Relato de gestação e parto na China

Depoimento – Relato de gestação e parto na China


14 de setembro de 2013

Hoje é dia relato de parto pelo mundo. E o que vem a seguir foi na China! Está curiosa? Então não deixe de ler a história da Cris, de 29 anos, mãe do Théo, de um ano e quatro meses

Relato de parto na China

Por Cris Agostini

Meu nome é Cris Agostini, tenho 29 anos e moro em Dongguan, China, há quatro anos.

Sou casada há três anos e sempre me imaginei uma mulher de negócios! Nunca levei jeito com crianças e, na verdade, acho que elas também nunca foram muito com a minha cara. Quando minhas amigas me falavam sobre o tal relógio biológico, eu achava graça. Achava que eu não tivesse nascido com o tal gene pra ser mãe e, pra ser bem sincera, até hoje tenho lá as minhas dúvidas! (risos!)

Só que, chega uma hora na vida que as coisas começam a mudar, começamos a ver o mundo de outra forma e as nossas certezas já não são mais as mesmas ou talvez não são tão fortes. E assim, eu e o meu marido, resolvemos começar a tentar engravidar. Sim, isso aconteceu, apesar de eu achar que nunca o meu relógio biológico iria despertar, e foi  no exato momento que comecei a ficar abobada ao ver crianças na rua, mulheres gravidas, e por aí afora.

E, como quase toda a tentante, pensei que as tentativas seriam longas, porque tomava anticoncepcional há mais de 10 ano (isso foi em junho de 2011), sempre controlei meu calendário menstrual rigorosamente e nunca me atrasei. Comecei a ler as inúmeras informações úteis e inúteis sobre concepção, simpatias, mandingas e o que poderíamos fazer para inclusive escolher o sexo do bebê. Parei com a pílula, e na próxima ovulação a primeira tentativa! Foi engraçado, era um tal de tomar café forte e botar perna para cima que parecia filme de comédia!!! No dia que era para ter descido, nada aconteceu, imaginei que não podia ser nada já que tinha parado com o remédio há tão pouco tempo. Três dias depois, nada de descer, então resolvi comprar um teste de farmácia, que aqui é meio complicado porque dificilmente se acha algum em inglês, mas eu precisava saber! E logo de cara apareceu, aqueles dois risquinhos rosa inconfundíveis!

Não acreditei, pensei que era o lote do teste que devia estar com defeito, fiz outros seis, de marcas diferentes, e todos positivos!

Quase infartei! Não estava pronta! Não sabia se era isso mesmo que eu queria. E agora? Eu moro na China! Longe, muitooooo longe de tudo! Fui ao hospital para fazer um exame de sangue, disse para a enfermeira que falava inglês, que queria confirmar se estava gravida, e a primeira pergunta que ela e a ginecologista me fizeram foi: “Se você estiver, você vai querer ter o bebê?” Sim, aqui o aborto é legalizado, e no hospital onde o Théo nasceu, ao lado da sala de parto ficava a sala de aborto. Triste, muito triste. Mas enfim, disse que sim, é claro, ia ter o bebê! E eis que era mesmo minha vez de ser mãe!

A  minha gravidez não foi das mais fácil, mas também não posso dizer que tenha sido das mais difíceis. Passei muito mal, tive muito enjôo e azia, entretanto, por outro lado, todo resto correu melhor do que o esperado. Sem contar que o acompanhamento foi ótimo e o fato do meu marido falar bem chinês facilitou tudo.

Aqui em Dongguan a comunidade brasileira é muito grande, tenho muitas conhecidas que tiveram bebes aqui, então não foi difícil decidir por fazer o parto aqui mesmo. Até porque, com a quantidade de crianças chinesas que nascem todos os dias, se eles não souberem fazer parto não sei quem sabe!

Queria parto normal, aquático, mas no sétimo mês amarelei. Diziam-me que meu bebê era grande, que a sua cabeça era grande e aí eu fui ficando com medo e acabei optando por marcar uma cesárea. Não me arrependo, fiz o que tinha condições de fazer por ele e por mim, mas ouvi horrores a respeito dessa decisão. Fazer o quê? Foi a minha decisão e as pessoas teriam que entender.

Me internei num sábado, 07 de abril de 2012, fiz todos os exames, e o parto seria no dia seguinte, um domingo de Páscoa, pela manhã. Nossas famílias no Brasil estavam em polvorosa! E o fuso horário atrapalhava um pouco (estamos 11 horas a frente do Brasil).

