Como lidar com birras

Como lidar com birras


28 de Fevereiro de 2014

birraHá algum tempo, algumas leitoras enviaram, através da fanpage do blog MdM, perguntas que gostariam de ver respondidas por mim, em função do conhecimento que tenho na área de psicologia infantil. Assim, a partir de agora, em algumas edições da coluna, vou responder  estas perguntas , sempre tendo em mente passar informações que sejam úteis para a leitora que me questionou, mas também para outras mães que estejam passando pela mesma fase ou desafio.

Hoje vou iniciar respondendo uma questão sobre a difícil fase das birras, que costuma acontecer por volta dos dois anos de idade (e que por isso é conhecida por terrible two) em função dessa ter sido uma dúvida bastante comum entre as leitoras que enviaram seus questionamentos.

Espero que esses esclarecimentos as ajudem e, caso restem ainda dúvidas quanto a esse assunto, peço que as deixem no espaço para comentários abaixo que responderei assim que possível.

Obrigada e até a próxima !

Raquel

Pergunta enviada: Como lidar com a teimosia, com as birras e a famosa fase do não, que costuma ficar pior quando a criança chega aos dois anos? Devemos impedir/controlar o excesso de raiva da criança ou deixar? E como fazer isso?

Os dois anos são conhecidos como um momento de teimosia das crianças, mas que, na verdade, refletem um momento onde diversas aquisições importantes se somam e a criança (e sua família) estão aprendendo a lidar com as mudanças.

As birras que surgem neste momento são normais e esperadas, fazem parte do desenvolvimento, pois refletem as mudanças de uma criança que até então era um bebê, totalmente dependente, e que agora adquire a possibilidade de se locomover, de verbalizar, que se interessa ainda mais por explorar o mundo que a rodeia, que já percebe ser capaz de controlar um pouco mais até mesmo seu corpo, mas que é ainda imatura.

Não podemos ignorar que as mudanças na criança despertam sentimentos na família e, muitas vezes, mais intensamente nas mães, que pelas contingências da maternidade são as pessoas que mais intensamente estão ligadas às crianças. Mesclados com o orgulho e a alegria de ver os filhos crescendo, podem surgir sentimentos de perda, causados pela maior independência das crianças, e também de irritação, pela crescente necessidade de supervisão e solicitações verbais. Essa nova demanda pode esgotar os pais e isto também está ligado ao desafio de atravessar esta fase.

Estes sentimentos hostis, que nem sempre são percebidos e admitidos pelos cuidadores, embora sejam genuínos e normais, podem contribuir para o incremento das birras, pois se convertem em mensagens que a criança não é capaz de decodificar, uma vez que situações semelhantes acabam provocando reações diferentes e deixando a criança sem parâmetros.

Nesta fase, embora as crianças tenham uma maior capacidade de verbalização, nem sempre são capazes de transpor para as palavras o que sentem e o que querem dizer. Essa limitação provoca angústia que, nas crianças, muitas vezes, se manifesta como choro, manha, brabeza – traduzindo em miúdos, BIRRA. Além dos avanços em termos de comunicação, a motricidade também avança a passos largos. Caminhar permite à criança “ganhar o mundo” e esta maior capacidade de explorar o ambiente e de realizar movimentos de afastamento e de reaproximação de seus cuidadores, ao mesmo tempo que trazem alegria, produzem muito medo e, mais uma vez, angústia, que vira choro, manha, brabeza – ou seja, BIRRA.

Compreender o efeito destas aquisições é um dos desafios deste trajeto rumo à autonomia, que alterna desejo de se independizar, com as regalias e o conforto de ser bebê. Esta é uma etapa que além de angústia, também provoca na criança muitas frustrações, pelo desejo de tentar fazer coisas e ainda não possuir repertório para tanto, e a frustração deixa qualquer um, seja criança ou adulto irritado, só que aqui a particularidade dos pequenos é que eles não sabem o que fazer com a frustração que sentem.

Portanto, a principal tarefa dos pais nesta fase é ajudar a criança a aprender a se controlar e se relacionar com suas vontades, possibilidades e com os sentimentos que isto provoca, tornando, desta forma, os filhos socialmente habilidosos. Para que isto aconteça, os pais devem estar atentos a si mesmos e oferecer interações sociais positivas, pois eles serão o maior modelo dos filhos.

Você deve estar se perguntando agora, “o que são interações sociais positivas?”. Eu respondo: são todas as ações que promovem boas relações, como comunicar-se com clareza, evitando mensagens implícitas, ser afetivo no contato com os filhos, mas também nas relações do casal e com os avós e por fim, um detalhe que faz toda a diferença, sendo consistentes, seguindo uma mesma linha de ação, explicando as proibições (de forma simples e direta, com poucas palavras) e o mais importante, sendo persistente.

Os pais devem estabelecer limites de forma natural, discernindo com clareza o comportamento aceito, do que não é aceito. Devem mostrar sinais de desaprovação com clareza conjugando a expressão facial, com o tom de voz e a mensagem.

Uma estratégia que ao encontro do que temos de mais moderno em termos de educação hoje é valorizar os comportamentos que são bem vindos de forma mais intensa (reforço positivo) e chamar menos atenção na hora de desaprovar algo (ou seja, destacar o bom, mas não fazer uma tempestade num copo d`água quando tivermos que chamar atenção para algo ruim). O chamado reforço positivo é efetivo, mas exige um trabalho interno intenso, pois exige uma postura que não estamos acostumados a ter, de ignorar o que não é bom (normalmente destacamos o que não é bom). Quem não conta repetidamente as peripécias dos pequenos? Eles percebem e pensam que agradam.

A fase da birra é normal, mas nesta faixa etária, porém, também já é possível observar situações que fogem do esperado e que podem necessitar de intervenção. Quando a frequência for muito alta, com diversas crises no mesmo dia ou crises que persistam por meses, o ideal que você converse com seu pediatra.

Problemas de comportamento estão direta e/ou indiretamente relacionados ao repertório comportamental dos pais. As famílias de crianças com problemas de comportamento são caracterizadas por maior desorganização, por possuírem mais problemas emocionais ou de comunicação e por apresentam comportamentos e modelos “indesejáveis” para o desenvolvimento social e cognitivo das crianças.

Mesmo que no segundo ano a criança adquira maior autonomia física, psicologicamente ainda precisa de muito apoio.

Sentir-se impotente frente à birra é normal, pois trata-se de um comportamento que exigirá um manejo contínuo e consistente para apresentar resultados e, mesmo assim, com o tempo voltará a acontecer. Estes avanços e retrocessos fazem os pais se perguntarem se estão sendo bons pais. Casais unidos tendem a atravessar com menos ansiedade este momento.

Para ajudar seu filho, é necessário estar internamente disponível para lidar com a vicissitudes do desenvolvimento e, com isto, ajudar a criança a integrar os sentimentos antagônicos dentro de si e incentivar sua independização, sem deixar de oferecer um porto seguro onde encontrem apoio quando precisarem.

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FOTO COLUNARaquel Suertegaray é psicóloga e mãe da Karol, de 10 anos, uma menina inteligente, esperta e linda que foi adotada aos seis anos de idade. Ela é formada pela PUC-RS e é especialista em Infância e Adolescência e em Avaliação Psicológica pelo Instituto Contemporâneo de Psicanálise e Transdisciplinaridade de Porto Alegre. Já trabalhou como psicóloga de abrigos infanto-juvenis e atualmente atua em consultório particular e como psicóloga escolar. Sob sua responsabilidade também está a Escola Pirlimpimpim de Educação Infantil, da qual é dona e diretora há dois anos.