Categorias: Coluna Psicologia Infantil

Desapego: vamos praticar e ensinar às crianças

Compartilhe:
pin it

Eu sempre tento praticar o desapego aqui em casa. Se já não uso determinada peça de roupa há meses, separo para doação. E faço o mesmo com roupas e brinquedos das crianças. De tempos em tempos separamos alguns objetos para doar. Até brinquedos novos que eles ganham repetido ou muito parecido com um que já tenham, separo para doar às crianças que precisam mais.

E sei que não estou sozinha nessa. Muitas mamães fazem o mesmo. É um ato que ensina muitas valores aos nossos filhos desde pequenos. Como relata no texto abaixo, a Nathália Alves, nossa colunista. Ela aprendeu com sua mãe o valor de praticar o desapego e ajudar a quem precisa. Hoje, ela é mãe de duas adolescentes que aprenderam desde cedo o mesmo valor: “As pessoas são mais importantes do que as coisas”. Confira essa história emocionante de como as meninas da Nathália aprenderam sobre o desapego.

Bora praticar o desapego

Por Nathália Alves

Minha mãe sempre dizia: “se uma roupa não te serve mais, ela já pertence a outra pessoa”. Cresci com esta espécie de incômodo – sempre que olho para uma blusa que está ali há tempos e não uso nunca. Reforçando esse conselho materno, lembro das consultoras de moda afirmando que é improvável você usar novamente uma peça parada há mais de 12 meses. Nesse período, temos muitas oportunidades de usar uma roupa já que passamos por quatro estações do ano. Assim sou eu desde a adolescência: uma pessoa profundamente desconfortável quando segura algo que já não é mais seu. E além de não manter no armário o que não uso, criei um curioso hábito: toda vez que compro uma peça nova, tiro outra da prateleira, o que minha mãe chamaria de “passar para frente”. É quase um “toc”. Vale registrar que não sou minimalista e tenho apego a outras tantas coisas.

Depois que me tornei mãe comecei, assim que pude, a passar esse costume para minhas filhas. De tempos em tempos sugiro que façam a famosa “rapa” de roupas, sapatos, livros e objetos que não usem mais para doação. E não pensem que o marido escapa. Helena tinha mais ou menos 6 anos quando fez o seu primeiro desapego. Naquela semana, intensas chuvas deixaram algumas cidades de Santa Catarina submersas e o Brasil, comovido, unia-se no movimento de enviar toda ajuda possível, numa daquelas demonstrações de solidariedade que a gente vê muito nesta terra.

Leia também: a importância das avós na educação das crianças

Depois de explicar como fatos tristes acontecem e o que podemos fazer para colaborar, a pequena e sua irmã de 10 anos saíram pelo quarto abrindo portas e gavetas, animadas com a missão recebida.  Nunca me esqueço que, enquanto eu tinha o foco total nas camisetas e cobertores, a primeira doação que Helena trouxe foi uma boneca e alguns gibis. Fiquei sensibilizada com aquilo, era um olhar infantil para a situação. Talvez a gente não se dê conta, mas numa enchente as crianças também perdem o seu “tudo”. O tudo que caracteriza sua infância. Tantos símbolos da melhor fase da vida vão por água abaixo. E quem vai lembrar deste detalhe quando o que falta para a família são itens essenciais como cama, fogão e geladeira?

Levamos nossas caixas e sacolas até o Corpo de Bombeiros, o que certamente já valeu como um passeio inesquecível. Aquela vivência de cidadania ficou eternizada na mente delas e na minha ainda mais. Era a continuação do ensinamento da minha mãe.

Hoje elas são adolescentes e muitas vezes torcem o nariz para as minhas solicitações de desapego. Pura preguiça. Mas sempre fazem, já que eu fico no pé. No entanto, agora antes de seguirem para a doação, as peças passam por uma espécie de “bazar interno”, quando trocamos entre nós principalmente roupas, bijuterias e maquiagens. Afinal, tem que haver alguma vantagem em ser velha e ter filha usando a mesma numeração. É por este motivo também que invisto em bons produtos de make-up para elas. Um dia eles podem ser meus!

Leia também: 20 verdades sobre ter dois filhos

É bem verdade que às vezes esse troca-troca sustentável que acontece na nossa sala pode gerar alguns conflitos posteriores, já que a memória delas é fraquíssima. É bastante comum ouvir por aqui:

“Ei, você está com a minha blusa!”

– “Claro que não! Você doou na última rapa, esqueceu? Peguei pra mim, ué!”

– “Imagina! Eu nunca doaria essa blusa!”

Enfim, discussões à parte, creio com isso termos agregado ainda mais valor à nossa rapa, chegando a uma performance de quase 100%. Todo mundo fica feliz: nós ficamos e quem está esperando nossa ajuda também.

Há algumas semanas a televisão noticiou, infelizmente, nova tragédia: um incêndio no centro de São Paulo. Fiquei triste com o acontecimento e emocionada ao ver partir espontaneamente da minha filha, agora com 14 anos: “Bem que a gente poderia doar alguma coisa, né?”. Acho que a essência foi absorvida não só pela cabeça, mas pelo coração.

E era isso o que eu queria. Que elas acreditassem num dos valores mais importantes que aprendi com a vovó: “As pessoas são mais importantes do que as coisas”. E como são!

Veja mais!