Crianças terceirizadas – o que significa isso exatamente?

Crianças terceirizadas – o que significa isso exatamente?


30 de maio de 2014

criancas terceirizadas

Hoje, tem mais uma edição da coluna Psicologia Infantil, escrita pela psicóloga Raquel Suertegaray. Nessa sua oitava participação aqui no blog a Raquel irá abordar um assunto bastante polêmico e muito em pauta ultimamente: a terceirização infantil.

Entenda, através da visão da psicóloga, o verdadeiro significado e importância dessa expressão e as reais implicações desse comportamento dos pais.

 

Crianças terceirizadas – o que significa isso exatamente?

Por Raquel Suertegaray

Tenho acompanhado, há algum tempo, em diversos lugares, uma discussão sobre “as crianças terceirizadas”. Um tema delicado, que nem sempre me parece abordado com a profundidade que merece e que acaba, por vezes, sendo avaliado de forma parcial e criando estereótipos que dificultam ainda mais a árdua tarefa da maternidade.

É importante definir a que o termo CRIANÇAS TERCEIRIZADAS se refere. No meu entendimento, terceirizar um filho implica em transferir para outras pessoas a tarefa de cuidar, preocupar-se e responsabilizar-se por ele. Nestes casos, ocorre um afastamento profundo e os vínculos, quando se estabelecem, se estabelecem de forma falha.

Acho importante enfatizar que falar de crianças terceirizadas é muito diferente de falar de pais que optam por colocar um filho na escola ou deixá-lo algumas horas do dia com uma babá ou familiar. O termo me parece inadequado (para não dizer forte e agressivo) e incapaz de traduzir a forma como a grande parte das famílias de hoje em dia se organiza para manter sua vida profissional, ampliar suas possibilidades financeiras e também assumir a maternidade/paternidade.

Enquanto psicóloga especialista em infância e diretora de escola infantil, penso que algumas crianças são terceirizadas sim, porém, penso que o que define isto não é a presença ou a ausência da mãe ou do pai com ela o tempo todo.

Vejo mães que dedicam-se integralmente a seus filhos, largam seus empregos e passam a ser apenas mães. Porém, amparam os cuidados com seus filhos em manuais frios, que ensinam um passo a passo do que deve ser feito, controlam rotinas no relógio de forma rígida e não são capazes de entrar em contato com seus bebês. Aqui, embora disfarçada, podemos pensar em uma terceirização, pois no início a empatia é substituída por manuais e tão logo as crianças crescem um pouco, recursos como TV, DVDs “educativos”, tablets e smartphones passam a ser recursos triviais.

É claro que também observo, da mesma forma, pais que terceirizam os filhos através de escolas/creches ou em casa com babás, em nome de suas vidas profissionais ou de sua tranquilidade, o que também é muito preocupante.

Observa-se que em alguns casos há uma grande dificuldade por parte dos pais em assumir os filhos em sua completude, o que inclui noites mal dormidas, preparo de alimentos, tempo para brincar, conversar, suportar lágrimas e manhas sem sucumbir (necessariamente) à TV, a recursos virtuais a chupetas e assemelhados.

O que chamamos de “lado B” da maternidade, ou seja, os momentos difíceis, costumam denunciar estes casos. A terceirização não necessariamente é causada por desamor, na maior parte das vezes até não é o caso, mas sim por uma grande limitação em abrir mão do conforto da vida que se tinha antes dos filhos. Ou seja, busca-se o prazer de ter filhos, mas se isola o desprazer, como se os dois não fizessem parte do mesmo pacote, que é uma característica comum das relações na atualidade.

Um hábito que vejo se tornar mais comum na atualidade, especialmente entre mães de classes mais abastadas, é o de sair da maternidade com um aparato que envolve enfermeira e babás, cuidadoras que se revezam dia e noite. Como já repeti à exaustão, é complicado julgar, mas penso que vale refletir sobre isso. Nos primeiros meses de um bebê, é fundamental que a criança viva em um estado de extrema intimidade com a mãe e, para isto, por mais exaustivo que seja, é importante que a mãe abra um pouco mão de si mesma em prol de seu filho.E aí eu questiono: Será possível o estabelecimento deste quadro com a presença constante de um terceiro?

