Dicas para a adaptação escolar | Macetes de Mãe

Dicas para a adaptação escolar


31 de Janeiro de 2014

adaptaçao escolarOlá mamães! Atendendo a pedidos, hoje, vou abordar um tema que aperta o coração daquelas que optam por colocar os filhos na escola: o período de adaptação. Há 8 anos acompanho estes processos  (tenho uma escola infantil) e o que vejo é que eles são muito particulares, variam por inúmeros fatores, mas quando não são interrompidos e a escola foi escolhida atendendo as expectativas da família, sempre terminam dando certo.

Adaptação é um período que precisamos para nos acostumar a qualquer situação nova que enfrentamos na vida e não se refere apenas à entrada e berçários, creches ou escolas. Por envolver um encontro com o desconhecido, desperta medo, mas também vem carregada de expectativas. Com o medo, uma infinidade de sentimentos vem na carona, tanto para a criança, quanto para a família, e com as expectativas cria-se uma gama de idealizações.

Quando o assunto é a entrada na pré-escola, falar em adaptação torna-se inevitável, pois esta envolve sentimentos despertados nos pais, na criança e na equipe que vai receber a criança. Este processo pode parecer simples para quem não está envolvido, mas para quem o vive ele é um obstáculo que por vezes parece intransponível. O coração das mamães, muitas vezes, fica apertadinho e a cabeça inundada de perguntas: “será que vão cuidar bem dele?”, será que ele vai dormir?”, “como vai ser na hora de comer”, “ e quando ele chorar?”…

Do lado dos pais vem a culpa por deixar aquele pedacinho de gente num lugar desconhecido, cheio de crianças. Há o medo que não cuidem bem dele, a fantasia de o estarem abandonando, sendo egoístas. Do lado do bebê/criança, o medo de estar sendo deixado, de não saber para onde vão os pais quando somem de seu campo de visão e a insegurança gerada por aquele novo, atraente e assustador universo que se apresenta. E, por fim, do lado dos educadores, o medo de não atender as expectativas dos pais e de não serem capazes de aplacar a angustia do bebê.

A adaptação costuma ser mais fácil ou mais difícil dependendo bastante da criação até aquele momento, ou seja, ela reflete um pouco o nível de dependência ou independência da criança.

A idade também costuma fazer diferença. Bebês em torno dos 6 meses costumam adaptar-se com muita facilidade, porém, as mamães destes bebês costumam sofrer por verem seus filhos como seres indefesos. E nesta idade, a dica é transmitir às educadoras peculiaridades sobre o bebê, aqueles detalhes que a mãe conhece e que farão toda a diferença na hora que a profe for fazer dormir, comer ou acalmar.

Crianças maiores, entre 1 e 2 anos e meio, costumam ter adaptações mais lentas, principalmente se estão muito grudadas às suas mães (ou uma figura que seja responsável por seus cuidados), pois estas costumam vincular seu bem estar a presença desta pessoa. Uma forma de facilitar é, alguns meses antes da entrada na escola, reforçar a independência da criança, estimulando sua potência em relacionar-se e conviver com algum nível de frustração.

Pequenas frustrações possuem um papel bastante importante na vida das crianças, pois elas preparam a criança internamente para lidar com as questões da vida normal, como dividir atenção e brinquedos, esperar um pouco para ser atendido, abrir mão de algumas coisas. Uma criança que tem tudo o que quer, na hora que quer, que não pode chorar, terá mais dificuldade e sofrerá mais.

Uma escola onde as pessoas mantenham uma relação de proximidade permite que a criança sinta uma continuidade do ambiente doméstico no qual estava inserida até então e esta familiaridade facilita a transição. Desta forma, a criança pode manter suas referências iniciais, com a vantagem de encontrar outras crianças como ela, para através da troca e do lúdico descobrir um novo mundo: o mundo das relações, das amizades e cheio de novidades e novas experiências.

Na hora da escolha da escola, como em todas as escolhas importantes na vida, os pais devem ficar muito atentos a seus sentidos e observar alguns aspectos que podem fazer toda a diferença na hora da decisão. Por exemplo: se as crianças que estavam na escola pareciam felizes e bem cuidadas, se os cuidadores transmitiam segurança e tratavam as crianças com carinho e se o trânsito na escola foi tranqüilo e transparente.

É importante que os pais optem pela escola com a qual mais se identificaram, onde se sentiram seguros para deixar seu maior tesouro, pois esta confiança fará toda a diferença na adaptação. A criança precisa sentir que os pais estão tranqüilos quanto à capacidade da escola em cuidar com carinho e segurança de seu filho, mesmo que estejam de coração partido, achando que ele ainda é tão pequenininho.

Uma entrevista com a professora antes da adaptação é bastante indicado também, pois assim a mãe cria um pouco de intimidade com a pessoa a quem entregará seu bebê/filho e a educadora tem a possibilidade de saber quem é esta criança, do que gosta, além de dar dicas de como a mãe deve reagir durante o processo para facilitá-lo.

