Gestação e parto na França

Relato: Gestação e parto na França


25 de julho de 2013

Olá, meu nome é Cibelle, sou casada há 3 anos, mas já estou com o meu marido há 10. Viemos morar no Sul da França, na cidade de Antibes, em 2008, com o objetivo de buscar mais qualidade de vida.

Quem me conhece sabe que a maternidade nunca foi um sonho para mim. Na verdade, nem eu mesma sei dizer exatamente porque. Sempre imaginei que fosse por medo do parto, por medo de sentir dor e por medo que algo desse errado. Sim, eu sei que isso foi pessimismo da minha parte, mas é algo que sempre veio automático em minha cabeça. E para minha surpresa…eu estava completamente errada.Tudo começou quando, um belo dia, meu relógio biológico sinalizou e eu senti: estou pronta para ser mãe! Meu marido levou um susto, pois, na cabeça dele, isso não iria acontecer (não só na dele, mas na de todo o mundo). E, além disso, também pensei: estou vivendo em outro país, só eu e meu marido, já viajei bastante, já aproveitei muito e agora estou com 31 anos (na época). A vida passa rápido e se eu for esperar mais para ter filhos, acabarei sendo avó dos meus filhos e não mãe e, além do mais, será bom voltar a ter uma família estando tão longe do Brasil. E assim, após conversar com meu marido sobre o assunto, decidimos então tentar ficar “grávidos”.

O primeiro mês se passou, e nada. Veio o segundo mês e a dita atrasou. Falei para meu marido e ele disse: não é nada, todo mês você fala a mesma coisa e logo depois a dita vem (sim, todo mês achava que estava grávida acidentalmente, já que não posso tomar pílula por causa de uma doença genética que tenho).  Bom, um dia se passou, e nada; dois dias se passaram, e nada; uma semana se passou, e ainda nada! Então resolvi ir à farmácia e comprar o teste de gravidez para fazer no dia seguinte na primeira urina da manhã. Só que a primeira urina da manhã veio às 4 horas da madrugada, e lá fui eu ao banheiro, com o teste na mão, nervosa para ver o resultado, quando… tan tan tan tan…apareceram dois risquinhos! Meu coração, a essa altura, já estava na boca de tanta alegria e nervosismo ao mesmo tempo. Saí correndo para acordar meu marido e dar a notícia, só que ele,  bêbado de sono, quase nem teve reação. Hoje, ele fala que foi a pior maneira que eu poderia ter escolhido para dar uma notícia dessa magnitude. Mas como eu iria conseguir voltar a dormir como se nada tivesse acontecendo e esperar para dar essa notícia quando ele acordasse? Eu sou ansiosa demais para conseguir fazer isso.

No dia seguinte, lá estava eu no laboratório para fazer o exame de sangue para confirmar o que para mim já estava confirmado, e mais uma vez, positivo. Daí para frente foi só alegria. Contamos a notícia para nossas famílias e amigos próximo e para os demais, incluindo os amigos do Facebook, só após findar os três primeiros meses de gravidez.

Em geral, minha gravidez foi bem tranquila, apenas nos início que tive náuseas, sono, muita fome e dores nas costas (mas nada insuportável, meu ginecologista prescreveu 10 sessões de fisioterapia e, logo na primeira sessão, a dor aliviou muito).  Mas passada essa fase, tudo desapareceu e eu pude curtir a minha gravidez como desejava.

E como eu falei lá no início, eu moro no Sul da França, e por aqui o assunto parto se resume a uma única palavra: normal. Eles preparam a mulher para o dia D de tal forma  que no final da gravidez nós estamos tão calmas que nem parece que estamos prestes a ter um filho. E foi exatamente o que aconteceu comigo, para minha surpresa. Até o sétimo mês de gravidez, meu ginecologista me acompanhava todos os meses. Além disso, todos os meses eu fazia exame de urina e sangue, para verificar se estava tudo bem e também para descartar toxoplasmose. Aqui eles pedem para fazer três ultrassons, fora aqueles feitos no consultório do próprio ginecologista. Esses ultrassons servem para descartar doenças e síndromes e para verificar o tamanho e peso do bebe. Fora isso, durante o sexto mês todas as grávidas ainda tem que fazer um exame de sangue para verificar a existência de diabete gestacional. Ou seja, no caso dos exames, o procedimento se parece bastante com o do Brasil.

Mas em um outro aspecto, quando o fim da gravidez se aproxima, as coisas começam a ficar bem diferentes. A partir do sétimo mês de gestação, as mulheres passam a frequentar aulas com as “Sages Femmes”, ou doulas, como são conhecidas aí no Brasil. Nessas aulas, elas ensinam técnicas para amenizar as dores das contrações (através da respiração, de massagem feita pelo parceiro e do uso de bolas de pilates), nos ajudam a identificar  quando deveremos realmente correr para o hospital ou quando trata-se de alarme falso, dão aulas de aleitamento e, a mais importante delas, na minha opinião, ministram aulas de  “pousser”, que nada mais é que a força que fazemos para expulsar o bebê na hora do parto.

Aqui, existe técnica para tudo e todas essas técnicas eles ensinam para ajudar a mãe no antes, no durante e no depois do parto. Esses métodos ajudam a mulher a se sentir confiante e a saber o que fazer na hora H, evitando que ela fique perdida e acabe entrando em desespero. E realmente ajuda, viu!

Depois de todo esse intenso e bem vindo preparo, a Nicole veio ao mundo com 37 semanas e 5 dias. No dia que ela veio, ao meio dia, comecei a sentir umas leves cólicas, igual quando esta para vir a menstruação mesmo. Na hora, não dei muita bola, pois achei que pudesse ser meu útero dilatando, já que ela estava crescendo. Mas não era só isso. Já era “A” famosa contração, eu não sabia e por isso continuei vendo minha TV como se nada estivesse acontecendo. No meio da tarde, fui ao banheiro para fazer xixi (coisa que estava fazendo e muito durante minha gravidez toda) e vi que na calcinha tinha uma mancha de sangue amarronzado. E adivinhem só? Era o meu tampão que tinha caído. Opa, sinal que a minha pequena estava prestes a chegar.

Decidi então tomar um belo banho e ficar bem limpinha e cheirosa para o caso da minha pequena resolver dar o ar da graça. Só limpa mesmo, porque eu não tinha nem feito depilação e também não estava muito preocupada com isso, pois a novidade me pegou totalmente de surpresa. Eu nunca imaginei que a minha filha fosse ser apressadinha! Liguei em seguida para meu marido, que estava trabalhando, avisando que meu tampão havia saído, mas que ele não precisava se preocupar, porque isso não significava que a Nicole viria nesse mesmo dia, apenas que estava próxima sua chegada, e que ele poderia continuar trabalhando normalmente. Saindo de lá, ele me ligou perguntando se ele iria direto pra casa ou se devia passar na Leroy Merlin, para comprar tinta para pintar a porta do banheiro, e eu, nem imaginando que eu já estava em trabalho de parto, disse para ele passar sim, pois eu estava bem.

Quando ele chegou em casa, pedi para ele ir à farmácia com a receita médica (o sistema Francês nos ajuda muito, se você tem receita médica, é só você ir à farmácia, entregar a receita, e eles te entregam os remédios solicitados, sem custo nenhum) para pegar o supositório que eu deveria aplicar antes de ir para o hospital para esvaziar o intestino (aqui tem esse hábito). Ele saiu de casa, passou um tempinho e minhas contrações começaram a aumentar um pouquinho mais e eu comecei a sentir também um pouco mais de dor (mas ainda não era nada absurdo). Então liguei para ele e pedi para ele voltar imediatamente para casa porque teríamos que ir ao hospital, apenas com o sentimento  de que era melhor prevenir do que remediar.

Em menos de 5 minutos ele já estava em casa, já tínhamos pego as malas para levar para a maternidade (que já estavam prontas desde os 7 meses) e já estávamos no carro em direção ao hospital, que fica em Nice e dá mais ou menos uns 20 minutos de casa (PS: por coincidência, é o mesmo hospital que a Angelina Jolie teve os gêmeos dela. Fiquei na esperança de encontrar o Brad Pitt por lá, mas infelizmente não foi possível. Risos!). No caminho, meu marido contou as minhas contrações e elas estavam a cada 10 minutos, reguladinho. Ou seja, tudo indicava que teríamos a nossa bebê nesse dia mesmo.

Chegando ao hospital, por volta de  20h, uma doula veio me atender, me encaminhou para uma sala espaçosa e aconchegante e me examinou. Ela disse que eu estava com dois dedos de dilatação e que eu não sairia mais do hospital. Tirei minha roupa, sentei na cama, e ela me disse que iria chamar o anestesista para aplicar a peridural em mim. Nesse momento, comecei a tremer feito gelatina. Tinha pavor de agulha e mais pavor ainda dessa maldita anestesia. Ele chegando, pediu para meu marido sair da sala e me aplicou a dita. Pronto, mais uma vez, eu estava errada. Não doeu absolutamente nada, nem senti a anestesia sendo aplicada. A partir dai, foi tudo uma maravilha.

O desenvolvimento do processo da dilatação foi impressionante. A doula disse que normalmente seria um dedo de dilatação por hora, mas que, por conta da anestesia ter sido feita, o processo poderia demorar um pouco mais. Mas não foi o que aconteceu. De dois dedos de dilatação rapidamente eu passei a oito. Quando atingi esse estágio, ligaram para meu ginecologista e ele chegou em menos de 5 minutos. No momento da sua chegada, eu já estava na posição do parto e após três únicas forças a Nicole chegou ao mundo, às 0h45min do dia 26 de janeiro de 2013, pesando 2,865 kg.

Quando vi a carinha dela pela primeira vez, um amor sem tamanho invadiu meu coração e, desde então, não consigo mais imaginar minha vida sem ela. Descobri, desde este dia, o que é o amor incondicional e hoje entendo o porquê de não existir amor maior que o amor de mãe para filho.

A Nicole é a minha razão de viver e tê-la ao meu lado me faz mais feliz do que eu poderia sequer imaginar.

Nicole nos primeiros dia de vida.
Uma boneca!