Vantagens do desmame natural

Vantagens do desmame natural


4 de junho de 2014

desmame naturalPara escrever o post de hoje, convidei uma pessoa que entende do assunto que será abordado aqui, a Gabriela Silva, que é enfermeira, especializada em obstetrícia e gerontologia, consultora em aleitamento materno e doula pós-parto pelo GAMA (Grupo Apoio Maternidade Ativa)  e que, após cinco anos trabalhando em instituições hospitalares (e após o nascimento do seu filho também) optou por prestar assistência em domicílio. 

E hoje, a Gabriela irá falar sobre um assunto bastante importante, quase tão importante quanto a amamentação em si: o desmame.

A amamentação é uma experiência maravilhosa, e muito importante na relação mãe e filho, por isso, a sua interrupção deve ser um processo também muito bem conduzido, para evitar sofrimento para ambos os envolvidos.

Com vocês, o que a Gabriela tem a nos dizer sobre o assunto. Espero que gostem. Boa leitura!

 

DESMAME NATURAL

Por Gabriela Silva

Desmame é quando se dá a cessação do aleitamento materno e nós, seres humanos, somos os únicos mamíferos em que o desmame não ocorre de maneira instintiva e/ou genética e sim, devido a grandes influências culturais e da sociedade. Ao levarmos em consideração o desenvolvimento de uma criança, um desmame antes de dois / três anos é precoce já que o bebê ainda precisa mamar, pois está em processo de individualização, está na fase oral e os benefícios são muitos. De acordo com diversas teorias, o período natural de aleitamento materno para os seres humanos vai de dois anos e meio a sete anos.

Após o primeiro ano de vida o leite materno continua sendo ricamente importante e fornece quantidades significativas de nutrientes em especial vitaminas, gorduras, proteínas e os anticorpos humanos são abundantes durante todo o período de lactação.

A OMS preconiza o aleitamento materno exclusivo até os seis meses de vida do bebê e o aleitamento materno até dois anos de vida ou mais, no entanto, no Brasil são poucas as mulheres que amamentam por mais de dois anos.

A razão para isso varia desde retornar precocemente ao trabalho, dificuldade em conciliar a amamentação com demais atividades, orientação inadequada por parte dos profissionais de saúde (o que também pode colaborar para o desmame precoce), desaprovação e pressão da família/companheiro/sociedade.  E, não menos importante, temos os mitos como: amamentar após primeiro ano de vida é psicologicamente desfavorável para a criança, o leite materno não ´´serve mais´´, a criança não vai desmamar sozinha, a criança não vai ser independente e segura, entre outros. É importantíssimo destacar que, muito pelo contrário, crianças que são desmamadas abruptamente podem gerar inseguranças e maior dificuldade em seu processo de independência.

Sendo assim, como o próprio nome diz, o desmame natural para o binômio é o melhor caminho.

Atualmente, e muito diferente do que ocorria há tantos anos atrás, durante nossa evolução como espécie, as mulheres optam se irão amamentar e por quanto tempo querem ou podem e tudo isso se dá devido a inúmeros fatores. Como resultado têm-se não amamentação, introdução alimentar precoce e, consequentemente, desnutrição, mortalidade infantil (principalmente em locais menos desenvolvidos) e inúmeras consequências que não irei abordar aqui.

Na minha opinião, e sempre digo isso em minhas consultorias, o ato de amamentar vai além de saciar a fome de uma criança. Infelizmente e especialmente em nossa sociedade ocidental, ela é vista apenas do ponto de vista de alimentar onde poder e controle estão totalmente voltados para o adulto.

Amamentar é mais que alimentar. Amamentar é o início de uma relação a dois, onde ambos doam e recebem. Amamentar é entrega, é um contato íntimo onde mãe e bebê se conhecem mais e mais. É permitir-se viver intensamente o que a maternidade nos traz, é desafio, enfrentamento, superar-se dia após dia e se descobrir como mulher, mãe, companheira.  O ato de sucção deve ser visto de maneira muito peculiar e respeitosa. Sobre isso podemos falar em outro momento, mas o bebê faz a sucção (principalmente em seus primeiros meses de vida) porque é a única coisa que sabe fazer e através dela supri suas necessidades nutricionais e emocionais.

Amamentar repercute na saúde física e no desenvolvimento emocional e cognitivo da criança e, não menos importante, na saúde física e psíquica da mãe. Amamentar é um processo e o desmame também. Sendo assim, deve haver respeito, tempo, sensibilidade, paciência, diálogo, explicações, enfim.

Infelizmente as mães que amamentam seus bebês com mais de um ano de vida são julgadas e recebem olhares preconceituosos tanto em público como em seu convívio familiar, como se houvesse um problema na relação entre ela e seu filho. Já escutei mães que amamentam escondido para não passar por desaprovações. Sabe, em nossa vida, desde o dia em que nascemos até nos tornamos adultos somos desmamados de alguma coisa, aliás, quando me tornei mãe tive que ´´desmamar´´ dos meus pais, daquela relação em que era apenas filha para poder me tornar mãe e foi um processo gradual. O problema é que quando passamos por algo sem estarmos prontos os riscos de afetar nosso desenvolvimento emocional é realmente grande, principalmente tratando-se de uma criança.

A amamentação é um acontecimento na vida de mãe e filho muito importante e sua interrupção deve acontecer de maneira natural, sem traumas e muito menos de forma abrupta. Muitas vezes, o que vimos e escutamos são mães que vão dormir fora de casa e deixam as crianças aos cuidados de outra pessoa, algumas fazem curativo nos seios e dizem que estão machucados, mentiras, produtos que modificam o cheiro das mamas. Isso tudo é traumático para a criança e pode ainda gerar sentimentos de culpa nela. O processo de desmame não deve ser iniciado em fases de mudança como introdução na escola, mudança de casa/cidade, separação dos pais, retorno da mãe ao trabalho, doença ou qualquer outra situação que por si só já gera estresse e ansiedade.

O desmame abrupto não permite que mãe e criança trabalhem gradualmente as partes físicas e psicológicas que estão envolvidas nesse processo. A mãe, como um exemplo, ao desmamar abruptamente pode ter ingurgitamento mamário, mastite, tristeza e/ou depressão (isso pode ocorrer devido à alteração repentina de hormônios que estão presentes no processo da amamentação). A criança pode sentir-se desolada, rejeitada, insegura, muitas vezes causa rebeldia e com sentimento de perda.

A amamentação é o maior prazer do bebê, insubstituível. Então, gradualmente, o bebê vai colocar outros prazeres em sua vida até o momento em que se sente apto para se desligar desse primeiro vínculo.

Muitas mulheres pensam (ou são induzidas a pensar) que seu filho vai se alimentar melhor ou dormir melhor se for desmamado rapidamente e isso é um mito. Ao contrário, o desmame abrupto pode ter como consequência uma piora na ingestão alimentar e vale ressaltar que após o primeiro ano de vida o bebê pode passar a comer menos. O pediatra espanhol Carlos Gonzalez em seu livro ´´ Mi Niño No Me Come´´ fala sobre isso, ele diz que o motivo da mudança do hábito alimentar por volta do primeiro ano de vida se deve à diminuição da velocidade do crescimento. No primeiro ano, os bebês engordam e crescem mais rapidamente que em qualquer outra época da sua vida extra-uterina.

Dessa forma, podemos concluir que o processo de desmame envolve uma decisão segura, consciente, respeitosa onde não pode existir pressa e, tão menos, iniciar por pressão do companheiro, familiares e a sociedade como um todo, inclusive profissionais como pediatras que ´´impõem´´ o momento ´´ideal´´ do desmame.

Se a mãe não estiver segura, seu bebê também não vai estar e, consequentemente, não teremos sucesso no processo de desmame ou então pode tornar-se traumático para mãe, bebê ou ambos.

Sugiro buscar informar-se sobre o assunto, ler, perguntar. E para as mães que não querem ou não precisam desmamar fiquem tranquilas: os bebês desmamam de forma natural sim, processo que pode levar tempo, o tempo deles!

PS: Em breve, em um  post complementar a esse, irei trazer dicas para o desmame gradual.

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Gabriela Giacheta 28 anos, mãe do Miguel, de 2 anos, é enfermeira especializada em obstetrícia e gerontologia, Consultora em Aleitamento Materno e Doula Pós-Parto pelo GAMA (Grupo Apoio Maternidade Ativa).  Ela também é responsável pela página Descobridores de Mundo, na qual compartilha muita informação bacana sobre maternidade ativa e vale à pena ser acompanhada.

 

 

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