A nossa geração não está preparada para ser mãe

A nossa geração não está preparada para ser mãe


11 de novembro de 2014

Não sou psicóloga, não sou socióloga, não sou filósofa, mas já me peguei, diversas vezes, pensando em como a nossa geração está pouca preparada para ser mãe. Sei que essa afirmação vai gerar polêmica, que muitas mães vão dizer “fale por si, e não por mim” e também não quero generalizar e nem ofender ninguém. Mas aposto que, até o final desse texto, você estará concordando comigo. Pelo menos em parte.

Acompanhe meu raciocínio.

desafios da maternidade
Photo Credit: Cia de Foto via Compfight cc

Nas gerações anteriores à nossa, era comum as crianças crescerem em famílias enormes, cercadas de irmãos, primos e outras crianças com idade inferior. Assim, convivia-se, desde muito cedo, com bebês e com todo o cuidado que eles demandam. A irmã mais velha ajudava a cuidar dos mais novos (quando não dava conta de tudo sozinha) e aí ia adquirindo as habilidades práticas necessárias para ser mãe desde muito cedo. Além disso, ainda, há algumas gerações atrás, as mulheres cresciam sabendo que seriam mães e pronto. Ou seja, elas eram preparadas psicologicamente para isso, naturalmente, pois viviam essa realidade praticamente desde que nasciam e nem passava pela cabeça delas outro futuro que não o de mãe e dona de casa (não falo da geração das nossas mães, que já ganhou o mercado de trabalho, mas das que vieram antes dessa).

Só que aí, aos poucos, as coisas foram mudando. As mulheres queimaram os sutiens, exigiram o direito de poder escolher o seu futuro (e não simplesmente aceitaram que iam ter filhos, cuidar da família e pronto) e foram trilhar caminhos dos mais variados o que, para mim, foi justíssimo.

E aí é que entra a nossa geração. Mulheres que estão com seus trinta e poucos anos, que já cresceram em famílias menores, com menos irmãos e primos, com mães que trabalhavam fora e que não viviam só o papel de mãe, ou então que, talvez justamente por dedicarem-se exclusivamente ao cuidado dos filhos, não queriam isso para suas filhas e as influenciaram dizendo que elas tinham que se formar, ter uma profissão, não depender de marido nenhum e ganhar o mundo.

Eu fui uma das mulheres que viveu exatamente isso. Fui a filha e a neta mais nova (nenhuma criança mais nova que eu na família), não convivi com primos ou crianças da vizinhança e, quando interagia com alguma criança, ela era mais velha. Nunca tive a chance de trocar a fralda de uma criança, fazê-la dormir, dar uma papinha, sequer brincar. Quando comecei a conviver com o filho de amigas, logo tive o meu, e aí, essa experiência com pessoas próximas também me faltou. Além disso, cresci ouvindo a minha mãe dizer que em primeiro lugar eu devia me formar e arranjar um bom emprego e que só depois deveria pensar em família e filhos (para falar a verdade, eu acho que ela nem citava casamento e filhos, parava no trabalho. kkk!). E entendo isso que ela dizia. Ela tinha conquistado isso tão facilmente – família e filhos – que deveria pensar que era fácil assim para todo mundo. E que difícil era ter uma carreira.

E, ainda, completando esse cenário que estou querendo montar, para mostrar que nós, geração dos 30 e poucos anos estamos pouco preparadas para ser mãe, vem o fato de que a nossa geração cresceu sendo uma geração muito mais egocêntrica, ansiosa e impaciente que as anteriores. Crescemos ouvido que tínhamos que produzir, conquistar, fazer, acontecer e nos sobressair, ir atrás daquilo que nos era de direito, e isso nos tornou um tanto quanto competitivos e egoístas em muitos sentidos. Bem como, nascemos na era em que os meios de comunicação estouraram e se tornaram acessíveis (celulares, internet, tablets,…) e isso, querendo ou não querendo, tem uma influência no nosso jeito de ser. Queremos tudo para já, para agora, queremos soluções rápidas e não temos paciência para aguardar resultados no longo prazo, coisa que é imprescindível quando nos tornamos pais.

Enfim, o que quero aqui dizer é que a nossa geração, a de mulheres de 30 e poucos anos, não cresceu preparada para ser mãe, mas sim profissional (na maior parte dos casos). Que não fomos educadas para ter filhos, e sim para ganhar o mundo. E que não tivemos, desde cedo, todo aquele contato com crianças que as gerações passadas tiveram e que, com certeza, torna a experiência da maternidade mais fácil, pois já se tem um conhecimento prático mínimo sobre ela.

E eu quero dizer que isso nos faz péssimas mães? Claro que não. Acredito que em alguns casos tenha uma influência negativa sim, que há mães que poderiam ser mais presentes, se dedicar mais, se entregar mais a seus filhos. Mas a grande maioria está sim tentando ser a melhor mãe que pode ser, só que, talvez, com mais dificuldades, pois lhe falta aquilo que para as gerações anteriores era tão natural: um preparo prático e psicológico natural para essa função.

Eu tenho pensado demais sobre isso. Sobre por que, para mim e para tantas outras mães, algumas coisas da maternidade são tão difíceis, tão desafiadoras e tão complexas, porque simplesmente não funciona com a gente aquela máxima “quando nasce um bebê, nasce uma mãe” e a resposta que eu encontro é que, realmente, a maternidade não é tão simples assim. Achar que um dia a gente vai dormir com experiência zero no assunto e que no dia seguinte vai acordar pronta para palestrar sobre o tema e cuidar de uma família de 10 crianças (ou até uma, vamos ser sinceras) é ilusão.

Nós fomos sim criadas para sermos grandes profissionais e não grandes mães (estou errada?). A grande maioria de nós foi. E por mais que o instinto materno exista, que a vontade de ser mãe simplesmente nos invade de uma hora para outra e seja incontrolável, também é justo dizer que com esse instinto não necessariamente vem a experiência de ser mãe e que essa tem que ser descoberta, conquistada e construída dia após dia.

Como disse lá no início, isso que eu coloco aqui não é uma verdade universal, pois não sou psicóloga, socióloga, estudiosa do assunto nem nada. São apenas divagações pessoais que encontram, cada vez mais, confirmações em experiências que vejo por aí. E também afirmo que, apesar de não estarmos 100% preparadas para sermos mães quando nossos filhos chegam, temos consciência da importância dessa função e damos o melhor que podemos dar para sermos as melhores mães que nossos filhos podem ter. Nem que isso nos custe muito, em muitos momentos.