UTI de esperanças

UTI de esperanças


17 de Fevereiro de 2014

Por Cristiane Souza, mãe do Arthur, Anselmo e Leonardo.

Com 28 semanas de gestação nasceram os meus meninos. O nascimento aconteceu três dias após eu ter realizado tardiamente a ecografia morfológica. Foram 2 horas de exame. O esforço foi tão grande que, mesmo eu estando em excelentes condições de saúde, aconteceu uma rotura parcial da bolsa. Fiquei internada tentando segurar, mas a cerclagem (costura do colo do útero) se rompeu, e os meninos vieram ao mundo num emocionante parto natural trigemelar.

Arthur, Anselmo e Leonardo nasceram com apenas 28 semanas. Nasceram pesando aproximadamente 1 kg, cada um. É claro que eu queria que eles tivessem nascido com mais tempo gestacional e não tivessem precisado da internação na UTI (Unidade de Terapia Intensiva), mas o período de UTI neonatal trouxe-me valiosos aprendizados.

O principal deles, é que hospitais e UTIs não precisam ser locais de tristeza, muito pelo contrário, podem ser locais de esperança e alegrias diárias. Acostumada a registrar tudo, logo comprei um caderninho comum na papelaria e comecei a relatar numa espécie de diário resumido o progresso, os sustos, enfim, os relatos que recebíamos diariamente dos médicos e enfermeiras. Descobri, na prática, o quanto cada grama faz diferença, cada milímetro a mais de leite, a importância de equipamentos como o CPAP (Contiunous Positive Airway Pressure) que os auxiliava na respiração, as sondas e acessos, cada etapa.

Quando os meninos completaram 1 mês de vida e portanto, 1 mês de UTI, maquiei-me e levei um bolinho com vela e chapeuzinhos para todos os pais e enfermeiras da UTI e foi aí que percebi, pela primeira vez, que boa parte das pessoas não via a UTI como um período de esperanças, como um espaço de alegrias e conquistas. Todos celebraram conosco e praticamente toda a maternidade nos perguntava se havíamos recebido alta. Era como se não pudessem compreender tanta alegria em meio a um momento de internação. Tanta celebração em meio ao desgaste psicológico e ao esgotamento físico causado pelo plantão diário no hospital e as esgotas sofridas do cada vez mais pouco leite produzido, somado ao receio de “secar”.

Após o evento e com a cumplicidade aumentando entre nós, pais da UTI, uma mãe confessou a mim que um dia já a incomodara ver minha alegria ao chegar. Era como se eu não estivesse indo a uma UTI, onde os meus filhos sofriam e lutavam pela vida. Hoje nós somos bastante amigas e foi nesta primeira conversa que ela confirmou o porquê da minha postura ser outra. Era sim uma grande alegria o momento de ver os meus filhos, de poder transmitir a eles toda a minha confiança e esperança. De mostrar a eles que eu estava com eles e que a luta era nossa. Sou sincera quando digo que jamais me passou pela cabeça que algum deles poderia não resistir. Eu simplesmente ignorava tal possibilidade e cheguei a ficar surpresa quando ouvi por várias vezes me falarem “que bom que os três sobreviveram”. Era ali na experiência da UTI que a cada dia eu me transformava em mãe.

Quando escrevo que a UTI não precisa ser um local de tristeza, de modo algum quero diminuir o sofrimento de uma família que perdeu seu bebê na UTI, mas sim quero apresentar uma postura de gratidão aos profissionais da UTI que lutaram para que isso não viesse a acontecer.

Também a família que acreditou e torceu pela recuperação. A UTI é uma esperança de vida, mas não garantia de vida. Para algo nos acontecer ou acontecer a quem amamos, basta estarmos vivos. Hoje reflito bastante sobre a morte e a perda, após o falecimento do meu pai – a maior dor que senti na vida – e a conclusão a que cheguei é que para a família realmente não existe consolo e que procurar culpados ou se culpar não trará ninguém de volta. Aceitar a morte é uma libertação. É valorizar a vida.

Os meninos nasceram em 02 de agosto de 2008. Mas somente pude pegá-los no colo após 1 mês, antes, apenas colocava minhas mãos por aberturas na incubadora. Minha primeira tentativa de amamentação aconteceu apenas em 10 de setembro, 37 dias após o nascimento, e somente pude fazê-lo para dois deles.O Leonardo eu só pude tentar amamentar no dia 21 de setembro, 1 semana após o Anselmo já ter vindo para casa e 5 dias após o Arthur também ter recebido alta. Na primeira noite do Anselmo em casa o meu marido simplesmente não dormiu. Ficou de plantão ao lado do berço. Segundo ele, não tinha nenhum aparelhinho para avisar se o bebê passasse por alguma dificuldade respiratória. Era mesmo até estranho ter nosso bebê ali sem nenhum equipamento emitindo sons e mostrando batimentos cardíacos. No mesmo dia em que o Arthur e o Anselmo realizavam a primeira consulta ao pediatra, o Leonardo diagnosticava a terceira bactéria e retornava ao CPAP. Pequenos derrames. Transfusão. Mais do que nunca ele precisava da minha alegria e esperança. Um dos melhores dias da minha vida? 7 de outubro de 2008. Dia em que o Leonardo veio para casa, após 67 dias de internação.

Liberamos as visitas no dia 22 de outubro. Neste dia eles completariam o tempo gestacional. Ufa! Vida normal? Que nada! O acompanhamento aos meus pequenos estava apenas no início. Licença maternidade de apenas 4 meses e eu me virando do jeito que podia, trabalhando home office parte do tempo e administrando a apertada agenda médica que tem a mãe de um prematuro. Sorte a minha eu poder trabalhar parte do tempo home office. A maioria das mães não encontra esta oportunidade. Mas vale muito a pena tanta dedicação. Sou testemunha de que é muito importante realizar de modo adequado todo o acompanhamento necessário. Os progressos são mais que gratificantes. Vivi o ano mais intenso e mágico da minha vida.

Agora estes meninos que foram responsáveis por uma verdadeira transformação na minha vida e especialmente no meu ser, já estão com 5 anos de idade. E todos os momentos datados que descrevi acima estão registrados naquele caderno; o mesmo caderno que registrou as 2 cirurgias pelas quais o Arthur passou, o episódio de afogamento após amamentação que quase tirou a vida do Leonardo aos 3 meses, as primeiras palavras, o início do engatinhar, do sentar, do andar de cada um, o acompanhamento de crescimento e peso.

Deste modo, das várias experiências que posso compartilhar com as mamães e papais que estão com bebês internados, acredito que estas duas são as principais. Fazer da UTI um momento apenas de passagem, de celebração à vida, e registrar tudo, com fotos, vídeos, anotações. Não são necessários cadernos sofisticados ou aplicativos elaborados para celulares e computadores; uma caderneta e uma caneta são suficientes. Uma ou duas linhas nos dias mais marcantes é o que basta para se ter registrada a história deste momento único, e que no futuro vocês dirão que passou muito rápido.

E aqui, um pouco da nossa história em imagens…

Painel 1 ano - parte UTI
Lembranças da UTI

 

11 meses
Meninos com 11 meses.
trio abraco 5 anos
Meninos com cinco anos.
com filhos 2013
Eu com toda a turminha.