Alguns amigos vieram no domingo para nos dar um apoio, e eu não podia estar mais nervosa! Nos levaram para a sala de cirurgia às 10h da manhã (nossa médica, Dra. Qin, é um amor mas não fala quase nada de inglês!!!) e, quando conduziram meu marido para uma sala de preparação, e eu entrei em pânico! O anestesista insistia em falar comigo e me fazer perguntas em chinês, que eu não entendia, e eu só pedia pelo meu marido! Dai entendi ele dizer que o Alê só poderia entrar depois de feita a anestesia. Que choque para mim! Dei trabalho, pulei três vezes, tiveram que me segurar, mas no final das contas, não doeu nada!

Quando o Alê entrou, a tranquilidade dele me guiou por todo o processo. Ele assistiu tudo  e eu fiquei esperando a reação dele para saber se o Théo havia chegado enfim. Quando o rosto dele se iluminou, e aquele chorinho tímido interrompeu o silêncio da sala, eu fiquei sem reação, estava grogue e não conseguia ver nada. E nesse momento, o Alê só dizia: “Ele é lindo, ele é lindo!”. E se o anestesista não tivesse pedido o celular dele acho que não teríamos foto!

Quando ele estava limpinho o entregaram no colo do papai que o mostrou pra mim…Ah, sem palavras!

Bom, às 11h, estávamos todos de volta ao quarto (aqui é no próprio quarto que nos recuperamos) e subimos todos juntos: Alê, Théo e eu!

Théo, na piscina do hospital.

Aqui no hospital também são usadas piscinas para a adaptação dos bebês fora do útero, uma graça! Eles colocam uma boia no pescoço do bebê e o deixam nadar por 10 minutos, o Théo só dormia, mas tudo bem! Era bem relaxante para ele! No segundo dia de vida no hospital ele já foi para a tal piscina, e por ter sido tão bacana para ele acabamos colocando o Théo para nadar os outros dias todos de internação.

O período de internação aqui para parto cesárea é de sete dias e eu confesso que foi o melhor para mim. Demorei para levantar da cama e sentia muitas dores, mas por conta desse período longo de recuperação, quando voltei para casa estava praticamente 100%. Minha sogra também veio para nos ajudar nesse começo, e não sei se teria passado por isso tudo sem a ajuda dela!

Tive muito leite, muito mesmo, e o Théo mamava demais. Algumas vezes, o intervalo chegava a ser de 1h / 1h e meia.  Além disso, eu não sabia muito sobre a amamentação e no hospital as enfermeiras também não ensinaram nada. Só chegavam no quarto perguntando se o bebê estava mamando bem e era isso. Então, vocês já imaginam o resultado, né? Depois de um mês, tive rachaduras horríveis, os dois bicos ficaram quase que totalmente abertos ao redor. De tudo, até hoje, essa foi a pior parte, a mais difícil, por que era minha, só minha responsabilidade alimentar meu filho e eu não podia mais.

Aos 45 dias de vida, ele começou a tomar fórmula. E eu me libertei de toda e qualquer culpa quando me disseram que meu papel como mãe era alimentar meu filho, não deixar faltar-lhe  leite, não importando a fonte. E foi o que fiz, mas não sem restar ainda uma pontinha de tristeza quando penso e relembro isso.

Graças a Deus o Théo é uma criança extremamente saudável, forte, esperta, alegre! Sempre sorrindo! Lindo! E eu aprendendo com ele o que é ser mãe, aprendendo a me doar 200%, aprendi a ter uma força inimaginável para garantir que ele esteja sempre bem!

Para mim a experiência de ter meu primeiro filho na China foi sim muito assustadora, mas também gratificante. Fomos muito bem tratados pela equipe médica e de enfermagem, e essa diferença em dias de internação, que no meu caso acabaram sendo seis porquê já estava bem para tirar os pontos, foi essencial. Eu não sei como teria condições de cuidar do pequeno, de mim, da casa saindo logo do hospital, estava muito assustada, com dores, e sem saber direito o que fazer com um bebê recém nascido. Por outro lado, é claro que estar perto da família nessas horas é tudo que se pode querer (acho que todas nós queremos correr para o colo das nossas mães, não é verdade?) e isso não foi possível para mim, mas sei o quanto nossas famílias, apesar da distância, torceram e rezaram para que corresse tudo bem por aqui. E correu!

É o mais puro clichê o que vou dizer agora, mas a Cris mamãe nasceu naquele dia 08 de abril, juntinho com o bebê Théo e isso me faz a mulher mais feliz do mundo!