Amamentação - querer nem sempre é poder | Macetes de Mãe
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Amamentação – querer nem sempre é poder


13 de outubro de 2018

Que o aleitamento materno exclusivo, até os seis meses de idade, é a melhor opção que podemos oferecer para os nossos bebês, nós já sabemos. Mas verdade seja dita, nem sempre é possível seguir com a amamentação. Enquanto para algumas mulheres pode ser tão simples e tão natural, para outras é um verdadeiro desafio. E são inúmeros fatores envolvidos, inclusive externos. Situações que nem sempre conseguimos controlar, como o caso de um bebê que vai para a UTI, impedindo a mãe de amamentá-lo como gostaria.

Foi o que aconteceu com a Nathália Alves, nossa colunista aqui no MdM. Em seu relato, ela conta como superou esse desafio da amamentação e como foi libertador quando entendeu que querer nem sempre é poder. Confira!

Amamentação – querer nem sempre é poder

Minha filha tinha oito dias de vida quando dormiu por dezesseis horas seguidas num sono tão profundo que a impedia de acordar com banhos, trocas de roupa ou para mamar. Fomos parar no hospital e depois na UTI, já que nem com a estimulação de quatro médicos ela acordava. Mas esse texto não vai abordar esse tema e sim o da amamentação que estava em andamento.

Era 1999 e a internet ainda era coisa nova, discada e difícil. Então, as informações sobre gestação e maternidade estavam todas nas revistas mensais impressas que eu devorava em poucos dias. Era um turbilhão de informações a cada mês! Mas em especial uma delas sempre se repetia: o bebê precisa ser amamentado pelo menos durante os seus primeiros seis meses de vida”. Era um mantra.

Eu estava começando esse processo, quando ele foi interrompido bruscamente pela internação. Durante o dia na UTI eu até conseguia amamentar, mas como eu não podia dormir lá, recebi a informação de que enquanto eu não estivesse dariam pra ela leite no copinho e “não na mamadeira”, no que eu nunca acreditei. Já no segundo dia de internação, notei uma certa preguiça dela em mamar, o que foi piorando a cada vez. E por conta de uma série de exames, não consegui mais amamentá-la adequadamente, sendo o copinho a solução adotada pela enfermagem, ao que não me opus, preocupada com questões mais graves.

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No meio de tudo aquilo, não me lembrei de usar a bombinha em casa, e bastou menos de um dia para o meu leite empedrar, surgir uma febre de 40,5° e eu entrar no antibiótico. Uma mastite suspendeu momentaneamente a amamentação. Enquanto isso, na UTI, dá-lhe leite industrializado “no copinho”.

Felizmente em três dias ela voltou pra casa com o assustador diagnóstico “inexistente” e uma prescrição de anticonvulsivante preventivo por seis meses. (Para fechar esse assunto: ela nunca teve mais nada e o neurologista que a acompanhou por quase um ano na sequência, com mil exames em mãos, concluiu que ela tinha era um “padrão de sono diferenciado”.)

Na minha inocência, na volta pra casa tudo entraria na normalidade em pouco tempo. Só que não foi bem assim. Ela realmente não queria mais mamar no peito. De alguma forma ela estava distante de mim, como se aqueles três dias no hospital tivessem afetado gravemente a nossa conexão. A constatação foi óbvia com o passar das mamadas e das inúmeras tentativas fracassadas. Eu realmente não queria aceitar o fim da amamentação aos 12 dias de vida da minha filha. Aquilo era inacreditável e ia de encontro a tudo o que eu havia aprendido nas consultas médicas, programas de TV e matérias de revista. Com esse sentimento e lágrimas nos olhos abri a caixa de mamadeiras guardadas desde o chá-de-bebê e me rendi, inconformada, àquela situação.

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Apesar de o conteúdo ainda ser meu leite descongelado, era inconcebível pra mim. (E eu já sabia que, conforme fosse diminuindo a sucção no peito, diminuiria também a produção do meu leite. Em pouco tempo, ela entraria no leite industrializado de vez). Mesmo vendo que a mamadeira era o que a satisfazia de imediato, na minha inexperiência como mãe aos 23 anos e dona de uma persistência que me caracteriza, eu não pretendia desistir de trazê-la ao meu peito. Eu ainda tinha leite e muita vontade de amamentar, o que mais precisaria acontecer para aquela coisa dar certo? Congelar leite não me parecia prático, nem higiênico e não garantiria a minha produção de leite a médio prazo. O “melhor para ela” era mamar no meu peito e ponto.

Procurei o Grupo de Apoio ao Aleitamento Materno da Maternidade São Luiz que, para minha surpresa, me recebeu de braços abertos apesar do meu parto ter sido na Maternidade Pró-Matre. Lá me incentivaram a insistir na amamentação e me ensinaram um processo de readaptação. O método consistia em conciliar à mamadeira uma finíssima sonda com o objetivo de reensiná-la a sugar. Assim, junto ao bico do meu seio ficava uma ponta da sonda presa a uma gaze. E a outra ponta dentro da mamadeira com meu leite descongelado, de forma que, ao sugar viriam os dois leites e ela voltaria a mamar lindamente.

A realidade é que as mamadas se tornaram momentos tortuosos para nós duas, como se pode imaginar. Ela até sugava e eu via o leite subindo pela sonda. Porém, antes que ele alcançasse a boquinha dela, ela desistia e se punha a chorar, se jogando para trás. Eu me rendia à fome dela, e oferecia a mamadeira.

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Como esperado, minha produção de leite foi diminuindo rapidamente. No entanto, continuei a insistir, até mesmo contrariando a pediatra. Diminuí o tamanho da sonda e passei a usar o leite industrializado na mamadeira. O resultado da minha persistência foi que ela emagrecia na mesma velocidade com que crescia uma enorme frustração em mim.

Comecei a trabalhar na minha cabeça a aceitação daquela situação que se impunha. Eu havia tentado tudo, mas a amamentação não seria mais possível. Era difícil engolir que, no nosso caso, o “melhor” estava se tornando o pior.

Foi tão marcante o momento em que eu decidi jogar fora a sonda! Até me lembro onde estava sentada e que roupas nós vestíamos. Foi libertador!

O que aprendi

Pouco mais de um mês de amamentação e resultado: muito estresse e baixo peso. Poucos dias de mamadeira com leite industrializado, ganho de peso e um bebê mais tranquilo e feliz. Eu me senti aliviada! E sobretudo, aprendi uma lição: o que é melhor para a maioria, nem sempre é o melhor pra gente. É preciso avaliar criteriosamente cada caso para poder tomar a decisão mais acertada.

Mesmo com esse histórico, hoje ela é uma moça que raramente fica doente. Já minha segunda filha foi amamentada por onze meses e hoje apresenta problema respiratório crônico. De forma alguma estou defendendo a não-amamentação. Ao contrário, quanto a esses problemas respiratórios da minha caçula a pediatra sempre dizia: “imagine se ela não tivesse sido amamentada por onze meses”. Então sou super-defensora sim, acho que a gente não deve desistir na primeira, nem na segunda. Mas antes de se desgastar sem necessidade, é preciso respeitar a história do seu filho. E assim, aprender a enxergar que o melhor é o que está escancarado na sua frente e não nas páginas das revistas.

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