Hipermobilidade articular ou junta mole - como esse problema pode atrasar o desenvolvimento do seu filho

Hipermobilidade articular ou junta mole – como esse problema pode atrasar o desenvolvimento do seu filho


24 de Maio de 2016

Há alguns dias, fiz um vídeo para o Canal Macetes de Mãe do YouTube falando sobre o tanto que as pessoas enchem o nosso saco quando acham que, pela idade, nossos filhos já deveriam estar andando, mas, na verdade, ainda não deram os seus primeiros passinhos. Nesse vídeo, eu disse que a criança não é obrigada a fazer 1 ano e começar a andar. Que muitas crianças andam bem depois disso (Leo andou com 1 ano 3 meses e meio), que cada criança tem seu tempo e que não tem nada de errado nisso.

Mas nesse vídeo, uma seguidora deixou um comentário que não passou despercebido. Ela me contou sobre sua filha que, por demorar um pouco mais que o “normal” para andar acabou chamando a atenção e, após investigação, identificou-se que ela sofre de um problema chamado hipermobilidade articular ou “junta mole” (e, em função desse problema, seu desenvolvimento motor estava, realmente, um pouco atrasado).

Ou ouvir essa história, convidei a mãe a me enviar um relato detalhado sobre o problema e sobre a recuperação da Sophie e hoje compartilho ele com vocês.

Informações muito interessantes para mães que desconfiam que seus filhos estão demorando demais para andar e que podem sim ter algum probleminha que esteja atrasando esse desenvolvimento. Boa leitura!

hipermobilidade articular
Photo Credit: Philippe Put via Compfight cc

Hipermobilidade articular ou junta mole 

Por Fernanda Alves

Sophie sentou com 7 meses e 2 dias, o que é considerado normal. Quando ela completou 8 meses, retornei ao trabalho e a coloquei na creche, onde ela ficava 10 horas por dia, de segunda à sexta-feira. O motivo dessas longas horas na creche era o fato de eu e meu marido trabalharmos fora e não termos familiares que pudessem nos ajudar nos cuidados com a pequena (moramos na Califórnia, longe da família).

Então, Sophie fez 10 meses e ainda não engatinhava. Mas confesso que eu não fiquei muito preocupada com isso, afinal, muitos bebes pulam essa fase de engatinhar e passam a andar direto.  Mas, para incentivá-la a engatinhar, nós brincávamos muito no chão com ela, deixando brinquedos que ela gostava mais distantes, para que assim ela se sentisse motivada a ir buscá-los. Mas não, isso não acontecia! Ela chorava pedindo o brinquedo e, se não déssemos pra ela, ela simplesmente desistia e procurava por algo que estivesse próxima a ela. Ela também gostava de se arrastar sentada para alcançar as coisas, mas engatinhar mesmo não fazia.

Passamos a escutar muito comentários de que ela não engatinhava porque a carregávamos muito ela no colo, o que não era verdade. Desde que Sophie sentou, ela sempre preferia ficar no chão brincando, muito mais que no nosso colo.

Finalmente, aos 12 meses, ela engatinhou, e os comentários agora eram referentes a ela não estar andando. Escutávamos frequentemente “ela ainda não anda?” Não, Sophie estava feliz engatinhando e não demonstrava nenhum interesse em apoiar-se em mesas e cadeiras para levantar, muito menos andar. Quando a colocávamos em pé, segurando numa mesinha, ela chorava muito e as pernas eram bastante trêmulas. De início, pensamos que ela chorava por medo, porque Sophie parecia ser uma bebe medrosa. E também pelo fato dela ter pouco tempo engatinhando. Assim, pensávamos que, logo, ela iria fortalecer as perninhas engatinhando e iria se sentir mais confortável para ficar em pé e andar.

Os dois pediatras que atendiam a Sophie achavam que o “atraso” era pelas longas horas na creche, pouca estimulação da parte das cuidadoras e poucas horas do dia conosco, afinal, eu chegava com Sophie em casa às 18h e às 20:30 ela dormia. Na consulta de 14 meses, os pediatras colocaram a “bandeira amarela” por ela ainda não ficar em pé sozinha, dar passinhos segurando em mesinhas ou cadeiras. Mas continuavam achando que as longas horas na creche era a causa do “atraso”, afinal Sophie sempre foi uma bebê super esperta e não apresentava nenhum sinal suspeito de problema neurológico.

