A erotização da infância

A erotização da infância


25 de julho de 2014

Em mais um post da Coluna Psicologia, a psicóloga Raquel Suertegaray aborda um tema de extrema importância nos dias atuais: a erotização da infância. Raquel analisa a questão de uma forma clara e direta e nos faz pensar se situações que parecem tão inocentes são assim tão inofensivas mesmo. Vale a pena dedicar alguns minutos do seu dia. Boa leitura!

A erotização da infância

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Clique sobre a foto para ver a fonte – Creative commons.

Por Raquel Suertegaray

Olá mamães, desde que comecei a escrever para o Macetes estou sempre alerta para possíveis temáticas e um dos assuntos que vem sendo postergado, mas que penso ser muito importante de ser refletido, é a forma como lidamos com os estímulos vindos da mídia, em especial as músicas e o vestuário.

Um tema que me preocupa muito no convívio com crianças, em todos os âmbitos da minha vida, ou seja, desde a minha filha, as crianças de sua escola, os alunos da minha escola, as que vejo na rua, no shopping e até as que vejo apenas na telinha da TV, é a influência que algumas músicas e a estética que as acompanham exerce sobre as crianças. Vemos cada vez mais músicas se tornando hits de sucesso, executados à exaustão em todos os veículos de comunicação e festas, como funks, arrochas, axés e outros ritmos e será que isso é saudável para nossos filhos?

Não quero entrar no mérito da qualidade destes estilos musicais, pois penso que a cultura reflete questões sociais e merece, além de respeito, discussões muito mais profundas a que não nos propusemos neste espaço. Porém, penso que temos o dever, enquanto pais e mães, de refletir acerca das consequências que a exposição a esses ritmos e também às temáticas eróticas, sexistas e violentas que advém deles causará em nossas crianças.

Hoje, estamos permanentemente conectados às “telas”, seja no smartphone, na televisão, no computador ou no tablet, e através delas entramos em contato com uma infinidade de estímulos que, muitas vezes, pela forma maciça a que somos submetidos fazem com que a gente perca a referência da adequação ou inadequação dos mesmos para crianças.

Refletindo sobre o tema, penso que pode estar acontecendo o que em neurociências chamamos de habituação, ou seja, um fenômeno que faz com que nos acostumemos com um estímulo a ponto de deixarmos de prestar atenção nele (por exemplo, pessoas que moram perto de ruas movimentadas e com o tempo deixam de escutar os barulhos dos veículos ou o perfume que usamos, que nós deixamos de sentir, mas que os outros continuam elogiando).

Penso no fenômeno da habituação por acreditar que de tanto escutar, passamos a assimilar como algo comum e deixamos de nos apegar às mensagens e ficamos mais flexíveis. As músicas entram na nossa cabeça, grudam, e quando percebemos estamos cantando e nem percebemos que as crianças também estão e acabamos achando graça de vê-las rebolar e cantar ao seu som.

Ficamos cegos para o que vem embutido, para as mensagens que vão montando o repertório de crenças de nossos filhos e para a forma erotizada que nossas crianças passam a dançar. Esquecemos que elas irão crescer e que o que hoje, quando se tem 2 ou 3 anos é engraçadinho, mas que aos 7 ou 8 vai parecer vulgar. Crianças absorvem o mundo, seja através do que escutam ou veem, e tendem a reproduzir e  isso é esperado. Então, cabe aos pais e educadores a responsabilidade de selecionar e garantir o mínimo de respeito pela infância dos seus filhos.

Crianças não nascem com um repertório musical construído, pelo contrário, elas o constroem a partir do que o meio oferece. Então, desde muito cedo devemos ter critério, ir além do que nos é empurrado através dos meios de comunicação e da publicidade. OU seja, podemos, se assim desejarmos, apresentar a nossos filhos músicas de qualidade e ampliar seus repertórios, de forma que, à medida que crescerem, possam fazer suas escolhas – sempre supervisionados por nós.

