Há pais e pais

Há pais e pais


17 de Abril de 2014

Ontem acordei cedo. Léo me tirou da cama 6h da manhã. Ele voltou a dormir em seguida, mas eu fiquei lá, rolando de um lado para o outro. Como estava sem fazer nada, resolvi dar uma passadinha rápida no Facebook. Assim que abri a página, fui surpreendida pela mensagem que uma amiga havia deixado para outra amiga, dando os pêsames pela tragédia que havia ocorrido com o sobrinho e afilhado dela (da amiga da minha amiga). Na hora, essa mensagem me chamou a atenção, pois vi que envolvia uma criança. Fui investigar o que havia ocorrido e descobri que se tratava do caso do menino Bernardo, morto, segundo as investigações levam a crer, pelo pai e pela madrasta no interior Rio Grande do Sul dias atrás.

bernardo
Bernardo. Image: site G1

Quanto mais eu lia sobre o assunto, mais horrorizada, chocada, indignada eu ficava. O menino tinha apenas 11 anos e era uma criança doce. Ele havia perdido a mãe há quatro anos (ela suicidou-se). No início desse ano ele procurou o poder judiciário, para buscar ajuda, acusando seu pai de abandono familiar, mas seu caso foi tratado com desdém. De lá para cá, só Deus sabe o que se passou. E hoje todos nós sabemos a tragédia que aconteceu.

roger_2
Roger. Imagem: site G1

Logo depois que li essa notícia horrenda, li outra que também me chamou bastante a atenção, mas pelo motivo contrário. O site do G1 noticiava que ontem, dia 16/04, dava alta de um hospital, também do Rio Grande do Sul, o menino Roger, de quase sete anos, e que, desde poucos meses de vida, mora com a mãe em alas pediátricas de hospitais de Porto Alegre. Roger é portador de síndrome de down e sofreu sérias complicações intestinais no seu primeiro ano de vida, o que levou à necessidade da retirada de parte do seu intestino. Como sem parte do intestino Roger não podia se alimentar, sua alimentação passou a ser exclusivamente via dieta parenteral (dieta pela veia), o que exigia que ele vivesse no hospital, sem nunca ter tido a chance de ir para casa depois da sua cirurgia.

E nesse tempo todo, sempre esteve ao seu lado sua mãe, a dona Eva, uma senhora simples, de 46 anos de idade, que manteve o sustento da família fazendo e vendendo peças de crochê para pessoas conhecidas.

Hoje, lendo essas duas notícias tão antagônicas e tão fortes em significado, não consigo parar de pensar na importância de ser pai e mãe. Não consigo parar de pensar como há pais e mães que agem de formas tão distintas, como há seres humanos capazes de tanto amor e tanto cuidado e outros capazes de cometer atrocidades tão absurdas.

Enquanto o médico bem instruído e bem formado assassinou seu próprio filho (como disse, tudo leva a crer que foi ele e a madrasta da criança, apesar disso ainda não estar confirmado), uma senhora simples fez milagres para sustentar a família sem sair do lado do seu filho que exigia cuidados especiais. E hoje, enquanto um está escondido pela própria justiça para não sofrer as consequências dos seus atos, a outra comemora o fato de poder celebrar o sétimo ano de vida do seu filho em casa, mesmo  sendo em um local muito simples, fruto de doações e da ajuda alheia.

Essas duas notícias me fizeram parar para pensar que, para sermos bons pais e mães precisamos, antes de tudo, sermos bons seres humanos. Algo óbvio, mas que às vezes nos esquecemos por completo. Se não tivermos um bom coração, uma mente sã e equilibrada, dificilmente alcançaremos todo o nosso potencial como pais. E cabe a nós buscarmos essas qualidades pessoais para darmos o que de melhor nossos filhos merecem, que é atenção, carinho, proteção e cuidado. Coisa que a dona Eva, apesar de todas as dificuldades, conseguiu oferecer com maestria.

Assim, termino esse post triste por tudo aquilo que não foi feito pelo menino Bernardo, mas tentando, de alguma forma, ajudar o menino Roger. E para isso, peço a ajuda de vocês também, principalmente de quem é de Porto Alegre.

Para montar a casa nova da família de Roger alguns médicos do hospital onde ele esteve internado lançaram uma campanha nas redes sociais, buscando doação de todo tipo de utensílios domésticos e também de materiais de limpeza. Todas as doações podem ser feitas diretamente no Hospital da PUCRS (Av. Ipiranga, 6690), no Serviço de Pediatria, localizado no 5º andar do prédio. Para objetos de maior volume como móveis e eletrodomésticos, os interessados podem entrar em contato para combinar uma data para entrega. Informações podem ser obtidas no telefone (51) 3320-3000, ramal 2270.

Agradeço a todas que puderem colaborar o Roger. E agradeço a todas que puderem orar pelo Bernardo.