A importância da autonomia na infância

A importância da autonomia na infância


29 de novembro de 2013

criança independente
Imagem: POPOQ

Olá mamães, hoje vou falar de um tema que está em alta quando se fala em desenvolvimento infantil: a autonomia. Filosoficamente, o conceito de autonomia mistura-se com o de liberdade, consistindo na qualidade de um indivíduo de tomar suas as próprias decisões, com base na razão. Para Kant, servir-se da sua própria razão é ser autônomo e, portanto, livre”. Ou seja, é a capacidade de um indivíduo racional de tomar uma decisão não forçada, baseada nas informações disponíveis. Na filosofia ligada à moral e à política, a autonomia é usada como base para determinar a responsabilidade moral da ação de alguém.

Levando esta definição em conta, é possível ter uma ideia da abrangência deste tema, pois a autonomia tem relação não apenas com “ser capaz de fazer as coisas por si mesmo”, mas também está ligada ao desenvolvimento da consciência moral. Ou seja, se somos autônomos, somos livres e se somos livres, tomamos nossas decisões, logo devemos arcar com as consequências de nossas ações, por isso devemos ser ensinados a avalia-las.

Na vida dos filhos, a autonomia depende da diminuição da dependência dos pais (e outros adultos, como professores por exemplo) e tem como ganho uma maior segurança em relação as próprias capacidades. Para que a criança se torne autônoma ela necessita ser autorizada por seus pais a crescer e se desenvolver, o que nem sempre é fácil.

Nós, pais, somos a peça determinante na forma como nossos filhos irão avançar e se relacionar com os desafios de suas vidas e a autonomia é sem dúvida um destes desafios. Ela está diretamente ligada, por exemplo, à auto-estima, pois uma criança autônoma se sente capaz, tenta resolver seus problemas e, desta forma aprende, é capaz de se relacionar, se comunicar com as outras pessoas e fazer escolhas.

O desenvolvimento da autonomia na infância permite a construção de uma personalidade saudável e possibilitará o desenvolvimento da capacidade de resolver conflitos ao longo da vida.

Sempre, quando falamos da primeira infância, repetimos que é nesta fase que acontece a etapa mais importante do processo de construção da personalidade, o que pode soar como lugar comum, mas é a mais pura verdade. É nesta etapa que marcas muito profundas criam o tom das relações que estabeleceremos ao logo da vida. Ao longo desta matéria você vai entender porque estou abordando esta questão.

A mãe é a primeira pessoa com que o bebê se relaciona. Ele, inicialmente, não percebe os limites entre ele e ela e é como se os dois fossem uma coisa só. Desta forma, inicialmente, o bebê conhece o mundo através dela, ela é quem o apresenta para ele e isto pode ser feito de diversas formas. Ela pode apresentar um mundo cheio de riscos, perigoso, ameaçador, ou pode apresentar um mundo possível de ser explorado, cheio de riquezas e belezas, mas onde ele deve respeitar algumas regras de convivências, onde ele não encontrará prazeres infinitos e esta apresentação está intimamente ligada com o desenvolvimento da autonomia ao longo do tempo.

Algumas mães temem tanto o contato do filho com o mundo, seja por risco de contaminações quando são bebezinhos, por riscos ligados a segurança ou acidentes quando crescem, ou até mesmo pelo temor que ele sofra, que criam uma redoma que protege a criança de forma excessiva.

Muitas mães estreitam tanto os laços com os filhos que acabam por não permitir outras pessoas de participarem dessa relação, como se os dois permanecessem ligados por um cordão umbilical, e criam uma situação de satisfação completa, onde não faz sentido “olhar para fora” ou pensar de forma autônoma (pois, para haver vida autônoma, é necessário que tenha havido uma separação).

A superproteção impede que a criança desenvolva recursos internos para lidar com a vida e os obstáculos que esta impõe a todos nós. Desta forma, o que pretendia proteger, termina por desproteger, pois torna a criança incapaz de administrar as situações com que inevitavelmente irá se deparar com o passar do tempo.

Muitas vezes, pensando fazer o melhor, as famílias colocam as necessidades dos filhos acima e a frente de tudo e, assim, criam crianças dependentes, inseguras, que não sabem o que querem, pois não estão acostumadas a escolher (afinal, seu desejo é uma ordem).

As pesquisas mostram que, quando a criança permanece grudada com a mãe, em uma relação que chamamos simbiótica, marcada pela indiferenciação (o que pode ser percebido naquelas crianças que não aceitam ninguém que não seja a mãe para nada), normalmente a criança permanece infantilizada. Dessa foma, é comum que ela apresente alguns atrasos no desenvolvimento, os quais podem ser observados em alguns casos na fala, nas habilidades motoras, ou sob outros formatos.

