Carta aberta ao meu e a todos os maridos

Carta aberta ao meu e a todos os maridos


16 de outubro de 2014

O meu marido diz que trabalha demais. Não duvido nem por um segundo disso. Não é raro ele trabalhar mais de 100 horas por semana, chegar em casa depois das 23h e trabalhar aos finais de semana.

Só que toda vez que ele fala que trabalha muito, e eu respondo que também trabalho muuuuuuiiiiitttoo, tenho a impressão de que a minha frase fica solta no ar, de que ele não entende exatamente o que eu quero dizer com aquilo e que, inclusive, desacredita um pouco (afinal, para muita gente, sou aquela mãe desocupada que não tem mais profissão  e que, ainda por cima, deixa o filho o dia todo na escola. Tenho certeza absoluta que o meu marido não pensa isso, mas também não acho que ele veja com clareza a realidade dos fatos).

carta aberta aos maridos
Photo Credit: Amir Kuckovic via Compfight cc

Entãoooooo…… tendo total conhecimento disso, dessa falta de informação clara, direta e detalhada sobre  quanto eu e tantas outras mães trabalhamos no período de 24h, resolvi fazer o post de hoje. Na verdade, eu vou contar aqui um pouquinho a minha história de mãe, mulher, profissional, esposa, etc… mas a intenção é que todas vocês se vejam nesse relato, com muitas coisas em comum e algumas nem tanto, e que sirva para abrir os olhos de tanta gente que acha que nossa rotina é mamão com açúcar, melzinho na chupeta ou brincar de casinha. Então… vamos lá!

Querido Otávio,

Resolvi escrever essa cartinha no momento que respondia um email seu e tentei resumir, brevemente, o que eu faço todo santo dia. Como resumir não é meu forte e como em se tratando de relatar a minha rotina isso também seria impossível, mesmo que eu levasse jeito para a coisa, achei melhor expressar meus sentimentos, impressões e opiniões aqui, um espaço amplo, sem restrição de caracteres e com total liberdade para eu botar a boca no trombone.

Sei que tem um tanto de gente que pensa que sou um tanto quanto desocupada, afinal, larguei a minha antiga profissão, não trabalho (só porque não bato ponto não quer dizer que não trabalho) e, ainda por cima, deixo o filho em período integral na escola, mas não é bem assim que as coisas acontecem.

O meu dia começa cedo, quando o Leo acorda e eu tenho que levantar, dar mamadeira, trocar a fralda, trocar a roupa, dar os remédios de rotina (que não são poucos), pentear o cabelo (mentira, nunca faço isso, eu só arrumo com os dedos mesmo) e escovar os dentes dele. Na sequência, me divido entre ler uma historinha, fazer um minhoca de massinha, jogar bola, escovar meus dentes, colocar uma roupa e pentear o meu cabelo (mentira, também não penteio, eu prendo e pronto). E aí, pausa para checar se a mochila da escola foi adequadamente montada na noite anterior (estava tão cansada na hora que não sei se fiz direito) e montar a lancheira, que, claro, vai cheia de coisas naturais e saudáveis, picadas e preparadas na hora, o que dá bem mais trabalho que tacar dentro uma barra de cereal e um biscoito.

Aí, cato a chave do carro (não sem antes dizer mil vezes: “não, não vamos ver Madagascar agora, de noite a gente vê” ou então “Toy Story fica para outra hora”), junto a mochila, lancheira, minha bolsa e alguma coisa que tenho que levar junto para lavar/trocar/devolver na rua e saímos porta afora.

Chegando no carro, óbvio, entramos na parte da história que o Leo não se decide se sobe sozinho ou não na cadeirinha e quando eu concordo com o que ele quer ele muda de opinião, o que me faz sair atrasada de casa, um tanto quanto irritada, e já pensando na desculpa que darei quando chegar na escola e eles não quiserem aceitá-lo porque das 9 às 10h é intervalo de lanche das crianças e aí não dá para entrar se não atrapalha os demais que já estão comendo (coisa que eu concordo, afinal, quero sempre matar a criatura que vem atrapalhar quando estou dando comida para o Leo).