É papel da família, no mínimo, gerenciar e acompanhar de perto a atuação dos cuidadores e é indispensável que os pais tenham contato diário com seus filhos e que participem de suas rotinas: sabendo o que e como comem, tendo contato pele com pele na hora do banho e de trocas, conversando, segurando suas mãos, os fazendo dormir e cuidando de suas doenças. Ok, você não poderá acompanhar todas estas etapas diariamente? Mas será que está participando da vida de seu filho de forma satisfatória?

Nestes e em muitos outros casos, aprendi a ter respeito, pois muitas vezes estas situações retratam pessoas que dentro de suas limitações fazem o melhor. Porém, este distanciamento tem seu preço.

Há situações em que apenas teremos crianças manhosas, com dificuldade de lidar com limites e frustrações, mas que por alguma razão não se transformarão em monstruosos adolescentes e adultos sem limites. Muitas pessoas são resilientes por natureza e lidam com a falta com o que o meio oferece.

No entanto, nunca sabemos as cicatrizes que terceirizar os filhos pode causar. Muitos casos de delinquência juvenil, quando observados de perto, mostram crianças que foram absolutamente solitárias, criadas sem vínculos satisfatórios e, por viverem sob um abandono dilacerante, não aprenderam a valorizar “o outro” e não pensam que as pessoas devam ser respeitadas.

Saliento, assim, que crianças efetivamente terceirizadas são aquelas que possuem vínculos enfraquecidos com seus pais e que são verdadeiramente entregues a babás, escolas ou familiares, e não crianças pelas quais seus pais se responsabilizam, se envolvem e criam vínculos fortes e sadios.

Estas, terceirizadas de verdade, possivelmente serão crianças com uma relação confusa com figuras de autoridade, pois, ao longo de suas vidas, exerceram sobre ela autoridade pessoas com quem ela não possuía vínculos afetivos suficientes, de forma que a introjeção desta figura não se dará de forma adequada e, com isto, a noção de limites também tenderá a ser falha.

Neste contexto, que é completado com níveis elevados de solidão e sentimento de menos valia, é provável que tenhamos aumento em patologias da família da depressão e do vazio, onde as pessoas não encontram satisfação em nada, passam a vida em busca de algo que nunca encontram e tendem, consequentemente, a um maior índice de uso de drogas e de transgressões.

Meu universo (clínica – escola – vida real – redes sociais) apresenta todo o tipo de pais, desde os que citei acima, que muito me preocupam muito, até aqueles que escolhem ter filhos e que, apesar de lançar mão de uma rede de suporte para dar conta desta responsabilidade e também de sua vida profissional, não os terceirizam.

Não concordo que crianças que precisam ir para a escola precocemente ou ficar com babás sejam necessariamente terceirizadas. Testemunho diariamente casos que passam muito longe disto. Testemunho pais que peregrinam pelas escolas para escolher a que mais se adequa a seu jeito de pensar, conversam com amigos, com profissionais para decidir qual será a melhor forma de seu filho ser atendido nas horas que estarão no trabalho, ou escolhem suas babas de forma criteriosa e atenta. Quando termina seu expediente correm para os filhos e no dia seguinte as crianças contam com uma rica convivência familiar para compartilhar com a babá ou com os colegas.

Na escola, vejo estes pais, sendo plenos em sua tarefa parental, escolhendo, considerando o que vai ser mais adequado para seus filhos e participando intensamente da vida da criança, iniciando com uma adaptação gradativa, onde a mãe tem a possibilidade de se vincular a equipe da escola e ensinar para esta as sutilezas dos cuidados de seus bebês. Na escolha da escola a família tem a possibilidade de escolher um local que respeite as individualidades da criança e ofereça afeto sem que este concorra com o afeto familiar, pois este é intransferível.

Resumindo, terceirizar os filhos não pode ser simplesmente atribuído a falta de tempo, amor ou conhecimento e sim à falta de vínculo. O vínculo que é estabelecido, quando forte, é inabalável e permitirá aos pais avaliar as necessidades de seus filhos e, sempre que necessário, fazer rearranjos na sua vida profissional, ou então, em outras situações, simplesmente “falhar”, sem que isso represente abandono, pois seus filhos poderão passar por isso sem que o episódio gere grandes traumas.

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