Tudo bem, foi sem querer. Você não teve culpa.

Tudo bem, foi sem querer. Você não teve culpa.


7 de Março de 2016

Há pouco, eu e o Leo estávamos deitados no sofá. Ele vendo TV, com a cabeça no meu colo, e eu lendo. Então, ele fez um movimento mais brusco, bateu em uma xícara que estava próxima, ela voou no chão e quebrou. Ele, levantou rapidamente, com aquela cara de “o que houve?”, e foi ver o que havia acontecido. Quando ele encontrou a xícara quebrada, no chão, pegou ela nas mãos, reuniu alguns caquinhos que estavam próximos e tentou juntar os pedaços novamente.

Na hora, eu simplesmente disse para o meu pequeno:

“Está tudo bem, foi sem querer, você não teve culpa”.

xicara quebrada
A tal xícara que gerou o post de hoje. Eu tenho essa foto porque, na hora, pensei em postar no Instagram a história, então registrei o pequeno segurando ela nas mãos. Mas aí achei que valia um post aqui no blog. E aqui ele está.

E ele, que já estava com uma carinha bem triste, quase chorosa, de quem havia feito algo errado e se culpava por isso, correu para o sofá, deitou-se novamente no meu colo e continuamos curtindo o que estávamos fazendo.

E essa situação, me fez lembrar de uma que vivi com a minha mãe, há muitos anos, quando eu era uma adolescente. Minha mãe havia me dado um relógio que não era caríssimo, mas que, para ela, havia custado bastante. Esse relógio estava com um problema no fecho e eu já havia perdido-o dentro de casa. Uma certa noite, eu teimei em usá-lo para sair, mesmo a minha mãe dizendo que deveríamos consertá-lo antes, e acabei perdendo-o. No dia seguinte, quando minha mãe veio me acordar, eu contei que havia perdido o relógio. Claro que na hora ela ficou furiosa e disse: “eu tinha avisado! Falei que você não deveria sair com esse relógio, mas você teimou”. Ela deixou meu quarto brava, mesmo, e eu, fiquei ali, sentida, quase arrasada.

Pouco depois, ela voltou. Sentou-se junto a mim e delicadamente me pediu desculpas. Ela disse que sabia que eu estava triste pelo que havia acontecido e que não precisava que ela, ainda por cima, brigasse comigo. E ela comentou que sabia disso porque havia vivido exatamente a mesma coisa muitos anos antes, com a mãe dela. Ela também havia ganhado algo da minha avó que acabou, sem querer, perdendo, e minha avó ficou furiosa, brigou com ela, deixou-a de castigo e tudo mais. Só que a minha mãe dizia que tudo aquilo era desnecessário, que o maior castigo ela já estava sentido, que era a culpa e a dor de ter perdido algo que havia custado tanto para a minha avó e que era importante para ela.

Enfim, o que quero dizer com toda essa história? Que independente do valor, se é caro ou barato, se é valor sentimental ou financeiro, coisas são coisas. E que, pessoas e sentimentos, são e serão sempre muito mais valiosos que coisas. Foi isso que minha mãe me ensinou há muitos anos e eu nunca esqueci.

Assim, se seu filho chegou em casa com a roupa encardida, derrubou suco na toalha limpa, quebrou o brinquedo novo, perdeu o presente que você acabou de dar, não dê tanta importância a isso. Claro que não quero dizer que você não deve ensinar as crianças a darem valor ao que elas tem. Claro que não é isso. Só não precisa dar tanto valor assim. Uma xícara é só uma xícara e sobraram várias outras. Um relógio, cedo ou tarde, pode ser comprado novamente. Mas a dor de uma injustiça, o sentimento de culpa (mesmo por algo intencional) nem sempre é esquecido facilmente.

Eu acho sim que crianças devem dar valor ao que possuem. Saber que aquilo custou tempo e dinheiro dos seus pais. Que aquilo deve ser cuidado e zelado. Mas quando acontece uma acidente, quando algo se perde ou se quebra sem querer, não é a hora de se ensinar isso a uma criança. Não pelo menos com briga, grito e castigo.

Pode-se explicar que aquilo era importante, era valioso, e que da próxima vez a gente espera que se tenha mais cuidado para não acontecer novamente. Mas é isso. Nada de punição.

Por isso, peço que vocês pensem duas vezes antes de brigarem com seus filhos por eles terem quebrado, perdido ou estragado algo. Bens materiais podem ser substituídos, mas a chance de ensinar o que realmente tem valor nessa vida não é sempre que a gente tem. E não podemos deixar passar.

Eu juntei os cacos da xícara e joguei no lixo. Não briguei com o Leo pelo que aconteceu. Assim como não briguei quando ele quebrou um outro objeto que tinha valor sentimental para mim, há algumas poucas semanas. Sei que meu pequeno não fez nenhuma dessas duas coisas por querer e vi isso no seu olhar de tristeza quando os cacos voaram pelo chão.

Em cada adversidade, perda ou desafio, por mais simples ou mais complexos que sejam, temos sempre a chance de ensinar para nossos filhos algo que realmente importa. Pensem nisso.