O sentimento de culpa por deixar Sophie na creche e isso poder estar afetando o desenvolvimento dela estava cada dia maior. Então, eu e meu marido decidimos que eu iria sair do meu emprego e me dedicar 100% a ela. Em casa comigo, Sophie chorava muito cada vez que eu a coloca em pé segurando no sofá e também caia depois de uns 15 segundos. Mas mesmo ela chorando, eu insistia, tentava distraí-la do choro com brincadeiras, musicas, etc…

Nesse processo todo, os pediatras ligavam para saber como ela estava desenvolvendo comigo estando em casa com ela, mas o que eu podia dizer era que eu via muito pouco progresso para tantos estímulos. Essa era a verdade.

Assim, quando ela fez 15 meses, foi encaminhada para fisioterapia para fortalecer mais as perninhas. A fisioterapeuta me ensinava os exercícios e eu fazia com ela em casa, para que ela se sentisse mais segura e confortável assim. Moramos numa casa de dois andares e comecei a colocar Sophie para subir as escadas. Ela adorava subir escada, era incansável. Com poucos dias, vi uma melhora grande e com 16 meses Sophie conseguia ficar em pe sozinha,  e as pernas estavam mais firmes, porém não o suficiente para andar ainda.

Aqui nos USA, os médicos colocam a bandeira vermelha de “Atenção! Há algo errado aqui.” aos 18 meses. Os pediatras queriam esperar ate os 18 meses para uma avaliação de especialistas, mas eu sentia que tinha algo mais por trás do desconforto da Sophie. Não era somente medo, e não era mais por falta de estímulos.  Assim, aos 17 meses, por minha insistência, Sophie foi encaminhada para um hospital infantil, para avaliação de um neurologista e um ortopedista infantil. Foi quando escutamos dos médicos :”Sophie is a hypermobile baby.” Nós nunca tínhamos escutado nada sobre isso, não sabíamos nem o que perguntar aos médicos. Foi um choque, afinal SOPHIE TINHA ALGO SIM. Perguntei rápido  se era grave e se ela iria andar. Eles nos explicaram que a hipermobilidade articular é uma doença genética, um defeito na síntese do colágeno, causando ligamentos mais fracos que o normal e uma maior amplitude de movimentos. Geralmente, bebês com hipermobilidade articular  andam mais tarde, entre 18 e 22 meses. A fase do sentar e engatinhar também pode ser atrasada. Esta doença pode estar relacionada a doenças neurológicas mas, graças a Deus, a hipermobilidade da Sophie é um caso isolado, ela é muito esperta e perfeita neurologicamente.

Para nos mostrar a hipermobilidade dela, os médicos dobraram o dedo polegar da Sophie ate tocar o ante-braço dela, nos mostrando o quanto ela é flexível, e Sophie não mostrou nenhum sinal de desconforto. Também, mencionaram que a maneira como a Sophie sentou no chão do consultório para brincar chamou a atenção deles imediatamente, pela amplitude do angulo das perninhas dela. Detalhe: desde muito novinha Sophie sentava com as perninhas em forma de borboleta, era a posição mais cômoda para ela, mas eu ate então achava que todos os bebes eram muito flexíveis.

hipermobilidade articular
Na primeira imagem o dedão não encosta no braço. Na segunda encosta.

Depois do diagnóstico, Sophie começou a usar “braces”, que é um suporte nos  pezinhos para fortalecer os tornozelos e assim facilitar o ato de caminhar. O suporte fica dentro do tênis dela de cano alto e é bem pouco visível. Aos 18 meses, com muito exercício em casa, frequentando uma academia para bebês e com o suporte nos pezinhos, Sophie deu seus primeiros passinhos. Hoje com 20 meses, ela continua sendo acompanhada por fisioterapeuta e usando o suporte (antes usava em media 8 horas por dia e agora usa em media 4 horas), e ja se arrisca a dar uma corridinha durante as brincadeiras.

hipermobilidade articular 1
Pés de uma criança que tem hipermobilidade na articulação do pé (veja o pé esquerdo).
protese hipermobilidade articular
Prótese
protese no pe
Uso da prótese com tênis de cano alto. Ela nem aparece.

Por causa da hipermobilidade, ela cai mais que uma criança normal, mas os médicos disseram que é apenas uma fase e que logo ela se igualará às outras crianças.

Cada criança tem seu tempo e devemos respeitar isso sempre, porém, devemos ficar atentos aos sinais da hipermobilidade como: atraso para sentar, engatinhar, não gostar de ficar de bruços, pernas mais trêmulas ou com menos tono muscular, pés mais planos, hiperextensão dos dedos das mãos fazendo com que o polegar toque o ante-braço, etc, e sempre consultar um especialista para uma avaliação em caso de qualquer suspeita.