O  que é a tão temida cefaleia pós-raqui? | Macetes de Mãe
cefaleia pós-raqui

O  que é a tão temida cefaleia pós-raqui?


23 de setembro de 2018

Olá mamães! Vocês já devem ter escutado falar que alguma mulheres passam a sentir dor de cabeça após o parto. Bom, sentir isso é sinal de alerta e deve ser investigado. Pode ser sintoma de cefaleia pós-raqui. Nossa, Shi, mas o que é cefaleia pós-raqui?

Para entender melhor o que é cefaleia pós-raqui, por que isso acontece e como pode ser evitado, a Dra.Carolina Mocarzel, especialista em ginecologia e obstetrícia, colunista aqui do MdM, nos enviou um texto muito bem detalhado sobre o assunto. Confira e compartilhe!

O  que é a tão temida cefaleia pós-raqui?

Para entender, começaremos falando sobre a anestesia obstétrica

“Luciana, paciente querida que acompanhava desde a parte ginecológica, quando estava planejando engravidar. Assim que engravidou comemoramos muito e iniciamos um pré natal, sempre com consultas leves e tomadas pelo seu eterno bom humor. Com 39 semanas, Luciana entrou em trabalho de parto. Não posso dizer que foi fácil, pois o processo de realmente começar a dilatar foi longo e doloroso, mas evoluiu! Ao longo do trabalho de parto realizamos a analgesia de parto para alívio da dor.

No caso dela, optamos pela técnica combinada que consiste na raquianestesia (que tem ação mais rápida porém em torno de 2 horas seu efeito cessa) associado à peridural que permite passagem do cateter e manutenção da analgesia. Depois de 2 horas de período expulsivo, acabamos indicando uma cesariana, pois o Bernardinho realmente não conseguia passar (tecnicamente o diagnóstico era do que chamamos de desproporção céfalo pélvica). O parto foi ótimo e Bernardinho nasceu super bem. O pós parto imediato foi ótimo, até a Lu começar a ter dores de cabeça intensas que só melhoravam quando deitava completamente, a zero grau. Nesse cenário, foi fácil pensar que o diagnóstico era de cefaleia pós-raqui.”

O cenário atual da obstetrícia cada vez mais estimula as gestantes a conhecerem mais sobre as possíveis vias de parto (vaginal ou cesáreo) e também sobre a forma com que os procedimentos anestésicos são realizados. Por isso, acredito seriamente que quanto mais informação uma gestante recebe, melhor será seu pré natal e, consequentemente, seu parto. Logo, há que se conversar sobre procedimentos anestésicos no momento do parto.

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Na cesariana, obviamente, todas as pacientes são anestesiadas. Já no parto vaginal, a analgesia de parto (procedimento que visa aliviar a dor mas sem prejudicar as contrações e a movimentação) é uma escolha da paciente. Há mulheres que têm uma boa tolerância a dor e sobretudo se preparam para o parto preferindo que este seja com acolhimento da equipe, porém sem procedimentos anestésicos. Não há resposta correta para essa escolha, não há parto melhor ou pior. Desde que seja com segurança, cada mulher vai parir como achar melhor.

Atualmente, cerca de 99% de todas as indicações de anestesia para cesariana e analgesia de parto são realizadas com “bloqueios condutivos”, ou bloqueios do neuro-eixo, as conhecidas peridural e raquianestesia. A escolha entre as duas modalidades é muito pessoal para o médico anestesiologista, variando desde a sua experiência até outros detalhes mais técnicos.

A raquianestesia nada mais é do que a injeção de anestésico local no canal raquidiano, a fim de retirar a sensibilidade da parte inferior do abdome e dos membros inferiores. Algumas características desta técnica, como o excelente controle do nível de anestesia que proporciona ao paciente, a qualidade do bloqueio sensitivo e motor, o baixo custo e a segurança da técnica explicam por que este procedimento anestésico é um dos preferidos dos anestesiologistas do Brasil.

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Para sua realização, a paciente, deitada de lado e curvada para frente ou sentada, tem uma fina agulha introduzida nas suas costas, no intervalo entre as últimas vértebras lombares (L3/L4; L4/L5), até o canal medular, no espaço onde circula o líquor e onde será injetado o anestésico. A dor dessa introdução é inteiramente suportável, mas para evitá-la costuma-se ser feita uma anestesia local. Para alguns procedimentos médicos, basta uma injeção única. A perda das sensações e dos movimentos começa de baixo para cima (dos pés para o umbigo) e a recuperação se dá no sentido contrário (do umbigo para os pés).

A anestesia peridural (ou epidural) é um tipo de anestesia aplicada no espaço peridural da coluna vertebral, sem perfurar a duramáter (membrana que envolve o cérebro e a coluna) e, portanto, sem atingir o líquor (líquido que banha o cérebro e a medula espinhal). Ela retira as dores das contrações, embora essas continuem a acontecer normalmente. E a gestante mantém seus movimentos, o que ajuda na hora do parto. Ela não ocasiona nenhum malefício para o bebê. Nesse momento pode ser realizada a passagem de um cateter que permite nova dose de anestésico ao longo do trabalho de parto, caso a paciente volte a sentir dor após a realização da analgesia.

O  que é a cefaleia pós-raqui?

A cefaleia pós-raqui, ou cefaleia pós-raquianestesia, é uma dor de cabeça após uma raquianestesia e tem características bem definidas. A cefaleia pós-raqui tem uma diferença crucial com outros tipos de dor de cabeça. A pessoa, ao se deitar, melhora significativamente da dor. E, ao se levantar, ficando sentada ou de pé, passa a ter dor novamente. Um mito nas mulheres é que dores de cabeça que se iniciam após o parto são por causa da raquianestesia. Mas se não existir este componente postural (melhorar ao deitar e piorar ao levantar), não é a raquianestesia a culpada.

O tratamento da cefaleia pós-raqui consiste no repouso deitada, hidratação vigorosa, uso de remédios anti-inflamatórios, corticoides e cafeína. Felizmente não é uma intercorrência comum, principalmente quando os bloqueios são realizados com agulhas finas e êxito na primeira tentativa. Portanto, quando não são realizadas múltiplas punções.

Voltando à história da Luciana…

Conseguimos, com medicação e hidratação, contornar a cefaleia pós-raqui. Lu teve alta ainda com dor de cabeça e teve que fazer inúmeras adaptações nos primeiros dias pós parto. Como amamentar deitada, hidratação vigorosa e tentar ficar o máximo possível em repouso. Não foi nada fácil, mas felizmente a tempestade passou. Dois anos depois, vem a Lu grávida do Gustavinho (que acabou de nascer em 13 de Junho de 2018). Para esse parto fizemos toda uma programação.

Consulta com anestesista antes, com esclarecimentos sobre tudo que diz respeito a analgesia de parto e cefaleia pós-raqui. Enfim, esclarecimentos sobre os reais riscos de recorrência da complicação. O desejo dessa gravidez era novamente entrar em trabalho de parto e tentar o parto normal. E assim foi! A bolsa rompeu, aguardamos o trabalho de parto. Mas a história se repetiu, com dilatação total o Gustavinho não queria vir e, novamente, indicamos uma cesariana. Parto ótimo, mamãe e bebê super bem. O que fizemos de diferente? Optamos nesse parto por não repetir a raqui e somente realizar o bloqueio com anestesia peridural. Tudo certo! Como resultado, um pós parto sem dor de cabeça e uma nova experiência para essa linda família.

Se você gostou desse post, assista também, no Canal MdM, um vídeo sobre parto normal, humanizado, cesárea, natural e entenda cada um deles: