Não julgue pelo que você vê

Não julgue pelo que você vê


12 de Janeiro de 2015

Vou contar para vocês uma história.

Anos atrás, costumava ir a restaurantes repletos de famílias e, ao ver sobre as mesas  DVDs players e, mais recentemente, iPads, ficava chocada. Para mim, aquilo era um absurdo, já que se tratava de um encontro familiar, um momento de integração, e lá estavam as “pobres” crianças largadas de lado, deixadas por pais aos cuidados da tecnologia. Isso, para mim, soava como algo até um tanto quanto cruel.

nem tudo e o que parece ser

Mas aí, o tempo passou. Eu casei, engravidei e tive um filho. E aprendi que a vida dos outros não é só aquilo que a gente vê da porta para fora, para o bem ou para o mal. E que assim como há famílias que escondem a sua face não tão bonita dentro de casa, há outras que acabam, pela força das circunstâncias, mostrando um lado não tão admirável quando estão em público, mas que não representa a realidade do dia a dia, como as coisas são para valer dentro daquela casa.

Hoje tenho plena consciência de como a minha visão sobre criação de filhos era rasa, como eu, tendo acesso a apenas um recorte da realidade (sim, eu estava ouvindo ou vendo só um pequeno detalhe da vida dessas pessoas), me achava no direito de, mentalmente, criticar ou julgar os pais que via nos restaurantes que frequentava.

Hoje, eu sei que as coisas não são sempre como a gente imagina, sonha, planeja e idealiza. Principalmente em se tratando de maternidade. E que aquilo que a gente mostra porta à fora, para todo mundo ver, não traduz exatamente o que acontece na maior parte do tempo em nossas vidas.

Hoje, ao ver uma mãe entregando um iPad a uma criança em um almoço de família ou, então, contando com a ajuda de uma babá para dar conta do recado, eu não penso mais em como ela está sendo insensível e egoísta, prezando pelo seu almoço e deixando seus filhos de lado. No lugar desse raciocínio raso, me vem em mente um outro pensamento: como será que foi a semana dessa mãe? Quantas horas será que ela se dedicou ao filho? Será que ela teve uma única noite bem dormida? Será que conseguiu comer uma única refeição quente? Será que não se desdobrou em dez para, todos os dias, ao chegar do trabalho, passar horas brincando com seus filhos quando sua vontade era se atirar numa cama e descansar? Quantas dessas crianças não ficaram doentes durante essa semana? Há quanto tempo ela não sai para almoçar fora ou encontrar a família?

Tanta coisa passa pela minha cabeça quando eu vejo pais e filhos em restaurantes. Pois eu sei que aquele momento pode estar sendo o momento do ano para essa mãe, pode estar sendo aquele almoço que ela sonha há meses, com uma comida quentinha, gostosa e que não foi preparada por ela. Pode estar sendo um dos raros momentos em que ela pode se arrumar, colocar uma roupa melhor, passar uma maquiagem e sair de casa se sentindo um pouco mais mulher e um pouco menos mãe, o que não há nada de errado.

Essa mãe, que a gente vê usando um iPad, pode não ter ajuda nenhuma durante a semana, se virar nos 30 para fazer tudo sozinha, preparar todas as refeições dos filhos, brincar por horas com eles, trabalhar infinitas horas em casa ou na rua e ainda ter tempo, ânimo e amor para se dedicar aos filhos. Pode tê-los levado todos os dias no parquinho, contando lindas histórias, nunca deixado o bumbum ficar assado, amamentado até muito mais tempo que o OMS preconiza, mas isso ninguém vê.

As pessoas – e eu entre elas até pouco tempo atrás – só enxergam o iPad em cima da mesa ou a babá sentada ao lado e aí, saem fazendo raciocínios e julgamentos que, muitas e muitas vezes, não são nada justos e não traduzem a realidade dos fatos.

Com a maternidade real aprendi que nem tudo é da forma que a gente idealiza, sonha, imagina e espera. Vamos ter muito, mas muito mais trabalho que a gente poderia supor no dia a dia e vamos abrir mão de uma parte enorme de nossas vidas. Assim, se um dia formos convidadas para um almoço bacana, com amigos ou famílias, vamos nos virar nos 30 para dar o almoço saudável dos nossos filhos antes de sair de casa, vamos deixar de lado preciosos minutos na companhia de pessoas queridas para correr pela área de lazer do restaurante, brincando e nos divertindo com os filhos, mas também vamos, sim, puxar das nossas bolsas um iPad, celular ou objeto afim, para termos, quem sabe, meia hora de descanso, boa conversa e um pouquinho da antiga vida de volta. E não há nada de errado com isso.

Em resumo. Não julgue tudo pelo que você vê. Ou, pelo menos, tente julgar menos.