As quatro maiores angústias da maternidade | Macetes de Mãe
Angústias da maternidade

As quatro maiores angústias da maternidade


26 de junho de 2017

É comum ouvirmos as mães falarem que eram uma mulher antes da gravidez e se tornaram outra bem diferente após o nascimento do filho. Pois é, parece que não são só as crianças que vem ao mundo, mas uma nova mulher também. E com ela afloram as tais angústias da maternidade, que nem toda mulher entende ou aceita.

Mas se pararmos para pensar um pouco, há várias justificativas para esta sensação. Com o filho deixamos de pensar em nós mesmas, temos que tentar, da melhor forma possível educa-los, dar atenção, carinho e por aí vai (vocês sabem bem como é).

Só que, neste processo, nem todas as mães se sentem confortáveis e, geralmente, se deparam com dúvidas, conflitos, medos (nem sempre revelados) e as tais angústias da maternidade. E é justamente sobre isto que fala um texto que saiu, há algum tempo, no The New York Times: a transformação de uma mãe. Eu como eu sempre penso muito sobre esse assunto – sobre como a maternidade nos muda e vira nossa vida de pernas para o ar – resolvi traduzir e compartilhar esse texto com vocês. Assim, ele segue abaixo. Não deixem de ler, pois eu tenho certeza que vocês irão se identificar com várias, se não com todas essas “angústias da maternidade” que o texto fala.

Angústias da maternidade: Photo Credit: ::: M @ X ::: Flickr via Compfight cc

O nascimento de uma mãe (e as angústias da maternidade)

Livre tradução de um texto de Alexandra Sacks para o site The New York Times

Para a maioria das mulheres, a gravidez e a maternidade é uma alegria – pelo menos por uma parte do tempo. Mas, muitas mães, também passam por experiências de preocupação, desapontamento, culpa, competição, frustração e até raiva e medo.

Como o psiquiatra Daniel Stern disse na década de 1990 em seus livros “A constelação da maternidade” e “O nascimento de uma mãe”, dar à luz a uma nova identidade pode exigir tanto quanto dar à luz a um bebê.

Dr. Stern mostrou que tornar-se mãe é uma mudança de identidade e uma das mudanças físicas e psicológicas mais significativas que a mulher pode experimentar.

O processo de se tornar mãe, que os antropólogos chamam de “matrescência”, tem sido inexplorado na comunidade médica. Pois em vez de focar na transição da identidade da mulher, as pesquisas focam em como o bebê virá ao mundo.

Mas a história de uma mulher, além da mudança na vida do casal, é importante. É claro que esta transição é algo significativo para os pais e parceiros, mas as mulheres que passam por essa mudança hormonal da gravidez podem ter uma experiência neurobiológica específica.

Quando as pessoas têm mais percepção de suas emoções, elas podem estar no controle dos seus comportamentos. Então, mesmo quando o foco permanece sobre a criança, a compreensão da psicologia de mulheres grávidas e do pós-parto pode ajudar a promover uma maternidade mais saudável. Mães com maior consciência dos seus sentimentos podem ser mais compreensivas com as emoções de seus filhos.

Conhecer os desafios da matrescência pode normalizar e validar os sentimentos das novas mães.  Aqui estão as quatro principais questões para serem observadas:

– Mudança na dinâmica familiar: ter um bebê é um ato de criação. Gravidez é mais do que criar um novo ser humano, é também criar uma nova família. Um bebê é como um catalisador que irá abrir novas possibilidades para conexões mais íntimas, bem como novas tensões nas relações íntimas da mulher com seu parceiro, irmãos e amigos.

Em 2012, no seu livro, “A linguagem materna”, Paola Mariotti, psicanalista e membro da Sociedade Psicanalítica Britânica, diz que a identidade materna de uma mulher é fundada no estilo de sua mãe, que por sua vez foi influenciada pelo modo como ela foi criada.

De certa forma, uma mulher consegue reviver sua própria infância no ato de ser mãe, repetindo o que era bom e tentando melhorar o que não era. Se uma mulher teve uma relação difícil com sua mãe, ela pode tentar ser a mãe que ela desejava ter tido. Uma mãe sempre tem a oportunidade de fazer diferente.

– Ambivalência: a psicoterapeuta britânica Rozsika Parker escreveu em “Rasgada em duas: a experiência da ambivalência materna” sobre a atração e desejo de querer um filho por perto, e também o desejo de espaço (físico e emocional), normal da maternidade. Ambivalência é um sentimento que surge nos relacionamento quando uma pessoa está mais envolvida que a outra, por que uma relação é sempre um ato de malabarismo entre dar e receber. A maternidade não é exceção.

