Os piores segundos da minha vida - um relato sobre o acidente do Caê piscina

Os piores segundos da minha vida – um relato sobre o acidente do Caê na piscina


9 de Março de 2017

No carnaval fomos para a praia. Casa de um amigo. Dias incríveis, maravilhosos, perfeitos. Entretanto, no penúltimo dia, tomei o maior susto da minha vida. Sem sombra de dúvidas.

Naquele dia, como fazíamos diariamente, voltamos da praia por volta de 13h e fomos para a piscina da casa. Normalmente, comíamos alguns petiscos por ali mesmo, antes de almoçar, só para saciar a fome. E as crianças nos acompanhavam. Mas, nesse dia, Caê não quis comer os petiscos e, como estava com fome, e chatinho querendo comer, eu resolvi sair da piscina e dar o almoço para ele antes.

Saímos, sequei o Caê, fomos até a mesa onde normalmente dávamos as refeições para as crianças e eu tirei a bóia de braço dele, para ele comer mais confortavelmente. Caê comeu 3 ou 4 colheradas e não quis mais. Aí, tive a (irresponsável) ideia de levar o Caê para perto da piscina, onde estava todo mundo, para ver se, por lá, ele se entretinha com o ambiente e as pessoas e resolvia comer.

Nessa hora, por um lapso da minha consciência, mas também por acreditar que eu estaria sentada do lado dele, vendo qualquer movimento dele, resolvi não colocar a boia de volta nele. Afinal, a gente não iria entrar na água, eu iria dar o almoço do Caê do lado de fora e, assim, não teria perigo.

Sentei na beira da piscina numa parte que ela é bem, mas bem rasa (coisa de 20cm). É uma parte grande, meio que um “espelho d`água”, para a gente deitar e tomar sol. Sentei ali, Caê do meu lado, e voltei a dar o almoço dele. Assim que eu coloquei uma colherada de comida na boca dele, Leo se aproximou e pediu também para comer. Acabei dando uma colherada para ele também e, na hora, ele se virou bruscamente e jogou água no prato. Eu, tirei os olhos do Caê nesses ínfimo instante, momento que dei a colherada de comida para o Leo e reclamei com ele por ter jogado água dentro do prato. Quando voltei meus olhos para o lado de novo, para dar a outra colherada para o Caê, cadê ele?

Na hora, já senti uma tensão no corpo. Olhei em volta, dentro da piscina, onde estava todo mundo (havia 9 adultos ali) e não o vi. Na hora, perguntei alto: “Pessoal, cadê o Caê?”. Todo mundo olhou em volta e se fez aquele silêncio. Em seguida, olhei direto para frente, bem no lugar onde acabava o tal “espelho d’àgua”que já era uma parte mais funda (em torno de 1,5m, a piscina não tinha mais do que isso de profundidade em toda sua extensão) e vi o bonezinho do Caê boiando.

Gente do céu! Jamais imaginei que tanta coisa poderia passar na cabeça de uma pessoa num intervalo de milésimo de segundo. Nessa hora, imediatamente gritei, desesperada, e um amigo que estava do lado do Caê (mas também não o viu cair na parte funda da piscina) simplesmente esticou o braço e o levantou. Meu marido chegou no mesmo instante (ele estava poucos metros mais longe) e tirou o Caê da água. No exato momento que ele saiu da água, sua cabeça pendia para trás e ele não chorou, não gritou.

Do momento que eu visualizei o boné do Caê na água, boiando até o momento que ele foi tirado da água e emitiu o seu primeiro grito de choro, não se passaram mais de três segundos. Seguramente não. Mas nesse breve instante uma história, horrível, dolorida, apavorante, desesperadora passou na minha cabeça.

Vi o boné do Caê e me perguntei: “Há quanto tempo ele está submerso? Quantos minutos se passaram? Como não vimos ele entrar na água e cair? O que eu fiz?”. O que me apavorava era que eu não sabia o que havia se passado. Eu não tinha a mínima idéia do tempo que havia se passado. Eu havia tomado um choque tão grande, que os poucos segundos da hora que tirei a colher da boca do Caê até a hora que eu vi seu boné boiando para mim não pareciam mais segundos. Na verdade, eu não sabia mais quanto tempo tinha se passado. Nesse momento, imaginei que tivesse passado algo como 2 ou 3 minutos (e não segundos) e que meu filho havia caído na água, ninguém tinha visto e ele tinha morrido afogado.