Agora, imagino que muitas de vocês devem estar pensando – “cada criança tem seu ritmo, cada uma tem seu tempo”. Concordo plenamente, crianças adequadamente estimuladas se desenvolvem a seu tempo, umas mais rapidamente, outras mais lentamente. Porém, muitas tem seu desenvolvimento atravancado por ficarem reféns das necessidades de outros, pelas mais variadas (e muitas vezes compreensíveis) razões. São histórias que envolvem muitas vezes sofrimentos profundos, como abortos reincidentes, casos de acidentes fatais, doenças graves, quadros depressivos, separações e abandonos pela figura paterna… Enfim, na maioria das vezes, quem está dentro, dificilmente percebe, mas essas situações levam a uma relação de dependência que impede o desenvolvimento da autonomia.

Uma criança convidada (eu diria convocada) para uma vida dependente fica impedida de crescer e tenderá, ao longo de sua vida, inclusive sua vida adulta, a estabelecer relações de dependência – primeiro dependência dos pais, que se transformará em dependência do marido e no trabalho, se configurará na incapacidade de tomar decisões e permanecer sempre recebendo ordens. E, cá entre nós, pensar que estes pedacinhos de gente dependem de nós para viver alimenta o nosso ego hoje – “ser o tudo de alguém” pode parecer uma missão honrosa -mas nenhuma de nós deseja ver o filho(a) crescer e se tornar uma pessoa insegura e dependente. Correto?!

Para se desenvolver, os filhos devem ser estimulados a crescer e a aprender a fazer coisas que antes não conseguiam realizar sozinhos como, por exemplo, arrumar a cama, colocar o sapato, servir o próprio prato, cortar a própria carne. Além destas tarefas, crescer e se tornar autônomo exige que desenvolvamos a capacidade de tomar decisões, fazer escolhas e assumir as consequências destas escolhas.

Apenas uma criança autônoma aprende a fazer escolhas, avaliar os próprios desejos e sentimentos e traçar metas para alcançá-los. Junto com a autonomia, outras facetas da personalidade se desenvolvem, como a moralidade, e com ela os conceitos de certo e errado, pois a autonomia traz consigo responsabilidades e com elas vem os limites.

Nossa tarefa, portanto, muda, mas não se torna menos importante. Devemos manter uma distância ideal, que permita a nossos filhos experimentar, mas sem perder a perspectiva que podem contar conosco para ajudá-los a avaliar as situações antes de fazer suas escolhas, levantar quando cair e às vezes, depois de vê-los tentar e não conseguir, mostrar que estamos a seu lado e não nos custa fazer por eles mais algumas vezes, enquanto eles aprendem, mas deixando claro que suas tentativas têm valor e que eles logo serão capazes, se continuarem tentando, porém, que nem sempre tentar é sinônimo de conseguir.

Denominei esta distância de ideal porque em alguns momento ela exige que assistamos o fracasso dos filhos e nos limitemos a segurar sua mão e secar suas lágrimas, mesmo que saibamos que se fizessem por eles, esta dor não existiria. Aprender a perder, faz parte de uma vida autônoma e estes aprendizados os tornarão um dia adultos.

Muitas vezes, quando nos tornamos mães, abdicamos de partes importantes de nossas vidas, nos afastamos das(os) amigas(os), do trabalho, as viagens ficam mais complicadas e estas perdas deixam um vazio em nossas vidas. No início, a dependência absoluta do bebê nos preenche de forma que estes “vazios” chegam parecer presentes dos deuses, pois estamos sobrecarregadas demais. Porém, o tempo passa e o bebê vai deixando de precisar tanto de nós, já se alimenta e fica saciado sem necessitar do peito (pelo menos não com tanta frequência), aos poucos começa a se locomover e não precisa tanto de nossos braços e pernas… e vamos nos deparando com as perdas e os vazios e, sem perceber, muitas vezes alimentamos que a dependência dure mais que o necessário, pelo temor do que será de nossas vidas!

Este processo costuma ser sorrateiro e silencioso, afinal, nenhuma mãe pensa “vou deixar meu filho grudado e dependente de mim, pois assim não me sentirei perdida”. As coisas simplesmente se encaminham desta forma. Muitas vezes, as pessoas à nossa volta sinalizam (nem sempre com delicadeza) que a dependência existe ou é excessiva e costumamos ficar muito ofendidas, o que é normal, pois trata-se de um processo complexo, movido por questões muito particulares, mas que precisa ser revisto.

Não podemos esquecer que, para o desenvolvimento da autonomia de nossos filhos, é importante que eles tenham vivências e experiência de vida, para isto, eles devem ser autorizados a experimentar o meio onde estão inseridos, interferir neste e até mesmo correr riscos e para isto acontecer, precisam se separar de nós.

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FOTO COLUNARaquel Suertegaray é psicóloga e mãe da Karol, de 10 anos, uma menina inteligente, esperta e linda que foi adotada aos seis anos de idade. Ela é formada pela PUC-RS e é especialista em Infância e Adolescência e em Avaliação Psicológica pelo Instituto Contemporâneo de Psicanálise e Transdisciplinaridade de Porto Alegre. Já trabalhou como psicóloga de abrigos infanto-juvenis e atualmente atua em consultório particular e como psicóloga escolar. Sob sua responsabilidade também está a Escola Pirlimpimpim de Educação Infantil, da qual é dona e diretora há dois anos.