culpado pelos atos do filho.

Filho passa 10 horas numa escolinha? Culpa da mãe. Que só pensa em trabalhar para sustentar seus luxos e deixa o pobre coitadinho lá largado por um dia inteiro. “Por que essa mãe não pensou duas vezes antes de ter filho?” é o que muita gente pensa.

Filho sofre um acidente. Uma daquelas coisas que ninguém sonha que possa acontecer, mas que, infelizmente, acontecem. Qual a primeira pergunta que vem na mente da geral? “Cadê a mãe dessa criança? Onde estava a mãe dessa criança quando isso aconteceu?”. Pelo pai ninguém pergunta.

Filho faz algo errado. Daquelas coisas feias mesmo, que nem por um decreto a gente quer que nossos filhos façam. Que só de pensar neles fazendo corre um arrepio na espinha. Culpa de quem? Da mãe, é claro.

Dificilmente vejo alguém colocando a responsabilidade sobre o pai, perguntando: “Cadê o pai dessa criança?”, culpabilizando qualquer outro ser humano que não seja a pobre coitada da mãe.

Quero dizer que a mãe não tem responsabilidade sobre seus filhos? Óbvio que não! A mãe tem tanta responsabilidade quanto tem o pai. Ou pelo menos deveria ter. O problema é que nem ninguém encara dessa forma. Deu errado? Culpa da mãe!

Cada vez mais tenho me incomodado com essa eterna culpabilização materna. E como se a gente tivesse que viver eternamente se defendendo, desviando dos olhares críticos, dando explicações para o mundo. “Olha, juro que eu ensino, explico, converso, dou limites. Juro que sou uma mãe presente, amorosa, dedicada. Simplesmente não sei por que o meu filho age assim. Me desculpe!”.

Pra começar, acho que podemos mudar a expressão que é empregada. Em vez de falar em culpa, por que não falar em responsabilidade? Quase tudo (e digo “quase” porque não gosto de generalizar) que diz respeito a filhos, crianças, é responsabilidade 50% do pai e 50% da mãe. Até a tão comentada e cobrada amamentação, se não tiver um bom apoio do pai não vai acontecer de uma forma bacana (e não sou eu que estou dizendo isso. Pesquisas comprovam que o envolvimento dos homens no aleitamento materno aumenta as chances de prolongar a amamentação).

Então, hoje, aqui, deixo o meu apelo: quando você se deparar com qualquer situação não tão legal envolvendo filhos, por favor, não culpe de cara a mãe por isso. Pense sempre em “responsabilidade” em vez de “culpa” e pense que uma criança não é gerada sozinha e não devia ser criada sozinha. Na sua educação, proteção, amparo, cuidado deveriam estar envolvidas duas pessoas – o pai e a mãe (ou qualquer outras pessoas que estejam presentes no caso de faltar a figura do “pai”).

Que esse texto meio desabafo sirva para refletirmos sobre o assunto, que muitas vezes nos passa despercebido de tanto que já estamos acostumadas com essa situação injusta. E que ele sirva também para tirarmos de sobre os nossos ombros o peso da culpa que nós mesmas nos impomos.

Não somos culpadas de nada. Somo co-responsáveis, e isso é bem diferente.