Parto em casa

Depoimento – Relato de parto domiciliar


23 de setembro de 2013

Hoje, na série Partos pelo Mundo, aqui do Macetes de Mãe, trago o relato de um parto domiciliar que aconteceu aqui no Brasil, no Rio de Janeiro. Ele foi escrito pela leitora Keli Wolf. Boa leitura!

Relato de parto domiciliar
Por Keli Wolf

Sempre disse que jamais teria cesárea porque tenho pavor de cirurgia, e muito menos teria um parto domiciliar porque achava que era coisa de maluco.

Na minha primeira consulta com a obstetra, com três semanas de gestação, a primeira coisa que perguntei foi se ela fazia parto normal. Hoje me recordo que ela respondeu que sim, claro, mas desviou o olhar nesse momento. Fez uma cruzinha no canto superior da minha ficha e hoje sei que era para não esquecer que essa paciente ia dar trabalho. Em cada consulta mensal, eu sempre frisava que queria parto normal. E ela sempre dizia rindo: “Vamos ver.  Será parto normal se tudo continuar bem e você não mudar de ideia até lá”.

Minha gestação transcorria muito bem, eu estava ótima, sem enjoos ou qualquer incômodo. Ganho de peso dentro da normalidade, linda e maravilhosa! No sétimo mês aconteceu a primeira desculpa para a médica fazer cesárea: cordão enrolado no pescoço. Na época, ela disse: “Vamos acompanhar, mas se permanecer assim, não poderemos fazer parto normal”.

No oitavo mês, quando fiz o exame da glicose, o resultado deu um pouco alterado. Pronto, ela acabava de achar a segunda desculpa. Pegou o calendário, analisou e disse com toda a firmeza: “Teremos que fazer seu parto dia tal porque esta criança está em meio a muito doce e você está fazendo mal para ela. Ela pode nascer com demência e não é isso que você quer, não é?”. Segundo ela, não havia nenhuma chance de ser parto normal. Pronto, saí de lá com a data marcada para fazer a cesárea. Simples assim.

Eu sabia que estava bem, sentia que minha filha estava ótima, e não aceitei o fato de um simples exame de glicose me impedir de ter parto normal. Pesquisei muito sobre as reais indicações para parto cesárea, tanto que poderia descrever todas as desculpas que os médicos usam para não realizar o parto normal, mas como não é objetivo deste relato, vou me ater à minha história. Conclusão: Percebi que teria que ir em busca de um médico que realizasse parto normal, mesmo que tivesse que pagar, tendo plano de saúde.

Quando você começa a pesquisar sobre partos humanizados, você descobre vários grupos e palestras e as informações vão surgindo. Até que descobri uma lista na internet com vários médicos e parteiras que realizavam parto normal. Me consultei com dois, mas o valor cobrado era absurdamente alto. E minha indignação ia só aumentando.

Neste momento, decidi que não voltaria mais na minha antiga obstetra, que iria esperar a bolsa romper e só assim iria para o hospital e teria minha filha com o médico de plantão (que aliás, em se tratando de parto normal, sabe muito mais que muito obstetra que só realiza cesárea). Mas também, descobri que muitos usam a desculpa de que não está tendo dilatação para também escapar das horas tomadas por um parto normal. Não queria passar por isso, logo nesse momento tão sublime.

Foi aí que percebi que se quisesse realmente ter minha filha de parto normal teria que ser à moda antiga, com uma parteira. Parti para a parte da lista onde continham os nomes das enfermeiras obstetras que realizavam parto no Rio de Janeiro.

Liguei para a primeira e quem atendeu foi a filha dela. Ela estava atendendo uma gestante em trabalho de parto desde a noite anterior. Ok! Depois eu ligo…

Liguei para a segunda e, como ela já tinha três gestantes para o mês de novembro, não poderia me atender porque correria o risco de ter dois bebes nascendo no mesmo dia. Caramba! Então é verdade que elas trabalham mesmo!

Liguei para a terceira e consegui marcar um encontro na minha casa.

