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Sobre comer e as relações entre pais, mães e crianças

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Sempre achei que comida é um laço de amor e também de história. Afinal, quem não tem uma história de alguma receita que já passou de geração em geração?

Por isso, acredito muito que a comida tem a ver com as relações. Principalmente entre pais e filhos. Nesse post, a nossa colunista Ana Paula, educadora e especialista em crianças de 0 a 3 anos, conta um pouco sobre essa relação.

Sobre comer e as relações entre pais, mães e crianças

A construção do paladar é algo que ocorre a vida inteira, mas, certamente, a qualidade e a diversidade dos alimentos oferecidos fazem toda diferença para uma melhor predisposição a experimentar diferentes sabores.

Nos últimos tempos, tenho pensado muito sobre a relação que as crianças estabelecem com os alimentos, sobre as expectativas dos adultos e sobre o que podemos fazer para favorecer um ambiente agradável nas situações de alimentação.

Para tanto, tenho procurado resgatar como foi a introdução alimentar dos meus filhos, Marina, nascida em 1998, e Pedro, nascido em 2001, e como o que fiz e o que se dizia como qualidade na época, dialoga com a relação que ainda estabelecemos em casa com as situações de alimentação.

Sempre fui muito cuidadosa e bastante criteriosa à forma de apresentar os alimentos e como prepará-los. Ambos mamaram exclusivamente até o sexto mês quando, então, iniciei a introdução alimentar.

Como dava prioridade ao meu leite, com a Marina, um pouco antes de voltar a trabalhar, cuidei para garantir um estoque congelado para evitar que ela tomasse a fórmula receitada pelo pediatra. Ela seria um coringa, em caso de última necessidade. Eu só conseguia ordenhar durante a primeira mamada da manhã, enquanto ela mamava num seio, colocava a máquina no outro e conseguia chegar perto da quantidade esperada. Como amamentava em livre demanda, no resto do dia, produzia apenas o suficiente para ela.

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Não queria que o leite fosse servido em mamadeira, tinha lido que o bebê sentia facilidade ao sugar a mamadeira e com isso logo deixaria de mamar. Então quem fosse oferecer o leite, tinha que dar às colheradas e, com isso, boa parte dos preciosos MLs que conseguia extrair, iam para fora, pois era difícil para minha bebê manejar a colher em sua boca. Ela chorava efusivamente, de fome e incômodo, com aquele objeto estranho.

Após as muitas tentativas e horas de choro, decidi que iria me render à mamadeira. Lembro que pensei que certamente se existiam mamadeiras, era porque havia pessoas que tinham estudado para desenhá-las, além disso, era mais importante que ela estivesse saciada longe de mim, do que passando fome.

Apesar de eu ter me rendido à mamadeira, Marina não se rendeu. Era só colocar o bico em sua boca, que ela punha a língua para fora, num movimento oposto ao de sucção. Foram uns dois meses de tentativas, até que ela aceitasse tomar leite em outro lugar que não no meu seio. O que me fez pensar a seguinte obviedade: que para além de nutrição, mamar no seio é carregado de muitos outros sentidos (para os bebês e para as mães!).

Com o Pedro, a questão da mamadeira foi fácil, como sabia que ele continuaria mamando no seio, eu estava mais tranquila e logo na primeira vez, aos quatro meses, quando voltei a trabalhar aceitou bem o bico e continuou feliz mamando no meu seio até o desmame.

Em paralelo à luta pelo leite, aos seis meses começava a introdução dos novos alimentos. Na época, primeiro devíamos oferecer o suco de laranja lima, depois as frutas e, por fim, as papinhas passadas na peneira de legumes com folhosos (não podiam ser processados no mixer de forma alguma), até que aos nove meses, os grãos eram introduzidos e ao final do primeiro ano, o bebê já estivesse comendo a comida sólida.

Em casa, sempre priorizamos comer todos juntos e os alimentos preparados para cada refeição. Tendo sempre saladas, legumes, algum tipo carne, arroz, feijão ou macarrão.

O Pedro quando pequeno, não gostava de comer nenhum tipo de carne, sempre punha para fora da boca e do prato, mas como não somos vegetarianos, sempre servíamos um pedaço em seu prato e o incentivávamos a provar. Como isso nunca se configurou como um problema, em algum momento que nem me lembro qual, ele passou a pedir para repetir as carnes, o que também não foi motivo de nenhuma comemoração de nossa parte. Ele também não era fã de saladas, comia alguns legumes e verduras cozidas, mas não gostava dos alimentos crus. Por isso, suas porções de salada eram pequenas, mas sempre ele experimentava um pouco.

A Marina não gostava de comer peixe, mas aos sete anos ela passou por uma reeducação alimentar por conta de um problema congênito de colesterol e aprendeu a comer salmão e outros peixes.

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Em casa, desde que tivemos filhos, não compramos alimentos congelados ou ultra processados. Conforme as crianças foram crescendo e frequentando a casa dos amigos, elas começaram a conhecer alguns destes alimentos e algumas vezes, falavam meio queixosos que a comida fora de casa era mais gostosa.

Lembro de uma vez, preparar um macarrão super caprichado e do Pedro, saborear e de forma muito amorosa dizer que “estava tão bom que parecia até um miojo”. Tive que ligar meus ouvidos de educadora para entender isto como um elogio, afinal, miojo era um alimento idealizado por ele, que muitos amigos comiam e ele não.

Agora, com 21 e 18 anos, vejo meus filhos como pessoas muito predispostas a comer de tudo. Pedro quer sempre experimentar os alimentos mais inusitados, como pé de galinha, língua e miolo. Marina, neste quesito é mais seletiva, mas ambos além de gostar de fazer as refeições sempre à mesa e de preferência acompanhados por alguém, gostam de cozinhar e conhecer receitas de comidas.

No decorrer deste resgate pessoal, acessei em paralelo as mudanças sobre as recomendações em relação à introdução dos alimentos. Sabe-se, atualmente, que não é adequado oferecer sucos às crianças, sendo preferível oferecer as frutas, para que a quantidade de açúcar (frutose) e fibras ingeridas sejam mais equilibradas. Com relação as refeições, há a tendência a oferecer os alimentos em pedaços e não mais em papinhas, além de outras mudanças.

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Acredito que para além do diálogo com o que os estudos e especialistas dizem sobre como e o que deve ser oferecido aos bebês e crianças pequenas, as situações de alimentação são momentos de trocas culturais e afetivas nas famílias, nas quais as relações estabelecidas e os sinais que os pequenos nos apresentam devem ser levados em consideração. Devemos entender que comer é decorrente de um processo de aprendizagem; que os movimentos que a boca faz para garantir um melhor sucção no seio, são diferentes dos movimentos para mamar na mamadeira, ou numa colherinha; que colocar o alimento para fora, amassá-lo, cheirá-lo são formas de conhecer seu sabor, sua textura e temperatura; que alguns sabores agradam prontamente algumas crianças e outros demandam algumas experimentações.

Considero, também, que pais e mães devem ser coerentes com o que propõem às suas crianças, pois é até possível que na introdução dos alimentos consigam garantir uma alimentação saudável, mas à medida que as crianças crescem, elas começam a perceber as contradições nas ações dos adultos. Vale pensar que o nascimento dos filhos é uma ótima oportunidade para novas experimentações também para os adultos. Que tal?

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