Sabe aquela história que a gente, ouve, lê, escuta e arrebenta os nossos corações. Que a gente diz: “Nossa, não consigo nem me colocar no lugar dessa mãe. Não consigo nem imaginar! Dor igual a essa não deve haver.”. Pois bem, nessa hora eu pensei: “Essa história que a gente acha que só acontece com os outros, aconteceu comigo. Eu perdi meu filho.”.

Mas aí, como eu disse, meu marido tirou o Caê da água, com sua cabecinha pendendo para trás. A cena mais horrível que eu já vi na vida. E logo depois ele deu um grande grito e começou a chorar desesperadamente.

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Quando ele começou a chorar, eu, que estava de pé para ir ao encontro dele, voltei pro chão. Perdi as forças nas minhas pernas, sentei na borda piscina, baixei a cabeça, cobri os olhos e chorei. Eu sequer consegui levantar para ir até eles. Claro que isso também não durou muito, foi algo de 5 ou 10 segundos, mas para mim parecia outra eternidade.

Assim que consegui me levantar de novo fui até o Otávio e o Caê. Caê chorava muito, mas isso me tranquilizou. Ele não havia perdido os sentidos, não estava vomitando água. Ele estava vivo!!!

Aguardamos ele se acalmar e o levamos até o posto médico do condomínio. Eu ainda me recuperando do choque. Chegando lá, ele foi examinado e o médico nos tranquilizou dizendo que não havia acontecido nada sério. Que ele não tinha engolido e nem aspirado água e que devia ter ficado na água por pouquíssimos segundos (os tais 2, 3 ou 4 que agora, passado o susto, eu me recordo melhor e que devem realmente ter acontecido).

O médico pediu para observarmos as reações deles nas próximas 24h, mas nos liberou sem nenhuma orientação importante.

Meu filho havia nascido de novo. Para mim sim!

Depois, mais tarde, conversando com o Otávio e com as demais pessoas que estavam em volta tentamos reconstituir a cena. Otávio me disse que, na hora que tirou o Caê da água ele estava realmente com a cabecinha pendendo para trás, mas isso porque ele estava com o rosto para fora da água, tentando pegar ar e não afundar. Meu pequeno teve sorte. Ele subiu ao cair na água e conseguiu se manter em cima, sem afundar, e pegar ar. Meu pequeno teve sorte porque a gente estava junto. Mas meu pequeno sofreu um acidente que podia ter sido muito sério, podia ter sido fatal, e todo mundo estava em volta e ninguém viu o exato momento que aconteceu.

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Ou seja, sabe aquelas frases que a gente está cansada de escutar? “É um segundo e as coisas acontecem”, “Criança cega a gente”. Pois bem, elas são verdade. Eu sei porque eu senti isso na pele da pior forma possível.

Todos os dias eu agradeço por ter o meu filho comigo. Vivo. Bem. Mas todos os dias eu também lembro da minha parcela de culpa nesse acidente e me culpo. Eu fui com ele para a beira da piscina e eu não coloquei as bóias de volta. Eu acreditei que, por estar ao lado, eu estaria de olho e nada iria acontecer. Mas é num piscar de olhos, num virar de cabeça, numa atenção que a gente dá para o filho mais velho, para uma outra pessoa que está por perto, que a gente pode sofrer a maior perda de nossas vidas.

Por isso, me senti na obrigação de fazer esse post, como forma de alerta para todo mundo que tem crianças.

O que eu quero dizer é: Não menospreze os perigos. Esteja sempre alerta. Não confie que você está por perto, ou outro adulto está e que, por isso, nada irá acontecer. Basta um segundo, basta um olhar para o lado, basta um descuido para uma tragédia acontecer.

Em se tratando de crianças, devemos estar sempre alertas. Em se tratando de piscina, mar, lago ou qualquer outro lugar que tenha água, a atenção deve ser redobrada e temos que lançar mão de todos os artifícios possíveis para garantirmos a segurança das nossas crianças.

E assim, se você é uma daquelas mães vistas como loucas, neuróticas, desesperadas, que só pensam em desgraça e não relaxam, não curtem, aproveite e mostre ou conte essa história para quem te enxerga dessa forma.

Eu também era (e ainda sou) essa mãe louca, neurótica, desesperada e até alarmista, mas foi num segundo que eu relaxei que eu podia ter perdido o meu filho. E aí, eu não posso nem imaginar o que teria sido de mim e da minha família.

Confira também o relato do acidente que tivemos com o Leo (ele USANDO BOIA. Ou seja, não dá para relaxar nunca!).

Foto que eu postei à noite, no dia do acidente. Me sentindo agradecida por estar com meu filho e ele estar bem.