Foi numa tarde de domingo, apenas eu, meu marido que me apoia em todas as minhas decisões, uma amiga e a parteira com a qual tive a certeza de que teria o meu filho.  Tenho que deixar claro que antes de pensar numa parteira eu vi milhões de vídeos de parto domiciliar para ter certeza de que queria isso que eu queria. Quando vi que, em vários lugares do mundo, é super normal parir em casa e hospital é para quem está doente, sabia que estava fazendo a escolha certa.

A partir daí, e até o bebe nascer, tive toda a orientação necessária através de consultas semanais na minha residência. Ouvia o coração do bebe e acompanhava o crescimento da barriga. E o cordão umbilical? Não importa, não é empecilho para parto normal. Ela havia feito parto onde o bebe estaria com várias voltas no pescoço. E se o bebe virar na hora? Não importa, ela sabia como revira-lo. E se isso? E se aquilo? Ela tinha resposta para todas as minhas questões e o pior, ou melhor, respostas claras e simples, como deve ser um parto e sempre foi há milênios.

Eu tinha completado 38 semanas exatamente naquele dia, uma quinta feira. Me lembro que passei as últimas horas trabalhando num cálculo (sou contadora), coisa que adoro fazer, mas nesse dia tudo parecia me cansar. Já estava em casa, de “férias”. Quando deu 19 horas, senti uma dorzinha na barriga, mas pensei que fosse do cansaço do dia. Uns quinze minutos depois, mais outra dorzinha. Daí pensei: devem ser as contrações de teste que a parteira me explicou direitinho. Fiquei tranquila e me perguntei: será que é exatamente como as pessoas contam, de tempo em tempo certinho? Fui procurar um relógio para verificar. Não era que estavam espaçadas de 30 em 30? Comecei a rir sozinha, mas não estava acreditando que o dia havia chegado. Me contive e esperei meu marido chegar do trabalho, às 22 horas.

Contei para ele que estava com contrações e não sabia se eram as de verdade. Primeira coisa que ele falou foi: “Liga pra parteira, ora bolas!”. Mas como eu sabia que todo o trabalho de parto duraria horas, e já estava tarde, não queria incomodar (fiquei numa calma que não era a minha). A pedido do meu marido, liguei apenas para informá-la do que estava sentindo. Ela fez algumas perguntas, disse não parecer com contrações de teste e avisou que iria dar um pulinho na minha casa, para me observar. Ainda, pediu para que fosse descansar, mas como sabia que ela estava a caminho, fiquei acordada.

Ela chegou as 01:00 da manhã, escutou o bebe e observou as minhas contrações e as minhas caretas. Avisou que realmente a Júlia estava a caminho e disse que não iria adiantar ficar lá porque iria demorar algumas horinhas mais. Foi pra casa na promessa de que iria retornar as 10:00 da manhã.

Confesso que fiquei preocupada. Como assim, eu em trabalho de parto e sozinha? Mas sabia que iria demorar e de tantos relatos que li, só me lembrei de mulheres que nessa espera foram caminhar na praia, namorar, então resolvi dormir. Não consegui dormir profundamente porque acordava a cada contração, mas pelo menos fiquei deitadinha, imaginando que em poucas horas a minha filha estaria aqui.

Acordei cedinho, tentei manter minha rotina (imagina!) e liguei para a minha amiga que iria acompanhar o parto. Ninguém mais sabia, nem meus pais, porque tenho certeza que chamariam a policia! Até hoje me chamam de maluca.

Quando foi 11 horas, a parteira chegou de mala e cuia, literalmente, com todos os seus aparatos, inclusive uma piscina inflável. Até esse momento, as contrações estavam suportáveis e foi feito o primeiro e único exame de toque. Estava com zero de dilatação. Como assim? Desde as 7 da noite anterior e nada? Ai meu Deus… não estou tendo dilatação! Era só o que eu pensava.

“Calma, você acha que eu cheguei agora por que?”, disse para mim a parteira. “Agora que o show vai começar”, ela complementou. Dito e feito. As contrações começaram a doer com vontade e eu comecei a dilatar. Como as parteiras não fazem o exame de toque toda hora, não sei precisar como foi o andamento da minha dilatação. Apenas acompanhávamos a descida do bebe através da posição do coração do bebe e com isso sabíamos que tudo estava correndo bem. Cada vez que ela escutava o coraçãozinho, ele estava mais pra baixo. Não foi necessário mais nenhum exame de toque.