Outra atitude que faz muita diferença é os pais “entregarem” o filho para a professora, com convicção e confiança. A criança, independente da idade, percebe com extrema facilidade a ambivalência que existe quando a mãe diz “olha que escola legal”, mas se agarra a ela como se quisesse proteger de um perigo. Lembre-se sempre: a mensagem falada é uma e a linguagem corporal é outra. E ambas devem estar em sintonia.

A possibilidade de estar junto, dentro da sala em um primeiro momento também é muito importante. Essa experiência permite à mãe ver como as coisas acontecem de fato, como as educadoras cuidam e se relacionam com a criança. Entretanto, aqui, uma observação importante: na sala a “autoridade” é a professora. Ela deverá tentar resolver as questões com a criança e, se eventualmente não for possível, ela convida a mãe a se envolver (e não a mãe se adianta e toma as rédeas da situação). A mãe deve agir como uma figurante, sendo uma referencia para a criança, mas deve evitar se envolver nas brincadeiras e cuidados (claro, pode conversar com as crianças, retribuir carinho, mas de forma passiva).

Uma coisa que não deve ser esquecida é que jamais, em hipótese alguma, você poderá brincar com a criança dizendo que vai deixa-la ali, que não virá buscá-la, mesmo que ela tenha feito algo que você considera horrível. A criança tem o pensamento concreto, ela não sabe relativizar ou encarar como uma ironia. Ela ficará muito insegura. Você deve estar pensando que é óbvio, mas não imagina o quanto é comum esta frase!

Outra dica é evitar sair escondido, dizer que vai permanecer na sala e sair de fininho. Confiança não se estabelece com mentiras, se você vai sair, diga “até logo, mamãe vai sair um pouquinho e depois volta buscar você! Agora a professora vai cuidar de você”. Possivelmente seu filho vai chorar nesta hora, é um protesto, ele tem direito de fazer, mas ele sentirá abandonado e enganado se você disser que vai ficar e sair!

É comum que, neste momento, da adaptação, surjam sentimentos contraditórios. Ao mesmo tempo em que as mães desejam ver seu bebê entrar feliz e se jogar nos braços da professora, sentem uma profunda dor quando isto acontece. Experimentam um turbilhão de sentimentos, ficam culpadas, como se estivessem abandonando o filho e causando traumas irreparáveis, descobrem que não são insubstituíveis e morrem de ciúmes, mas sentem-se orgulhosas por apresentar ao mundo seu pequeno tesouro e com o tempo passam a vibrar com as novidades que surgem dia após dia.

Para algumas crianças será mais fácil, para outras mais difícil, e a melhor forma de facilitar esta experiência é transmitir segurança, através da confiança nos profissionais e do estímulo ao desenvolvimento da autonomia. Passada a turbulência inicial, começam a aparecer às conquistas e as novas aquisições.

Será normal a criança chorar na hora que a mãe sair da sala ou quando deixar de entrar. A maioria chora, mas logo para. A professora deve sempre, nessas situações, tentar acalmar a criança e, caso ela não consiga e fique claro o seu sofrimento, chamar a mãe (se a escola for pautada no respeito com a criança é isso que acontece). Mas lembro que nem todo choro representa sofrimento que não se possam suportar.

Não podemos esquecer que crianças pequenas possuem pouco ou nenhum repertório verbal, assim, o choro pode ser um protesto, uma forma de manifestar desejo de continuar no colo da mãe, mas não significa que ela não irá se divertir na escola. (lembram quando namoravam, como era ruim a hora de desligar o telefone ou de se despedir? Ficávamos no “desliga você, não, desliga você”, ou, “mais um beijinho, só mais um…”. Isso é parecido com a separação na porta da escola.).

Mamães e papais, tenham em mente que a escola será boa para seu filho. Ele aprenderá a se socializar, a ter maior autonomia, a resolver pequenos problemas e irá brincar muito e fazer vários amigos e esta é uma das maiores riquezas da nossa vida. Além disso, vocês terão mais tempo para cuidarem de si, do casamento, para trabalhar, estudar ou seja o que for que desejem, e isto é saudável. E não esqueçam nunca que: à separação todos nós sobrevivemos e ela é inevitável ao longo da vida. Frente à ela, só podemos nos agarrar à certeza de que é algo passageiro e que o reencontro virá no final do dia!

Saiba um pouco como foi a adaptação escolar por aqui:

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FOTO COLUNARaquel Suertegaray é psicóloga e mãe da Karol, de 10 anos, uma menina inteligente, esperta e linda que foi adotada aos seis anos de idade. Ela é formada pela PUC-RS e é especialista em Infância e Adolescência e em Avaliação Psicológica pelo Instituto Contemporâneo de Psicanálise e Transdisciplinaridade de Porto Alegre. Já trabalhou como psicóloga de abrigos infanto-juvenis e atualmente atua em consultório particular e como psicóloga escolar. Sob sua responsabilidade também está a Escola Pirlimpimpim de Educação Infantil, da qual é dona e diretora há dois anos.