Tenho uma filha com 11 anos e, de alguns anos para cá, passei a ser mais seletiva que costumava em relação a músicas, pois se pretendo ensinar a ela que considero aqueles conteúdos vulgares, que não me identifico com as mulheres cantadas naqueles refrões (afinal, exemplos valem mais que mil palavras, já diz o ditado) eu preciso mostrar isso através de atitudes.

Como resultado da minha pesquisa sobre o tema erotização da infância, reuni alguns recortes de letras de músicas – que volto a dizer, não trata-se de analise estética ou musical, apenas me refiro ao âmbito de ser próprio ou impróprio para crianças – e gostaria de compartilhá-los com vocês.

Uma música muito popular nos últimos tempos fala “Quando começo a dançar eu te enlouqueço, eu sei. Meu exército é pesado, a gente tem poder Ameaça coisas do tipo você”,  outro hit propõe: “Eu não tenho carro, não tenho teto. E se ficar comigo é porque gosta. Do meu ranranranranranranran lepo lepo. É tão gostoso quando eu ranranranranranranran o lepo lepo.” E os exemplos não param por aí, temos “Vodka ou água de coco. Pra mim tanto faz. Gosto quando fica louca e cada vez eu quero mais. Cada vez eu quero mais. Whisky ou água de coco. Pra mim tanto faz. Eu já tô cheio de tesão e cada vez eu quero mais. Cada vez eu quero mais”. E para concluir as ilustrações “Balança que é uma loucura, Morena vem do meu lado, ninguém vai fica parado quero ver mexer kuduro. Balança que é uma loucura. Morena vem do meu lado, ninguém vai fica parado. Oooooooooooh, oi oi oi, oh, oi oi oi.”

Os exemplos não param por aí e também não começaram a aparecer agora. Há muitos anos, com certeza, muita gente achava bonitinho ver uma menininha dançando as músicas do É o Tcham (mesmo que não gostasse da banda) e tantos outros hits populares. E estas e tantas outras são músicas que trazem para a vida da criança termos que não acrescentam nada de positivo e que acabam por compor seus vocabulários (para lá de paupérrimo, vamos ser sinceras).

E vale salientar que a preocupação não se restringe as músicas, mas a uma série de estímulos que as acompanham, como coreografias apelativas e roupas que transformam a mulher em objeto de admiração pela sensualidade. Este panorama a que as crianças vem sendo expostas, cada vez de forma mais massiva, pouco a pouco, rouba a inocência da infância e traz à baila um erotismo com o qual elas não podem lidar e as leva, com frequência, a níveis de excitação que não são saudáveis para a idade.

Esta erotização precoce tem causado efeitos tais quais uma antecipação da puberdade, que não é acompanhada pela maturação emocional para lidar com um corpo em transformação e com avalanche hormonal, ou mesmo uma antecipação da menarca e ou, pior ainda, uma gravidez precoce.

A erotização é considerada precoce quando acontece antes da fase em que a criança estaria preparada para compreender corretamente um determinado estímulo e confrontar a criança com estímulos que vão além de sua capacidade de compreender pode trazer consequências negativas para a criança como as citadas acima.

A globalização da informação e das expressões culturais nos expõe e expõe nossos filhos ao que concordamos e ao que não concordamos, por isso, precisamos estar atentos para encontrar formas de lidar com isto. Costumo alertar os pais que pode ser engraçadinho ver o filho(a) de um ano e pouco de idade rebolando com o hit musical do momento e justificar dizendo que ele(a) ainda não compreende a mensagem que está implícita. O alerta vem no sentido de considerar que a criança vai crescer e está aprendendo a falar, que em breve estará cantarolando estas músicas, pois o aprendizado está diretamente ligado ao afeto, e uma plateia que aplaude e sorri traz ao bebê a certeza que de aquele comportamento é desejado e ela investirá energia naquilo. O que nem sempre é desejado ou positivo.

Por isso, faço aqui, mais que um alerta, um pedido: selecionem o que vocês costumam ouvir em suas casas, carros, festas, etc… Pois os estímulos a que a criança é exposta traz consequências no curto e no longo prazo e nem todas elas são positivos.

Colunistas MdM Raquel - Psicologia