A fase dos "terrible two"

A fase dos “terrible two”


19 de agosto de 2014

Até eu ter filhos, eu nunca tinha ouvido falar da famosa expressão “terrible two”, que tem por objetivo identificar a difícil fase de crianças em torno de dois anos de idade.

Mas assim que o Leo nasceu, e que fui lendo a respeito de criação, comportamento e desenvolvimento, já fui me preparando para o que estava por vir.

Na verdade, como o Leo sempre foi temperamental, de não fazer o que não quer, de reclamar e botar a boca no trombone, eu, com toda a inocência que me é peculiar, fui levada a crer que ele já vivia um eterno terrible two e que, assim que chegasse os dois anos de idade, muito pouca coisa mudaria.

terrible two
Photo Credit: Ed from Ohio via Compfight cc

Ledo engano. É claro que o comportamento do Leo piorou. É claro que ele também entrou nos “terrible two” e que as coisas, que já eram trabalhosas, vamos assim dizer, se tornaram um pouquinho mais complicadas.

Não posso dizer que o Leo virou outra criança, como eu disse, ele sempre teve uma personalidade forte, mas ele se tornou mais teimoso e há momentos em que tenho que usar de muita psicologia ou muita paciência para dar conta do recado.

Mas afinal, como está sendo o “terrible two” por aqui?

Leo ainda não deu aqueles shows de se jogar no chão, bater a cabeça, rodar a baiana para valer (e espero, de todo coração, que ele nunca venha a fazer isso), mas já tive que desistir de levá-lo ao shopping e ao supermercado (leia uma história que já contei sobre isso aqui), pois os shows lá foram tão grandes (gritos e choro) que eu jurei que nunca mais me arriscaria nessa aventura (e eu cumpro o que prometo).

Além disso, ele tem brigado mais na hora de trocar fralda (sim, ainda não desfraldamos), tomar remédio, entrar ou sair do banho. Coisas que antes fazia com tranquilidade, agora dá piti quando tem que fazer.

Outro ponto que o bicho pega é quando ele quer algo e é contrariado. Jesus do céu! A casa cai. Ele grita, chora, faz drama, faz birra, e quer por que quer que a sua vontade seja atendida. E claro que, como já disse não, eu não cedo, e aí o negócio complica.

Basicamente, lembro desses três momentos em que o Leo tem mostrado mais forte o seu lado “terrible two” e aí temos nos virado nos 30 para dar conta do recado sem grandes traumas para ambas as partes.

E como temos lidado com tudo isso?

Em cada momento, uso uma estratégia diferente. A primeira delas é baixar à altura do Leo, conversar, explicar o motivo daquilo estar sendo feito ou não estar sendo feito e tentar convencê-lo a se acalmar. Ou então, quando não sei exatamente o motivo da birra, é conversar com ele para entender o que ele quer. Muitas vezes, o piti é porque ele quer algo e não consegue explicar o que quer, e se conseguimos ajudá-lo a se comunicar ele se acalma (como a vez em que ele queria um brinquedo que estava dentro do armário e não conseguia explicar dirieto o que era. Perguntando daqui e perguntando dali entendemos a sua necessidade, ela foi atendida – porque podia ser atendida- e tudo correu bem).

Ou seja, se essas duas estratégias forem testadas e e surtir efeito, ótimo. Problema resolvido. Mas se nada disso der certo (o diálogo), parto para outras duas opções. A primeira delas é mudar o foco. Parar o diálogo (ou monólogo, melhor dizendo) de convencimento e começar outro assunto, mostrar outra coisa, levá-lo pra outro ambiente, sempre mostrando alguma coisa divertida, criativa, que ele curta e atraia mesmo a atenção dele. Se ainda assim o piti e a birra continuarem, aí o jeito é dar um tempo para ele. Como diz uma amiga minha, psicóloga, nessas horas, a gente também não pode dar muito Ibope. Tem que conversar, explicar, tratar com respeito (ou então tentar mudar o foco,) mas se nada disso adiantar, temos que parar de reforçar aquele comportamento negativo. Ou seja, se tudo que fizemos não deu certo, a criança não se acalmou, não adianta ficar insistindo nisso, dando atenção infinda. Tem é que deixá-la um pouco sozinha (deixando claro que toda a explicação já foi dada, aquilo que ela quer não pode ser feito e que o papai e a mamãe estão por perto caso ela precise) para se acalmar por si só.

Nessa hora, em que se deixa a criança sozinha, ela não pode se sentir abandona. Ela tem que perceber que o pai/mãe não vão mais insistir naquele assunto, mas que eles estão por ali, que ela não foi deixada só para lidar com o seu problema. Muitas vezes já recorri a essa última opção, como no caso em que o Leo deu um piti no mercado (história contada aqui) e garanto para vocês que apesar da vergonha que passei, funcionou.

Mas por que a criança dá esses shows na fase do “terrible two”?

Principalmente porque, nessa idade, seu entendimento do mundo e das coisas já está mais desenvolvido, mais complexo, e aí ele percebe que pode ter acesso a algumas coisas, mas não consegue expressar isso ou tem a sua vontade não atendida. Isso, o não, para uma criança que ainda acha que é o centro do universo, que tudo gira em torno dela e tudo ela pode (comum nessa fase, não é só mimo), é o fim! Ela não consegue entender porque ela não pode isso ou aquilo e aí entra em “surto”. Ou surta porque quer algo e não consegue expressar o que quer.

Por isso que o diálogo, ou pelo menos uma tentativa de dialogar, é a melhor opção nessas horas. E aí, se não funcionar, o jeito é recorrer à mudança de foco, seja mostrando alguma outra coisa, mudando de ambiente, ou até deixando a criança um pouco sozinha para se acalmar (com os pais por perto, mas sem ficar todo o tempo perguntando e tentando resolver o problema).

Eu não sou psicóloga, mas li bastante coisa a respeito e tenho conversado sobre o tema com outras psicólogas. Juntando tudo que vi, ouvi e li, cheguei a essas conclusões que coloquei hoje aqui.

Garantia de sucesso em 100% das vezes é claro que não temos, mas, pelo menos, a gente vai sobrevimento sem traumas, sem ter uma mãe/pai sempre gritando, sempre perdendo a paciência, sempre achando que é birra e pronto.

E para fechar esse texto, já beeeem longo, lembro que para essa fase o melhor de tudo é paciência e conversa. E a certeza que, com o tempo, as coisas melhoram.

Leia um texto sobre birras já publicado aqui no blog, na coluna Psicologia. Vale à pena.