Bom, enfim, etapa um do dia cumprida! Leo na escola e aí eu de volta à minha rotina do lar, que inclui, entre outras coisas: ir no mercado, ir na farmácia, ir na lavanderia, ir na costureira (toda semana! nunca vi!!!!), ir na antiga casa pegar correspondência, resolver alguma pendência com a proprietária da casa nova, pagar contas, mandar eletrodomésticos para o conserto (nunca vi como eles dão pau aqui em casa), me estressar com o pedreiro que faltou de novo, cotar as dezenas de serviços que ainda temos que fazer  na nova residência (eles não acabam nunca!!! parecem que se multiplicam), ir na C&C (já sou quase sócia do lugar), resolver alguma confusão do seguro de saúde, coordenar o trabalho da empregada e por aí vai!

Depois das coisas da casa atendidas, é a hora de me dedicar ao blog, de corpo, alma, cabeça, unha, carne, barba e bigode (mentira! eu sempre dou prioridade para o blog e as coisas da casa ficam para quando dá tempo. kkk!). E cuidar do blog significa, resumidamente: escrever posts, responder comentários, responder emails  de leitoras, buscar ideias para o Facebook, ter inspirações para o Instagram, não esquecer de compartilhar o post do dia em todas as redes sociais (Face, Insta, Google+, Pinterest e Twitter), responder emails de assessorias de imprensa, negociar com possíveis anunciantes, brigar com as pessoas que me ajudam a cuidar do blog (pobre Tamara), revisar textos de colaboradoras e colunistas, pensar em botar em prática novas ideias para o blog (tem coisa nova vindo aí!), fazer a minha parte no que diz respeito à loja Macetes de Mãe (mas confesso, o grosso aqui quem faz é a minha sócia), escrever textos para publicações que me convidam para escrever e por aí vai!

E aí, são 17h e preciso sair para pegar o Leo, dar o jantar dele, brincar, passear, ler historinha, ver filme, desfazer e refazer a mochila, desfazer a lancheira, dar mamadeira, dar banho e colocá-lo na cama de novo para só então…. o que fazer….????? Voltar a trabalhar. Sim, depois que eu coloco o Leo na cama eu volto a trabalhar. E sigo trabalhando até 11h ou meia noite, porque horário comercial aqui em casa não existe. Ou melhor, existe, mas dura umas 16h.

Ah, e isso tudo funciona assim, à perfeição e exaustão considerando-se condições normais de temperatura e pressão. Ou seja, filho saudável, eu saudável, Leo dormindo a noite toda, sem acordar, e todo mundo bem. Porque, minha gente, quando o Leo fica doente, a casa cai. Aí tenho que dar conta de tudo isso tendo a minha pequena ferinha doentinha em casa, o que é quase humanamente impossível.

E, ainda, esqueci de citar cinco coisinhas. No meio disso tudo eu ainda tomo café da manhã, almoço, janto, tomo banho e vou ao banheiro. Justo né! Mas juro que não gasto mais de 1h30min com tudo isso. Não mesmo!

Ps: Detalhe muito importante! E o Caê ainda nem chegou. Depois, aí sim, o circo vai pegar fogo!

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Bom, acho que a muita gente se identificou com essa história. E sei que tem tantas outras mães cuja rotina consegue ser ainda mais corrida que essa (dois ou mais filhos, sem empregada, andando de transporte público, etc…). Mas o que quis dizer e mostrar, com tudo isso, é que não é fácil e nem simples. Não é porque a gente não bate o ponto como os nossos maridos batem, ou não ganha o que eles ganham, que a nossa rotina é facinha. NÃO É NÃO. A gente trabalha sim, pra caramba, só que tem que, muitas vezes, repetir à exaustão para ver se as pessoas entendem.