Como é duro ser mãe

Como é duro ser mãe


27 de Fevereiro de 2014

como é duro ser mãeOntem, me deparei com uma cena que me fez pensar: como é duro ser mãe. Não que eu nunca tenha pensado nisso (ah se penso!), mas hoje eu vi essa frase com outros olhos, com os olhos de uma mãe que vive uma realidade diferente da minha. Vamos aos fatos.

De manhã, como de costume, fui levar o Léo na escola. Assim que eu cheguei e que estava tirando-o do carrinho, para entregar para a assistente da turma, entrou uma outra mãe, com duas crianças, duas menininhas gêmeas. Sabia que elas eram da turma do Léo, pois já as tinha visto por lá, brincando com ele.A mãe deixou que uma das gêmeas corresse para encontrar os amiguinhos e seguiu com a outra no colo, que chorava desconsoladamente.

A professora se aproximou e eu, que estava do ladinho, não pude evitar de ouvir parte do que elas falavam. Escutei a mãe dizendo: “Tive que trocá-la no carro, antes de chegar aqui.” e a professora, muito sem jeito e cheia de tato, respondendo “Mas ela não poderá ficar aqui hoje”. Na hora, eu entendi do que se tratava. Uma das gêmeas, a que chorava no colo, estava doentinha e a professora dava a difícil notícias de que, pelas regras da escola, quando a criança tem alguma doença que pode passar para outras crianças não pode ficar lá (a gente já sabe disso quando matricula a criança).

Nesse exato momento, confesso que fiz uma coisa feia. Muito feia. Me enrolei por lá para ver onde daria aquela história. E o que houve foi mais ou menos o seguinte:

A mãe, que ouviu a professora dizendo “Mas ela não poderá ficar aqui hoje” falou:

– Mas eu não tenho como levá-la. Minha empregada está com conjuntivite e eu preciso trabalhar.

E a professora, mais sem jeito do que estava no início da conversa, continuou: – Mas nós não podemos mesmo ficar com ela aqui. Se ela ficar aqui do jeito que está, acabará passando para as outras crianças e blá, blá, blá….. (aí já não ouvi mais nada, já não queria mais ouvir, minha cabeça estava longe, pensando em um milhão de coisas ao mesmo tempo).

E aqui, devo confessar: não saí de lá de imediato e continuei ouvindo a conversa porque queria saber onde ia dar. Se eles teriam com a outra mãe a mesma atitude que tiveram comigo na semana passada, que foi a de me ligar e pedir para eu ir pegar o Léo e trazê-lo para casa, pois ele estava com diarréia e podia ser uma virose. Ou seja, queria saber se, assim como o meu filho teve que ir embora para não prejudicar outras crianças, outra criança também teria que ir para não prejudicar o meu filho (e todos os colegas).

Só que logo que eu ergui os olhos e fitei a mãe que estava de pé na minha frente, esse meu pensamento se dissipou. E me senti péssima por ter sido tão egoísta. Quando meus olhos encontraram o da outra mãe, eu vi as olheiras dela (provavelmente de alguém que tinha passado uma ou várias noites em claro), vi seu olhar perdido no infinito, como quem pensa “O que eu faço agora?, e vi o seu coração apertado, segurando no colo uma filha que estava doente e chorando e que também não queria ficar lá naquele momento.

Meu coração se esparramou no chão por aquela mãe pois eu, na semana passada, pude adiar meus compromissos e ir buscar o meu filho, mas ela, certamente, não podia fazer isso.

E a escola estava errada em dizer que ela deveria levar a criança embora? Não, não estava. A maior parte das escolas tem essa postura e ela é correta, na minha opinião, pois ninguém melhor que a mãe ou alguém próximo para cuidar da criança num momento que ela está debilitada e também nada melhor do que tirá-la do convívio de outras crianças, para tanto não passar quanto não pegar outras doenças.

Por outro lado, então estava errada a mãe por querer deixar a filha lá, mesmo doente? Não, também não.  Afinal, não lhe restava outra alternativa naquele momento. E eu garanto para vocês, eu vi nos olhos dela a tristeza, o desespero e aquela sensação de “estou sem chão”. Ela também não queria estar fazendo o que precisava fazer naquele momento (implorar para deixar sua filha aos cuidados de alguém).

E sei que agora, certamente, muita gente  deve estar pensando “Mas é só ligar no trabalho e dizer que não vai hoje porque o filho está doente”, “Ah, deixe o trabalho de lado, o filho vem em primeiro lugar!”, “Credo, que mãe sem coração”. Mas quantas vezes será que essa mãe já não fez isso? Ainda mais que tem filhas gêmeas!!! E o quanto isso não iria lhe custar se fizesse de novo? Eu não sei responder, mas com certeza ela deve saber. Eu sei que essa mãe queria ficar ao lado da filha (suas olheiras mostravam que ela já tinha passado longas horas cuidando da menina), mas não podia. Ela precisava ir, voltar ao trabalho e não tinha com quem deixar a filha, DOENTE.

E essa situação, que eu vi ao vivo e à cores, é a realidade da maior parte das mães, que faz malabarismo, equilibra pratos e joga bolinhas para cima todo santo dia, para dar conta de trabalho e filhos. Para não deixar nada cair e se espatifar no chão.

Que triste que eu fiquei por ela. E que agradecida que eu fiquei pela minha vida. Por poder correr duas quadras e socorrer o Léo quando precisar.

Ver essa mãe no estado que a vi hoje de manhã e tendo que lidar com uma situação tão delicada me vez pensar mais uma vez: como é duro ser mãe. Como é duro dar conta de tudo. Como é duro se dividir em duas, em dez, em mil. Como é duro fazer coisas que não queremos (deixar filhos doentes aos cuidados de outros), como é duro não poder estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Eu não fiquei lá para ouvir o fim da história. Eu fui embora logo, envergonhada pelo meu pensamento inicial, angustiada pela situação que se desenrolava (ou se enrolava ainda mais) e um tanto derrotada por simplesmente não poder fazer nada para ajudar naquele momento (juro que quase me ofereci para trazer a menina para casa, mas achei meio insano).

Enfim, quero aproveitar esse texto para deixar aqui o meu viva, o meu salve e a minha singela homenagem à todas as mães que se dividem e se multiplicam cada dia, dando conta de filho e trabalho. Daquelas que tem que engolir sapo, choro e um tanto de outra coisa porque a assim a vida lhes exige. Ser mãe não é fácil. E ser mãe e profissional, daquelas que trabalham fora, tem horário e meta para cumprir, deve ser mais difícil ainda. Não tive coragem de perguntar como terminou a história assim que cheguei para pegar o Léo. Mas vi que a menina não estava lá.