Parte do motivo pelo qual as pessoas têm dificuldade em lidar com a ambivalência é que é desconfortável sentir duas coisas opostas ao mesmo tempo.

Na maioria das vezes, a experiência da maternidade não é boa ou ruim, são as duas, boa e ruim. É importante aprender a tolerar e até se sentir confortável com o desconforto da ambivalência.

– Fantasia X realidade: a psicanalista Joan Raphael-Leff, diretora de um centro de pesquisa de psicanálise da Universidade de Londres, explica que, quando a criança chega, a mulher já desenvolveu sentimentos de fantasia sobre o bebê. À medida que a gravidez progride, a mulher cria uma história imaginária sobre a criança e se torna emocionalmente envolvida nesta história.

As fantasias femininas de gravidez e maternidade são formadas pelas observações das experiências da própria mãe e de parentes e amigas do seu convívio. As fantasias podem ser poderosas o suficiente para que haja decepção com a realidade, se esta não estiver alinhada com a visão.

– Culpa, vergonha e “a boa mãe”: há também a mãe ideal na mente de uma mulher. Ela está sempre alegre e feliz, e sempre coloca as necessidades do filho em primeiro lugar. Ela tem poucas necessidades próprias. Ela não toma decisões que irá se arrepender. A maioria das mulheres compara-se a essa mãe, mas nunca julgam por que ela é apenas uma fantasia. Outras mulheres pensam que “bom o suficiente” (uma frase criada pelo pediatra e psicanalista Donal Winnicott) não é aceitável, por que soa como conformismo. Mas esforçar-se para a perfeição eleva a mulher para não sentir vergonha ou culpa.

As mães se sentirão culpadas por que estão sempre fazendo escolhas desafiadoras e às vezes impossíveis. Em muitas situações elas são obrigadas a deixar de lado as suas próprias necessidades para colocar as necessidades do filho. A maioria das mães não fala sobre sentimento de vergonha, por que geralmente é algo que elas não querem que ninguém saiba. Vergonha é a sensação de que há algo errado com elas. Isto é frequentemente o resultado de comparar-se a um padrão inalcançável.

Muitas mulheres têm vergonha de falar abertamente sobre suas experiências complicadas por medo de serem julgadas. Esse tipo de isolamento social pode até desencadear a depressão pós-parto.

Quando as mulheres se sentem perdida entre quem eram antes da maternidade e quem elas pensam que deveriam ser agora, muitas se preocupam que algo está terrivelmente errado, quando na verdade este desconforto é absolutamente comum.

Na edição de abril da revista Glamour, a modelo Chrissy Teigen foi mais uma das recentes celebridades que anunciaram sua luta contra a depressão pós-parto. Ela se juntou a Adele, Gwyneth Paltrow, Brooke Shields e outras mulheres que usaram suas redes sociais para chamar a atenção para esta condição grave.

A depressão pós-parto é uma questão de saúde pública subdiagnosticada e subtratada que afeta 10% a 15% das mães. Mas muitas outras mães ainda podem estar lutando contra a transição para a maternidade.

Considere a imagem de Instagram de uma supermãe grávida e no pós-parto: ela se cuida, é organizada, é sexy mas modesta, multitarefa que se destaca no yoga pré-natal e parece não se incomodar com os desafios do leite vazando, com as roupas sujas na lavanderia ou com a dificuldade em dormir. Esta mulher é uma ficção. Ela é um exemplo irreal de perfeição que faz com que outras mulheres se sintam inadequadas quando perseguem e não conseguem alcançar esse padrão impossível.

Como o psiquiatra de Yale Rosemary H. Balsam mostrou em fevereiro, em um artigo no Jornal Americano da Associação Psicanalítica, a história de psiquiatras ignorando como a gravidez afeta o desenvolvimento de uma mulher pode ser rastreada até Freud.

As mulheres são muitas vezes deixadas com um binário falso: elas têm depressão pós-parto ou elas enlouquecem com a transição para a maternidade.

Conhecer as causas da angústia e sentir-se confortável falando sobre elas com outras pessoas é fundamental para o nascimento de uma mãe com um emocional e comportamental saudável. É importante que as novas mães e os que estão com ela reconheçam que, embora a depressão pós-parto seja uma manifestação extrema da transição para a maternidade, mesmo aquelas que não a tem estão passando por uma transformação significativa.

Alexandra Sacks é psiquiatra e co-autora de um livro sobre emoções da gravidez e do período pós-parto.

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