Almoçamos normalmente, eu comi chocolate, não precisei fazer restrição de nada. Colocamos as músicas que eu havia separado para este momento, tiramos milhares de fotos, e as dores iam aumentando. A cada contração, eu perguntava se iria doer mais do que isso. A parteira apenas ria e dizia que eu já sabia que ia ser assim.

Quando deu 14 horas, enchemos a piscina com água quente e foi quando eu percebi uma ligeira melhora nas contrações, ligeira mesmo. Fiquei na banheira até as 17 horas, urrando de dor a cada contração e morrendo de medo de algum vizinho bater à minha porta, pois moro em apartamento. Mas até aqui as dores estavam “pinto” perto do momento final.

Às 17 horas, não quis mais ficar na banheira e tudo me irritava. Me deu um surto de não quero mais, me leva pro hospital, tá doendo muito! A parteira já havia me informado de que quando a dor estivesse insuportável e eu pedisse para ir ao hospital é porque estaria chegando a hora. Elas chamam de partolândia. Eu olhava para a minha amiga e pedia “Me leva!”. Olhava para o meu marido e pedia “Me leva!”. Todos falavam “Calma, tá quase!”.

Queria deitar na minha cama, mas as dores só aumentavam. Além disso, deitada é pior para a passagem do bebe, mas eu estava fraca de tanta dor, estava no meu limite. Fui tomar banho para ver se a água morninha minimizava, mas nada adiantou. Pedia “Por favor, me leve para um hospital.”. Eu não aguentava mais. E só pensava nos vídeos que assisti onde mulheres estavam rindo, dançando…

Foi aí que pedi para sentar no banquinho próprio para parto de cócoras. Não demorou muito e já dava para ver o cabelinho dela, todo mundo rindo mas eu não acreditava. Achava que estavam me enrolando. A parteira falava: “Põe a mão para você sentir.”. Mas e não queria, estava doendo muito. Acho que foram uns cino minutos nessa agonia até que senti uma contração muito forte e a cabeça da minha filha saiu primeiro. A parteira me avisou que na próxima contração não era para fazer força que o corpinho dela ia ser expulso normalmente. Não escutei nada do que ela disse. Era tanta dor que continuei fazendo força mesmo sem ter contração. Resultado: ela saiu igual um foguete!

Mas era linda! Limpinha, toda perfeitinha e quase não chorou. Foi imediatamente para os meus braços e os braços do pai que estava atrás de mim para me dar apoio. Foi logo procurando o meu seio para sugar e ficamos assim por alguns minutos, até o cordão umbilical parar de pulsar e aí sim ser cortado. Tudo como mandava o figurino. Dessa maneira ela pode ir respirando aos poucos sem susto e sem precisar de aspiração ou outros procedimentos que são realizados no hospital, como colírio ou vitamina K.

Na mesma hora que a minha filha nasceu, toda a dor e fraqueza passaram e nada mais importava. Sentia uma leve ardência mas não sabia o que era. Depois, fui saber que devido a tanta força que fiz, o rasgo no períneo foi grande mas como em parto natural não há o corte antes da hora para facilitar, a cicatrização também é diferente porque a ruptura ocorre na direção das fibras, diferente se fosse um corte onde as fibras são rompidas.

Depois que a parteira me deu os pontos, deitamos na minha cama e ficamos até o dia seguinte. Não preciso nem dizer que eu não dormi nadinha porque ficava a admirando e não acreditando que havia conseguido.

O mais importante de tudo: meu parto durou das 19h de quinta até as 17h30min de sexta. Com esse tempo todo, nunca em um hospital eu conseguiria ter parto normal. Já na madrugada diriam que eu não estaria com dilatação e me levariam para uma cesárea. Então meninas, meu conselho, se o sonho de vocês é ter parto normal, não aceitem qualquer diagnóstico e acreditem na capacidade do seus corpos.

Espero ter ajudado com o meu relato para o parto de vocês.